As Forças Armadas, a democracia e Bolsonaro. Entenda os bastidores

Atenção: esta reportagem foi atualizada às 18h para restabelecer a verdade sobre o real significado das diversas manifestações recentes dos chefes militares.

Em nota divulgada nesta terça-feira (31), quando se completam 56 anos do movimento militar que destituiu o então presidente João Goulart, as Forças Armadas reafirmaram seu compromisso com a democracia. No comunicado (veja a íntegra mais abaixo), o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica defendem o regime militar (1964-1985), mas ressalvam que o ambiente do país àquela época era outro.

Brasileiros podem continuar a fazer suas escolhas, diz Azevedo e Silva em nota. Foto: Valter Campanato/ABr

O Congresso em Foco traduz: reafirmando o tom do pronunciamento da semana passada do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, a prioridade dos militares agora é a pandemia de covid-19. O inimigo fundamental, pois, é o novo tipo de coronavírus que até as 16h desta terça já tinha causado perto de 40 mil mortes e quase 810 mil casos reportados, considerando os números oficiais. E não mais o comunismo, fantasma ressuscitado pela extrema-direita brasileira, Bolsonaro à frente, para alardear – entre outras bobagens – que o vírus teria sido criado pela China para fragilizar as outras nações e dominar o mundo. Falta explicar a razão para fazer isso, se os chineses perderam mais de 3,4 mil vidas humanas, tornaram-se alvo de restrições e de preconceitos em escala global e levaram um baque econômico do qual vão demorar tempo para se levantar.

A mensagem dos chefes militares, nem sempre de compreensão fácil para o público externo, é que em 64, em plena guerra fria, as preocupações com o comunismo se justificavam. Agora, o grande adversário é a pandemia e é contra ela que devem se juntar todas as forças sociais, políticas e institucionais, incluindo governo federal, estados, municípios, mídia e entidades da sociedade civil. Isso ficou mais claro na nota do Ministério da Defesa.

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“A convergência foi adotada como método para construir a convivência coletiva civilizada. Hoje, os brasileiros vivem o pleno exercício da liberdade e podem continuar a fazer suas escolhas”, diz o texto. “As Forças Armadas acompanharam essas mudanças. A Marinha, o Exército e a Aeronáutica, como instituições nacionais permanentes e regulares, continuam a cumprir sua missão constitucional e estão submetidas ao regramento democrático com o propósito de manter a paz e a estabilidade”, completa a nota. O documento termina com a afirmação de que 64 foi um "marco para a democracia brasileira, muito mais pelo que evitou".

Evitou o quê? Na visão predominante entre os militares, evitou o socialismo e o caos. Com ambiguidade típica do linguajar militar, portanto, a nota de um lado reafirma o compromisso com a democracia. Do outro, preserva e exalta a memória de 1964, na mesma linha de manifestações recentes do vice-presidente Hamilton Mourão e do general Villas Boas, ex-comandante do Exército que hoje, na reserva, trabalha como assessor da Presidência da República:

A mensagem acima, publicada por Villas Boas no Twitter, diz: "Conheço o presidente e sei que ele não tem outra motivação que não o bem estar (sic) do povo e o futuro do país", escreveu, referindo-se ao seu chefe e exalando o espírito de subordinação à autoridade presidencial. Lembremos que o presidente da República, é o comandante supremo das Forças Armadas. Mas, de modo sutil, encontrou uma forma de se posicionar contra várias das ações que Bolsonaro patrocinou ou apoiou.

Greve dos caminhoneiros foi apoiada e estimulada por Bolsonaro

Villas Boas afirma que “muitos dos protagonistas não entenderam que uma crise exige, sinergia, integração de esforços e compatibilização de visões de curto e longo prazo”. Alguém tem dúvidas sobre qual o seu alvo? Quem atacou governadores? Cometeu a proeza de endossar a leviandade do filho ao criar um conflito diplomático com a China, nosso maior parceiro comercial, em plena pandemia? Diverge publicamente do  ministro da Saúde? Não para de desrespeitar jornalistas e jornalismo?

O único nome que pode ser oferecido como resposta é o de Bolsonaro, o mesmo que há muito tempo se dedica à arte de jogar a população, envenenada por bolhas de desinformação que ele e os filhos manejam diretamente, contra o Congresso e o STF. Ora, Bolsonaro já foi denunciado ao Supremo pela bagunça que não para de causar nas ações de prevenção e combate ao coronavírus.

Há uma referência especialmente provocativa de Villas Boas às “lições” deixadas pela  greve dos caminhoneiros, que Bolsonaro e seus aliados apoiaram e estimularam. O pito do general Villas Boas, que ainda desfruta de liderança entre as tropas, é evidente para quem sabe ler nas entrelinhas ao condenar expressamente as “visões e ações extremadas” e ponderar que “a virtude está no centro”.

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Leia agora a íntegra do comunicado do Ministério da Defesa e nos encontramos lá embaixo, após a transcrição, para apresentar a você declarações exclusivas ao Congresso em Foco de um importante porta-voz militar.

NOTA DO MINISTÉRIO DA DEFESA

“Ordem do Dia Alusiva ao 31 de Março de 1964
Brasília, DF, 31 de março de 2020.

O Movimento de 1964 é um marco para a democracia brasileira. O Brasil reagiu com determinação às ameaças que se formavam àquela época.

O entendimento de fatos históricos apenas faz sentido quando apreciados no contexto em que se encontram inseridos.  O início do século XX foi marcado por duas guerras mundiais em consequência dos desequilíbrios de poder na Europa.

Ao mesmo tempo, ideologias totalitárias em ambos os extremos do espectro ideológico ameaçavam as liberdades e as democracias. O nazifascismo foi vencido na Segunda Guerra Mundial com a participação do Brasil nos campos de batalha da Europa e do Atlântico. Mas, enquanto a humanidade tratava os traumas do pós-guerra, outras ameaças buscavam espaços para, novamente, impor regimes totalitários.

Naquele período convulsionado, o ambiente da Guerra Fria penetrava no Brasil.  Ingredientes utópicos embalavam sonhos com promessas de igualdades fáceis e liberdades mágicas, engodos que atraíam até os bem-intencionados. As instituições se moveram para sustentar a democracia, diante das pressões de grupos que lutavam pelo poder. As instabilidades e os conflitos recrudesciam e se disseminavam sem controle.


A sociedade brasileira, os empresários e a imprensa entenderam as ameaças daquele momento, se aliaram e reagiram. As Forças Armadas assumiram a responsabilidade de conter aquela escalada, com todos os desgastes previsíveis.

Aquele foi um período em que o Brasil estava pronto para transformar em prosperidade o seu potencial de riquezas. Faltava a inspiração e um sentido de futuro. Esse caminho foi indicado. Os brasileiros escolheram.  Entregaram-se à construção do seu País e passaram a aproveitar as oportunidades que eles mesmos criavam. O Brasil cresceu até alcançar a posição de oitava economia do mundo.

A Lei da Anistia de 1979 permitiu um pacto de pacificação. Um acordo político e social que determinou os rumos que ainda são seguidos, enriquecidos com os aprendizados daqueles tempos difíceis.


O Brasil evoluiu, tornou-se mais complexo, mais diversificado e com outros desafios.  As instituições foram regeneradas e fortalecidas e assim estabeleceram limites apropriados à prática da democracia. A convergência foi adotada como método para construir a convivência coletiva civilizada. Hoje, os brasileiros vivem o pleno exercício da liberdade e podem continuar a fazer suas escolhas.


As Forças Armadas acompanharam essas mudanças. A Marinha, o Exército e a Aeronáutica, como instituições nacionais permanentes e regulares, continuam a cumprir sua missão constitucional e estão submetidas ao regramento democrático com o propósito de manter a paz e a estabilidade.


Os países que cederam às promessas de sonhos utópicos ainda lutam para recuperar a liberdade, a prosperidade, as desigualdades e a civilidade que rege as nações livres.


O Movimento de 1964 é um marco para a democracia brasileira. Muito mais pelo que evitou.


FERNANDO AZEVEDO E SILVA

Ministro de Estado da Defesa


ILQUES BARBOSA JUNIOR

Almirante de Esquadra
Comandante da Marinha


Gen Ex EDSON LEAL PUJOL

Comandante do Exército

Ten Brig Ar ANTONIO CARLOS MORETTI BERMUDEZ
Comandante da Aeronáutica,”

A posição das Forças Armadas, reforçamos, vai na direção contrária daquela exposta pelos poucos brasileiros que resolveram desafiar o coronavírus no último dia 15 para pedir intervenção militar e o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF). A ousadia de Bolsonaro irritou os chefes militares, que têm reiterado que nada farão contra a ordem constitucional e que sua prioridade é salvar vidas humanas, isto é, combater a pandemia. “O direito à vida está logo no primeiro artigo da Constituição, disso as Forças Armadas não vão se afastar”, soprou a este site uma voz influente nos quartéis, enfatizando a necessidade de priorizar o combate à pandemia", soprou a este site uma voz influente nos quartéis.

Transcrevemos, por fim, as declarações prestadas há pouco ao Congresso em Foco pelo General Peternelli (PSL-SP), coordenador das candidaturas de membros das Forças Armadas a cargos políticos em 2018, ano em que também se elegeu deputado federal. General da reserva, Peternelli é fã confesso do trabalho do presidente da Câmara,  Rodrigo Maia, aquele que alguns bolsonaristas adoram difamar, geralmente baseando-se em meias-verdades ou mentiras completas.

Com a palavra, o deputado General Peternelli:

General Peternelli: Peternelli: "Forças Armadas têm de ser apolíticas". Foto: Michel Jesus/Ag. Câmara

"Vejo a nota [do Ministério da Defesa] como um registro histórico. O sentimento é de que as atividades foram desenvolvidas para na época evitar um regime comunista que não teria aspecto democrático. O momento agora é de concentrar esforços no combate ao coronavírus. Entre os militares, há um posicionamento majoritário favorável ao isolamento como melhor meio para isso. Como a formação do militar muitas vezes é científica, ele tende a seguir a maior corrente científica de que vale a pena, nesta fase inicial da epidemia, o isolamento social. Mas não há contexto de preferir o presidente ou vice-presidente. As Forças Armadas têm de ser apolíticas. A pessoa pode ter seu ponto de vista pessoal, mas não pode esquecer que desempenha uma função. Não tenho percebido manifestações pró-Bolsonaro ou pró-Mourão.”

E é assim, com seu sóbrio e por vezes enigmático linguajar, que os militares dão outro recado. Não aprovam as manifestações presidenciais em favor da exposição de crianças e adultos ao risco de retornarem às escolas ou ao trabalho.

Enquanto isso, Bolsonaro entra na mira de ministros do Supremo, passa pelo constrangimento de ter posts apagados por mídias sociais e coleciona derrotas no Judiciário, que proibiu a campanha do governo pela volta ao trabalho em plena pandemia e o impediu de agir contra o isolamento social. O isolamento que lhe resta é o político. Esse é, de fato, crescente e se faz notar ao mesmo tempo em que se avolumam as pressões para Aras e o Congresso agirem e ele vai acumulando demonstrações de declínio do apoio popular.

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