Não passarão… mas “vai passar”

Acenos graciosos à ditadura militar iniciada em 1964 não são exatamente novidade na franja radical do bolsonarismo. Estão presentes em mais uma convocação de “protestos a favor” (?), chamados pelas redes subterrâneas da seita formada em torno do presidente.

Ainda que não estejam dando a menor pelota aos “radicais do whatsapp”, os militares estão sendo novamente conclamados por fanáticos da extrema-direita brasileira a fechar instituições como STF, STJ, Congresso, governos estaduais e municipais. Os mais recentes atos de rua foram chamados para ocorrer na porta de quartéis.

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Cá com meus botões e telas em modo “quarentena profunda”, assisti por acaso ao impactante documentário “Soldados do Araguaia” (2017), dirigido por Belisario Franca. Num dos momentos de maior perplexidade, ouvi o agoniante relato de um antigo recruta, lembrando do dia em que se viu esmurrando uma mulher grávida de sete meses.

Embora pareça, a cena acima, caro leitor, não é outro exemplo da violência típica de Estado perpetrada naquela conjuntura. Não é sequer mais um caso da tortura nossa de cada dia vivida a partir dos anos 1960.

Explico: a mulher em questão era a própria esposa do recruta, atacada involuntariamente pelo marido, ao acordar sobressaltado de mais um pesadelo impresso na mente, a partir das atrocidades que cometeu e presenciou na missão do Araguaia.

Os depoimentos do filme, tomados de recrutas de baixa patente do Exército Brasileiro, são a todo momento interrompidos por lágrimas. Mais de cinco décadas não foram suficientes para fechar feridas também desse lado da baioneta em gente que, num dia “normal”, carregava corpos e fragmentos em sacos, ou os jogava de helicópteros para um vazio que perdura até hoje para as dezenas de famílias dos mortos no Araguaia.

Há indignação e revolta na maioria das falas desses antigos recrutas. Por terem sido chamados a esse horrendo papel na história; por, depois disso, terem sido completamente abandonados pelo Estado; e, por fim, ao verem ainda nos dias de hoje pessoas exaltando aqueles anos de tortura, morte, bestialidade, desumanização.

A turba de adoradores de um dos momentos mais tenebrosos de nossa história, que hoje busca agitação autoritária em frente a quartéis ou no submundo das redes, cospe na cara não apenas dos mortos, desaparecidos e familiares dessas pessoas, mas também na de muitos dos antigos integrantes do Estado, como aqueles que falam no documentário.

O fã-clube de Jair quer a todo custo exceção em vez de normalidade, o barulho no lugar do diálogo, a força bruta esmagando o debate, o autoritarismo tratorando o que temos de democracia. Faz parte da despolitização e da deseducação dos seguidores da seita bolsonarista desconsiderar e/ou omitir que vivemos em uma República Federativa, não no império que imaginam, ou em uma monarquia tirânica que tanto sonha parte daqueles da prateleira de cima da nossa pirâmide em frangalhos.

Não passarão. Mas… “vai passar”.

Veja o trailer de Soldados do Araguaia:

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