Áudio de Zambelli sugere compra de votos na reforma da Previdência

Está circulando na internet um áudio em que a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) admite que só conseguiu enviar recursos para um município paulista porque votou a favor da reforma da Previdência. A gravação teria sido enviada pela deputada a um governante municipal e está sendo vista pelos parlamentares de esquerda como uma prova de que houve compra de votos na aprovação da Nova Previdência. Procurada, Carla Zambelli admitiu ter recebido emendas, mas disse que não foi uma compra de votos, apenas um "rateio de verbas ministeriais".

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"Infelizmente, o deputado no primeiro mandato não tem verba. É meu primeiro ano de mandato. Só consegui essa verba e indiquei mais R$ 5 milhões para a saúde do estado porque houve uma verba suplementar por conta da reforma da Previdência. Então, todos os deputados que votaram a favor da reforma da Previdência tiveram alguma verba que poderiam tirar de alguns ministérios para poder mandar para alguma cidade", diz o áudio atribuído a Carla Zambelli.

A gravação, que começou a circular na noite dessa sexta-feira (17), chegou aos Trend Topics do Twitter no Brasil na manhã deste sábado (18). Com mais de 6,8 mil tuítes, Carla Zambelli já é um dos dez assuntos mais comentados na rede social.

A maior parte desses comentários vem de vozes da oposição que viram o áudio como uma prova de o governo federal pagou pelos votos dos deputados - até dos deputados que apoiam o governo Bolsonaro como Carla Zambelli - para poder aprovar a sua principal proposta econômica: a reforma da Previdência.

"Somado a diversas manifestações públicas de parlamentares e também do governo, o áudio de Carla Zambelli revela que a reforma da Previdência só foi aprovada a partir da liberação de dinheiro público para compra de votos. Um verdadeiro esquema sujo de 'toma lá, dá cá'", disse, por exemplo, a deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP), que foi uma das primeiras a comentar o áudio e chamou a gravação de "escândalo".

Veja outras reações, publicadas junto com o áudio atribuído a Carla Zambelli:

Até o deputado Alexandre Frota (PSDB-SP), que era aliado do presidente Jair Bolsonaro na época da votação da reforma da Previdência e trabalhou com afinco para aprovar a proposta, usou o termo "compra de votos" para falar sobre o áudio de Zambelli. Veja:

Resposta

Procurada, a deputada Carla Zambelli admitiu ter recebido algumas emendas parlamentares após a reforma da Previdência, mas disse que o que houve não foi compra de votos. "Não existe compra de votos. O que existe, historicamente, é um rateio de verbas ministeriais, de diversos ministérios, que os deputados destinam para suas bases", alegou.

Ela ainda disse que essas emendas foram destinadas a diversos deputados, inclusive os de oposição. "Não foi só gente do governo que recebeu. [...] Eu recebi R$ 5,5 milhões só. Não é muita coisa. Teve deputado da oposição que teve muito mais que eu. E colocam como se o presidente tivesse comprando deputado. Não é assim", reclamou.

Zambelli afirmou que a própria Sâmia Bomfim recebeu emenda e alfinetou: "Uma deputada de primeiro mandato e da oposição ter recebido emenda significa que o recorte do áudio está errado".

A deputada bolsonarista disse, então, que o áudio que está circulando na internet é seu, mas foi modificado. "O áudio está cortado. Deturparam o áudio. Existe um contexto naquilo. Todo mundo sabe que os deputados tiveram emendas, verbas. Mas as pessoas estão querendo deturpar, dizendo que houve compra de votos. Compra de votos teve no mensalão, quando o ex-presidente Lula comprava o voto dos deputados e o deputado saia com dinheiro no bolso. É bem diferente", declarou.

Investigação

A suspeita de irregularidades na aprovação da reforma da Previdência não é nova. Desde a votação da matéria na Câmara, os parlamentares falam sobre a promessa de emendas. E o que se comenta é que a saúde - área abordada no áudio de Zambelli - foi a que mais recebeu esses recursos.

A Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor do Senado, a pedido do senador Rogério Carvalho (PT-SE), chegou até a pedir que o Tribunal de Contas da União (TCU) fizesse uma auditoria nas emendas.

Nesta semana, o assunto virou até alvo de um inquérito do Ministério Público Federal (MPF). O MPF apura se o presidente Jair Bolsonaro; o presidente da Câmara, Rodrigo Maia; e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fizeram interferências indevidas na aprovação da reforma. O inquérito foi aberto a pedido do Psol,que solicitou a investigação da liberação de mais de R$ 444 milhões em emendas irregulares, como lembrou Sâmia Bomfim neste sábado:

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