Bolsonaro ignorou realidade, e país deve chegar aos 180 mil mortos, diz Mandetta

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta estima que o Brasil possa chegar aos 180 mil mortos por covid-19 até que se encontre uma vacina. Este era o pior cenário traçado por ele no início da pandemia, durante reunião em 27 de março com outros ministros em que, pela primeira vez, projetava um cenário. No mais otimista, contava 30 mil. No mais realista, esperava por 80 mil. Seis meses depois da chegada do vírus, o país deve chegar nos próximos dias os 140 mil óbitos em decorrência do novo coronavírus.

Demitido em abril pelo presidente Jair Bolsonaro, Mandetta é destaque no noticiário desta sexta-feira (25) com o lançamento de um livro em que conta bastidores do início do enfrentamento da pandemia e o seu processo de fritura no governo.

“Ele nunca aceitou sentar comigo para ver a realidade que o seu governo estava para enfrentar”, queixa-se o ex-ministro em Um Paciente Chamado Brasil, da editora Objetiva, em depoimento dado ao jornalista Wálter Nunes, do jornal Folha de São Paulo. Segundo Mandetta, Bolsonaro preferiu se manter alheio aos fatos e optou pelo caminho da negação, sempre minimizando o impacto do coronavírus no sistema de saúde público.

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"Era como se eu representasse o carteiro que o presidente queria matar porque levava notícia ruim", compara. Apresentei todos os números, mas ele tinha pessoas no entorno dele que mostravam outro cenário. E, como tinha uma assessoria paralela que falava o que se queria escutar, ele embarcou. Ele fez uma decisão não irracional, pensada. Ele não pode dizer: ‘Eu não sabia que seria assim’. Sempre deixei muito claro para ele a gravidade dessa doença”, declarou em entrevista à Folha de S.Paulo.

O ex-ministro narra que Bolsonaro encerrou, com irritação, uma reunião no início da pandemia, na biblioteca do Palácio da Alvorada em 28 de março, em que ele lhe apresentava números e projeções da pandemia. Mandetta conta que, ao sugerir ao presidente que criasse um ambiente favorável para um pacto entre os entes federativos para o combate à covid-19, o presidente lhe pergunta se ele elogiaria o governador de São Paulo, João Doria, seu desafeto.

Mandetta relata, na obra, que respondeu que elogiaria São Paulo e que, se Bolsonaro continuasse negando a gravidade da pandemia, ficaria sozinho com os presidentes Nicolás Maduro, da Venezuela, e Andrés Obrador, do México, que também minimizavam o perigo do vírus: "Foi assim que acabou a reunião. Um esforço tremendo, com a unanimidade dos ministros dizendo que ele não deveria ir por aquele caminho da negação, que daquele jeito ele estaria isolado, mas ele encerrou a reunião do mesmo jeito que entrou nela".

No livro Mandetta faz críticas a ministros, como Paulo Guedes (Economia), “afeito aos números, mas que não conhece povo”, com quem discutiu asperamente por conta da precificação de remédios no início da pandemia. E Onyx Lorenzoni (Cidadania), seu colega de DEM, a quem acusa de gravar conversas quando era deputado para constranger outros congressistas, e de fazer lobby por sua substituição pelo também gaúcho Osmar Terra, deputado, médico e ex-ministro que previa que o país teria 2,1 mil mortes por coronavírus.

Também conta que desconfia que tenha sido vigiado pelo governo e relata momentos de tensão, pressão e ameaça. Em entrevista publicada nesta sexta pelo Estado de Minas, Mandetta diz que percebeu que o presidente optaria pelo negacionismo depois que Bolsonaro foi aos Estados Unidos:

“O momento em que isso ficou muito claro foi aquele em que o presidente faz a viagem para os Estados Unidos. Explico para eles que, na Flórida, os casos estavam acelerados, alerto para terem cuidado e mecanismos de bioproteção, de biossegurança. Mas ele vai, se encontra com o presidente Trump. Eles fazem jantar em Mar-a-Lago, confraternizam, o avião presidencial volta de lá e naquela comitiva, logo na sequência, aparecem uma série de casos, inclusive o secretário de comunicação, Fábio Wanjgarten é o primeiro que cai doente”.

“E o presidente volta de lá, ele e Trump com visão muito similar da doença. Trump coloca o Mike Pence (vice-presidente) e tira do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), o órgão americano equivalente para doenças infecciosas. Passa sensação de que ele tem uma solução, uma bala de prata, e introduz a cloroquina. O presidente volta com a cloroquina, tratando o assunto como uma coisa menor, e começa a se cercar de pessoas que falavam o que ele queria ouvir e adota sistematicamente a posição de confrontar todas as orientações da saúde”, afirma Mandetta.

O ex-ministro também disse ao jornal mineiro que tinha medo de se aproximar de Bolsonaro e de seu grupo de assessores mais próximos. “Eu tinha receio porque eles não usavam... Eu insisti muito para ter um frasco de álcool gel na antessala do presidente, que é um homem de muito contato físico. Lembro-me da posse da então secretária de Cultura, Regina Duarte, onde se fez tudo o que não se deveria fazer: aglomeração, fotos... As pessoas abraçavam, falavam no ouvido. E eu, já naquela época, mantendo a distância.”

Para O Globo, Mandetta disse temer que o país concretize as projeções do pior cenário, com mais de 180 mil mortes por covid-19, antes que seja desenvolvida uma vacina eficaz. Na avaliação dele, esse número poderia ter sido bem menor se o país tivesse optado pelo endurecimento do distanciamento social e pela adoção de outras medidas preventivas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Se fôssemos extremamente duros, radical, nível Nova Zelândia, teríamos 30 mil mortes. Se tivéssemos nossas ferramentas de enfrentamento, luta, restrição, conscientização, educação em saúde e participação suprapartidária de todo mundo contra um inimigo em comum, seriam 80 mil. Se fizéssemos um caminho de não fazer nada, e deixar a onda explodir, é um número muito elevado. E estamos aí em 140 mil mortes (atualmente). Acho que até o surgimento da vacina é capaz de chegarmos aos 180 mil, que falamos no livro. Era contra os 180 mil que tínhamos que brigar, tínhamos que lutar para dar menos do que isso.”

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