O sobrenome do insensível que derrubou as cruzes na praia

Ninguém guardou o nome do homem que derrubou as cruzes plantadas pelo pai de uma vítima da covid-19 na praia de Copacabana em homenagem aos mortos pela pandemia. Mas todo mundo sabe o sobrenome dele. 

Em todas as sociedades, em todas as eras, os indivíduos agem a partir da sintonia com seus líderes. A atmosfera psicológica dos países e dos povos depende diretamente do tipo de energia que os líderes infundem na população.

Quem consegue esquecer do sorriso escancarado, sincero e carregado de otimismo de Juscelino Kubitschek? Ele próprio suspendeu a censura à música “Presidente Bossa Nova”, de Juca Chaves, que o satirizava. E ainda convidou o músico para uma visita ao Catete.

Outro sorriso que injetou otimismo, apesar das atrocidades do Estado Novo, foi o de Getúlio (“Bota o retrato do velho, outra vez / bota no mesmo lugar / O sorriso do velhinho / faz a gente trabalhar”).

Na segunda guerra, os soldados ingleses que seguiam para o front não recebiam nenhuma promessa de recompensa do primeiro-ministro inglês se voltassem vivos. Pelo contrário. Winston Churchill tinha um prestígio tão grande e transmitia tanta segurança que a única coisa que lhes oferecia era sangue, suor e lágrimas – “blood, sweat and tears”, expressão que terminou dando nome a uma famosa banda de rock. 

Indiferença, ódio, animosidade, antipatia...

No Brasil de Jair Bolsonaro as únicas sinalizações que a população vem recebendo do chefe de governo são de indiferença, insensibilidade, ódio, animosidade, confronto, antipatia e, como disse na TV aquele pai que plantou as cruzes derrubadas, falta de empatia. Bolsonaro, mesmo nos momentos em que, atendendo às recomendações de algum general menos insensível de sua assessoria, tenta manifestar solidariedade às vítimas da pandemia, transmite a sensação de que o faz apenas por obrigação, para cumprir tabela. Não transmite a mínima sinceridade. Isso é, apensas, aterrador.   

Os olhos falam. São “as janelas da alma”, numa expressão que a história guarda há quase 500 anos, pronunciada por Leonardo da Vinci.

Os olhos de Bolsonaro são opacos, secos, duros, ásperos. Não só os olhos, mas a postura marcial, como se estivesse o tempo todo num exercício de ordem unida. Com o reforço no próprio tom de sua voz. Ele mais grita do que fala,  mais ordena que diz. É autoritário até no jeito de ser. O único sentimento que transmite é o do autoritarismo de que se nutre.

Os gestos são de pouco caso e indiferença, inclusive com seus auxiliares. Inacreditável como eles ficaram calados naquela mesa de botequim pé sujo em que se realizava uma reunião ministerial, diante das ameaças de demissão de quem se colocasse contra posições encharcadas de ódio como a de armar toda a população brasileira.

Qualquer pessoa com um mínimo de brio e respeito próprio teria imediatamente pedido o boné e caído fora. Mas eles apenas ouviram, alguns baixaram a cabeça, concordaram ou fingiram que não era com eles. Ah, a sedução do poder...

 Bolsonaro não consegue sentir

Se olhos, postura, entonação e gesticulação dizem muito mas são de  difícil comprovação, as palavras que vem proferindo comprovam integralmente sua insensibilidade. E demonstram que ele é portador de algum tipo de desvio de caráter que o impede de “sentir”, no sentido de “ter sentimento”. Tal condição o torna incapaz de se colocar na situação dos que sofrem pela perda de um ente querido. As frases proferidas ao longo da pandemia quando confrontado com as notícias das mortes dão uma ideia de um perfil psicológico que beira a perversidade. “E daí? Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres”; “Eu não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento é que outras gripes mataram mais do que essa”. “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”.“O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto (...) e não acontece nada com ele”.

Em todas as manifestações, em todas as falas, em todos os momentos, é fácil perceber que não tem a menor preocupação com a dor real da população. E que trabalha com base num cálculo político-eleitoral. Tem a reeleição como ideia fixa. Num ato falho já anunciou isso: "A nossa missão é entregar em 2023 ou 2027 um Brasil bem melhor pra quem nos suceder”. Se vai morrer muita gente? E daí? Todo mundo vai morrer um dia.

A manada só sabe exprimir ódio e rancor

Essa ausência de empatia tem um enorme efeito multiplicador e amplificador perante seus seguidores. Não há notícia de que, em qualquer lugar ou em qualquer momento, bolsonaristas tenham se unido para ajudar populações desassistidas. Ou manifestado solidariedade aos atingidos pelo vírus. As palavras de ordem, os slogans e as falas dos simpatizantes são todas carregadas de ódio e rancor. Mas isso não vem deles: é o próprio Bolsonaro quem insufla essa insensibilidade, beligerância e falta de humanidade.

Numa entrevista concedida ao pastor Silas Malafaia – será que já encontrou o que o saudoso Boechat mandou ele ir atrás? – Bolsonaro demonstrou total desapreço pelas vítimas do desemprego causado pela pandemia. Até debochou delas. Para ele, quem perde emprego deve montar uma empresa e estamos conversados: “vou criar o programa Minha Empresa, Minha Vida”. Isso foi postado na internet junto a uma foto em que os dois aparecem às gargalhadas, com Bolsonaro fazendo a famosa pose de quem aponta uma arma. Precisa dizer mais?  

Com um presidente incapaz de um gesto, um olhar, uma palavra de apoio e de compreensão e em total indiferença pela dor alheia, é claro que seus seguidores tendem a agir da mesma forma. Quase escrevia: “pensar da mesma forma”. Mas não seria correto, porque a manada não pensa, apenas obedece, imita o líder e ergue seu sobrenome como um estandarte.   

Ninguém guardou o nome do infeliz que derrubou as cruzes plantadas na praia por aquele pai abatido pela perda de um filho. 

Mas todo mundo sabe o sobrenome dele. Ah, sabe.  

Leia outros artigos de Paulo José Cunha

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!