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Dilma e a Agricultura na encruzilhada do desenvolvimento

Para colunista, Kátia Abreu representa o "agronegócio atrasado, colonial, raivoso"

O anúncio antecipado de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura parece ter tido um endereço certo: verificar se a indicação provocaria a ira que estava anunciada. Provocou.

A senadora, que também preside a Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA), está longe do perfil de conciliação, busca por justiça, e foco no desenvolvimento que a presidente deseja para seu segundo round, digo, mandato.

A ficha política de Kátia Abreu a credencia como inimiga da agricultura familiar, de indígenas, de quilombolas, e da sustentabilidade – não aquela “sustentabilidade” de relatórios publicados com fotos lindas e palavras arredondadas –, mas sim da verdadeira sustentabilidade que implica em justiça socioeconômica e ambiental.

Entregar o Ministério da Agricultura a ela é dar, de porteira fechada, um dos mais estratégicos setores da economia brasileira para um modelo de agronegócio atrasado, colonial, raivoso.

O Ministério já está colonizado pelo pensamento latifundiário-agroquímico. Nas mãos da senadora, política habilidosa, a Agricultura irá polarizar o conflito ainda mais, fechando-se atrás da porteira de um pensamento ruralista-elitista.

A dualidade presente nas políticas dos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário precisa ser reduzida, e não ampliada e “rigidificada”.

Kátia Abreu seria um retrocesso em relação ao modelo produtivista de Roberto Rodrigues, o ministro-tucano que Lula colocou na Agricultura para incentivar a organização produtiva do grande setor agroindustrial.

Cabe à presidente encontrar um nome que construa pontes de diálogo, reduza os conflitos, e aumente a produção do campo com justiça e verdadeira sustentabilidade.

Esse seria um bom momento para o próprio PT refletir sobre sua incapacidade de construir políticas para uma agricultura moderna, que atenda a todos os seus públicos.

O partido ocupou-se em denunciar os efeitos do nosso modelo histórico de agricultura e agronegócio: concentração de terras, violência no campo, acordo das elites, dependência no mercado de sementes e de agroquímicos venenosos, migração rural-urbana, desmatamento predatório, degradação violenta do solo e dos recursos hídricos, e encurralamento de minorias sociais, indígenas e quilombolas.

OK, mas como superar esse modelo sem comprometer as contas nacionais? A balança de pagamentos necessita de toneladas de grãos e de arrobas para se equilibrar num cenário internacional dificílimo para a indústria nacional.

A resposta é mais diálogo e ações que reduzam os impactos da agricultura intensiva em capital, aumentam sua produtividade, e gerem sinergias com a agricultura familiar e a agroindustrialização nas pequenas e médias propriedades.

Kátia Abreu não é a pessoa credenciada para esse caminho de diálogo. Nessa encruzilhada, o caminho errado vai jogar a presidente em um atoleiro de conflitos no campo potencialmente explosivos.

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Sobre o autor

Olympio Barbanti Jr.

Olympio Barbanti Jr.

* Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero (SP), fez mestrado em Desenvolvimento Social na Universidade de Wales e obteve PhD em Políticas Sociais pela London School of Economics (LSE). Possui uma especialização em Gestão de Conflitos, pela Universidade de Colorado, Boulder. Exerceu as funções de repórter, editor assistente e coordenador de nacional e política na Folha de S. Paulo. Foi professor e secretário de Relações Internacionais na PUC Minas. Realiza atividades de consultoria em organismos internacionais, empresas privadas, ONGs e no Congresso Nacional.

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