Vitória de Fernández não foi da esquerda, mas castigo a Macri, diz cientista político argentino

Fábio Bispo, especial de Buenos Aires*

O triunfo do peronismo-kirchnerista na Argentina nas eleições do último domingo (27) reacenderam discussões sobre o retorno da esquerda na América Latina. Os gestos do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que lamentou o resultado das urnas e se negou felicitar o novo presidente, e as manifestações do chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) inflaram mais ainda especulações e teorias da conspiração.

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"Fechamento comercial, modelo econômico retrógrado e apoio às ditaduras parece ser o que vem por aí", disse o chanceler brasileiro em sua conta no Twitter sobre as eleições argentinas. A declaração ocorreu no mesmo dia que Bolsonaro desembarcava na Arábia Saudita, onde impera a dinastia monárquica do rei Abd Al Aziz Al Saud. Araújo ainda disse que “as forças da democracia estão lamentando pela Argentina, pelo Mercosul e por toda a América do Sul”.

Eduardo Bolsonaro, o 03, também atacou em suas redes, mas acabou se tornando alvo de piadas ao comparar a economia do país vizinha com base na conversão dólar-preso-real. Após o resultado, Eduardo também já havia atacado o resultado da eleição, escrevendo: “Aqueles caras do PT que você não entende como ainda não estão presos foram para a Argentina comemorar a eleição do novo presidente lá. Além deles Evo Morales e Maduro também estão celebrando. O eleito pediu Lula Livre... Já sabem o futuro da Argentina né?”.

A chapa peronista Frente de Todos, formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner bateu a campanha de reeleição de Maurício Macri e Miguel Ángel Picheto por 48% a 48,4%. Uma margem mais apertada que a esperada e que exigirá habilidade e resultados.

Realizada enquanto as ruas chilenas ardem em protestos contra as políticas do conservador Sebastián Piñera, no mesmo dia que o Uruguai também foi às urnas, para muitos a vitória de Fernández poderia indicar um novo retorno das forças de esquerda na América Latina.

Em Buenos Aires, onde acompanhou o resultado da apuração, o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim afirmou que a vitória de Alberto e Cristina representam um marco contra o “neoliberalismo” em uma onda que poderia ir além da região. "Essas eleições são fundamentais. Nós estamos vendo toda essa reação ao neoliberalismo na América do Sul. Episódios no Equador, no Chile, a própria vitória do Evo Morales na Bolívia, a eleição na Argentina tem um sentido muito forte, porque é o país onde muitas das coisas começaram", disse ele.

Para o cientista político e analista da Medley Global Advisors Ignacio Labaqui, o resultado das eleições argentinas pode ser reflexo de questões muito mais complexas que a polarização esquerda/direita. Ele não compara o resultado com uma nova guinada à esquerda do continente latino-americano, como ocorreu no início dos anos 2000, a exemplo de Lula, Hugo Chávez (na Venezuela), Evo Morales (na Bolívia), Néstor Kirchner (Argentina) e Tabaré Vázquez (no Uruguai), entre outros. Uma pesquisa da BBC em 2005 apontou que três quartos dos 350 milhões de habitantes da América do Sul viviam sob a liderança de presidentes de esquerda.

Professor nos cursos de política latino-americana e relações internacionais da Universidade Católica Argentina (UCA), Labaqui lembra que este ano ocorreram eleições em El Salvador, Panamá, Bolívia, Guatemala, Uruguai e na Argentina, e lembra que os partidos de esquerda perderam mais posições que ganharam.

Em El Salvador, a direita se sagrou vencedora após 10 anos de governos de esquerda, o mesmo resultado tido na Guatemala. Na Bolívia, afirma, “Evo [Morales] ganhou em uma eleição muito questionada” e compara os artifícios do líder com as piores práticas para evitar um segundo turno. “Esta foi a pior eleição de Evo desde que ganhou em 2005”, afirmou.

“Se olharmos o mapa da América do Sul, que onde majoritariamente se produziu a onde de esquerda dos anos 2000, custa falar em uma guinada: no Peru, Paraguai, Chile, Colômbia e Brasil quem governa é a direita”, emenda apontando que no Uruguai, que ainda terá um segundo turno, os partidos de direita e ultradireita têm grandes chances de vitória.

“Há sim um contexto internacional muito complicado e que tem como consequência uma pior performance das economias da região. O que acaba tornando um problema para os oficialistas, seja do partido que forem”, disse.

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“Foi um voto de castigo pela situação econômica”

Labaqui faz uma leitura menos ideológica e acredita que o que também pesou para que o atual presidente argentino Mauricio Macri perdesse votos foi o bolso. Com uma diferença de 8% nas, o clima de racha evidenciado nas eleições dependerá, agora, da habilidade que a nova gestão terá em conseguir capitalizar o descontentamento e transformá-lo em apoio.

O próprio perfil conciliador de Fernández foi determinante para ampliar os votos do núcleo kirchnerista. Com trânsito entre setores produtivos, Fernández tenta, agora, diminuir a polarização e buscar governabilidade. Mas com Cristina de vice, inevitavelmente terá que saber lidar com o anti-kirchnerismo, principal ingrediente da polarização vista nas urnas..

“Diria que foi um voto de castigo pela situação econômica, e o componente deste voto é heterogêneo. Por um lado está o núcleo duro kirchnerista que ronda entre 30% a 35% do eleitorado e o voto dos cidadãos descontentes e frustrados com governo de Macri”, explicou. “A situação do próximo governo é desafiante”.

A polarização política na Argentina, chamada de “grieta”, é um dos componentes que mais preocupam os governantes do país. Quanto mais profunda a “grieta”, mais rachado. Não à toa que ao assumir Alberto Fernández se apressou a propor um pacto social entre todos os argentinos. Nas ruas, cartazes da campanha da chapa Frente de Todos começaram a serem substituídos ainda na noite da eleição por uma nova campanha: “Agora o país de todos”.

“Se por grieta entendemos a polarização, kirchnerismo y anti-kirchnerismo, isso vai seguir porque o kirchnerismo segue existindo no governo. E ele gera um rechaço de forte de ao menos um terço do eleitorado”, aponta Labaqui.

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Peronismo e as crises

O peronismo argentino é um dos movimentos políticos mais intrigantes do século 20. A ala inaugurada em 17 de outubro de 1945 pelos movimentos de trabalhadores que exigiam a liberdade do então coronel Juan Domingo Perón se tornou a marca a política argentina. Ainda nos dias atuais, pesquisadores e estudiosos tentam explicar o fenômeno e o legado deixado por Perón, governou o país eleito pelo voto popular em 1946, 1951 e 1973. E eleição de Cristina e Alberto implica na décima vitória do peronismo nas urnas.

Desde a abertura política de 1983, após oito anos de ditadura, o peronismo é a força política que mais comandou o país. Até 2023, quando terminará a gestão que se inicia em 10 de dezembro, serão 28 anos de peronismo contra 12 de radicalismo e macrismo.

Apesar de ter forte ligação ideológica com o papel central dos trabalhadores na economia, o peronismo não está diretamente associado a esquerda tradicional socialista ou comunista. E na maioria dos casos que os argentinos escolheram o peronismo o país enfrentava crises.

Carlos Menem, tido como peronista mais liberal, assumiu o país em 1989, no marco da hiperinflação, e permaneceu no poder por dez anos, até 1999. Foi sucedido por Fernando de la Rua, da União Cívica Radical, que acabou deixando o país antes do fim do mandato, em 2001, na pior crise da história argentina.

Após cinco presidente passarem pela Casa Rosada em um curto espaço de 11 dias, novamente o peronismo toma o poder no ciclo Eduardo Duhalde e Nestor Kirchner, desta vez um peronismo mais a esquerda e que culmina com uma sequência de dois mandatos de Cristina Kirchner.

Em 2015, o kirchnerismo deixa o poder e não faz sucessor. Macri é eleito com uma agenda liberal e promete a abertura de mercados e nova política cambial, que passou por anos de restrição nas mãos de Cristina.

A nova crise que se instala no governo Macri, considerada a pior em dez anos, volta a colocar o peronismo no centro das atenções para as eleições de 2019. O próprio Macri decidiu de última hora escolher como vice um peronista, Miguel Angel Picheto, ex-aliado de Cristina, para ampliar sua base. No entanto, foi insuficiente para demonstrar que um novo governo marista pudesse dialogar com ideias de Perón.

No entanto, diferente de outras eleições, a gestão Cristina-Fernández demonstra uma força muito maior da vice que em outras ocasiões. Por outro lado, o próprio peronismo deu sinais de dependência da ala batizada de kirchnerismo, da qual sem a figura de Cristina muito dificilmente teria chances de frear a reeleição de Macri.

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