STJD pune atleta Carol Solberg por protesto contra Jair Bolsonaro

A atleta Carol Solberg, do vôlei de praia, foi punida com advertência pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por ter gritado "Fora, Bolsonaro" durante entrevista após uma competição em Saquarema (RJ) no último dia 20.

A punição foi uma multa de R$ 1000, convertida em advertência. A decisão foi tomada pela Primeira Comissão Disciplinar e cabe recurso ao plenário do órgão. A atleta foi denunciada pela procuradoria do tribunal desportivo, que se baseou em dois artigos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). O 191: deixar de cumprir o regulamento da competição. E o 258: assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras do código.

O artigo 191 prevê punição que varia de R$ 100 a R$ 100 mil. Já o artigo 258 prevê suspensão de uma a seis partidas.

 

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Participaram da sessão cinco auditores do STJD. A maioria entendeu que a infração ao artigo 258 deveria ser desconsiderada. O advogado Otacílio Soares de Araújo, presidente da comissão, disse que a advertência seria um "puxão de orelha" para Carol.

"O atleta tem que saber que é o grande artista do espetáculo e que tem certas horas em que você não pode falar coisas dentro da quadra de jogo. Dentro da quadra de jogo é errado, senão daqui a pouco vira moda", afirmou.

A discussão jurídica sobre o caso se deu sobre Carol ter descumprido ou não um item do regulamento do Circuito Banco do Brasil Vôlei de Praia Open, que afirma que o jogador se compromete "a não divulgar, através dos meios de comunicações, sua opinião pessoal ou informação que reflita críticas ou possa, direta ou indiretamente, prejudicar ou denegrir a imagem da CBV e/ou os patrocinadores e parceiros comerciais das competições".

Em sua defesa, a atleta disse que quis protestar por considerar falha a condução de Bolsonaro diante da pandemia do novo coronavírus e às queimadas na Amazônia e no Pantanal. "Não tenho nada contra a CBV. Elogiei tudo, me senti acolhida, protegida, não quis ofender Banco do Brasil, CBV de forma alguma. Não me sinto nem um pouco arrependida. Acredito na minha liberdade de expressão, vi os meninos do vôlei, do futebol, que têm opiniões contrárias à minha”, disse a atleta, citando os casos dos jogadores de quadra Wallace e Maurício Souza.

 

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Gostaria de poder responder a cada um de vocês, mas é impossível dar conta de tantas mensagens. Só quero agradecer demais e dizer que me senti abraçada por todo esse amor. O meu grito é pelo Pantanal que arde em chamas em sua maior queimada já registrada e continua a arder sem nenhum plano emergencial do governo. Pela Amazônia que registra recordes de focos de incêndios. Pela política covarde contra os povos indígenas. Por acreditar que tantas mortes poderiam ter sido evitadas durante a atual pandemia se não houvesse descaso de autoridades e falta de respeito à ciência. Por ver um governo com desprezo total pela educação e cultura. Por ver cada dia mais os negros sendo assassinados e sem as mesmas oportunidades. Por termos um presidente que tem coragem de dizer que “o racismo é algo raro no Brasil”. São muito absurdos e mentiras que nos acostumamos a ouvir, dia após dia. Não posso entrar em quadra como se isso tudo me fosse alheio. Falei porque acredito na voz de cada um de nós. Vivemos em uma democracia e temos o direito de nos manifestar e de gritar nossa indignação com esse governo. Não sou de nenhum partido, não sou ativista, sou uma atleta. É o que gosto de ser. Eu amo meu esporte, represento meu país em campeonatos mundiais desde meus 16 anos e espero que o ambiente esportivo seja sempre um lugar democrático, onde os atletas tenham liberdade de expressão e que saibam da importância da sua voz. Saber que todas as pessoas que eu admiro e que são importantes pra mim estão do meu lado, me faz ter certeza de que estou do lado certo da história. Tamo junto!

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"O termo diz que não posso ofender a CBV e o Banco do Brasil. Só me manifestei. Atleta pode falar onde ele quiser, acredito na minha liberdade de expressão. Só manifestei a minha opinião contrária a um governo com o qual não concordo. A CBV é uma organização apartidária, não vejo nenhuma ligação com o governo Bolsonaro", completou Carol, que foi representada pelo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz e o advogado Leonardo Andreotti.

Em nota, a defesa da atleta destaca a profundidade dos debates na sessão de julgamento do STJD. "Restou bem demonstrado e acatado pelos auditores que a pena originalmente prevista na denúncia apresentada era desproporcional e injustificada, com a maioria optando por uma Advertência à atleta. Os advogados aguardam a publicação do Acórdão e avaliam a possibilidade de recurso ao Pleno do STJD, destacando a solidez dos argumentos de defesa, que resultou na obtenção de dois votos pela absolvição da atleta no julgamento em 1ª instância, que terminou em três votos pela advertência e dois votos pela absolvição da atleta".

Com a decisão, a atleta poderá participar da próxima etapa do Circuito Nacional, marcada para começar na quinta-feira (15), no Centro de Treinamento em Saquarema. Carol faz dupla com Talita Antunes.

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