Segundo turno em Minas vira duelo entre prefeito e vice

Marco Antonio Soalheiro
Especial para o Congresso em Foco

Um incomum duelo entre prefeito e vice marca a disputa do segundo turno em Governador Valadares, cidade com pouco mais de 300 mil habitantes no polo do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais.

Em 29 de novembro, os 213.886 eleitores voltarão às urnas para escolher se reelegerão o prefeito André Merlo (PSDB), empresário ruralista que está internado para tratamento de covid-19, ou se farão ascender ao cargo o atual vice-prefeito, Dr. Luciano (PSC), médico obstetra.

Os dois se desentenderam ainda no primeiro ano da gestão e o vice sequer despachou na prefeitura. O motivo alegado para o rompimento foi a falta de espaço de Dr. Luciano na participação das decisões municipais.

No último domingo (15), André Merlo teve 38,27% dos votos, ante 19,32% de Dr. Luciano. Ambos deixaram para trás outros nove candidatos. O primeiro turno em Governador Valadares teve ainda 32,01% de abstenção, 5,16% votos brancos e 6,48% votos nulos. A soma - 43,65% - foi maior, portanto, que a votação do primeiro colocado.

À esquerda o prefeito André Merlo (PSDB) e à direita seu vice, Dr. Luciano (PSC), rompidos desde o início do mandato, em 2017. Crédito: reprodução TSE

Há duas décadas a eleição para a Prefeitura de Valadares é polarizada por PSDB e PT, que se alternam na administração do Executivo. Em 2016, a cidade já havia superado a barreira dos 200 mil eleitores, que define se o município pode adiar a escolha do prefeito para um segundo turno, mas André Merlo liquidou a fatura já na primeiro rodada de votação, com 81% dos votos válidos.

A consagração do tucano veio na esteira da Operação Mar de Lama, que investigou uma organização criminosa suspeita de desviar R$ 1 bilhão de reais do município e levou ao afastamento de 13 vereadores. O caso desgastou a gestão da então prefeita Elisa Costa (PT). O candidato Glêdston Guetão, apoiado por ela, alcançou apenas 7% dos votos, ficando na terceira colocação.

A conjuntura política local de 2020, entretanto, é completamente outra. Se em 2016 uma impressionante coligação de 24 partidos sustentou a candidatura de André Merlo, este ano o tucano tenta a reeleição ao lado de sete legendas. Já Dr. Luciano entrou na corrida em coligação com Pros e Cidadania. Em 2020, foram 11 postulantes ao Executivo local, frente às quatro candidaturas majoritárias em 2016.

Deputado Leonardo Monteiro (PT-MG)

O PT recuperou parte de seu prestígio na cidade com a candidatura do deputado federal Leonardo Monteiro. Há cinco mandatos em Brasília, o parlamentar foi um dos principais articuladores da instalação da Universidade Federal em Valadares durante o governo Dilma Rousseff. Leonardo liderou uma coligação com outras quatro legendas e encerrou o primeiro turno na terceira colocação, com 14,45% dos votos.

A campanha petista foi marcada por fortes críticas à atual administração. Tom parecido com o da quarta colocada, Rosemary Mafra (PSB), vereadora veterana que teve 10,77% dos votos na corrida pelo executivo e era principal face da oposição a André Merlo no legislativo. Elementos que indicam uma tendência do reposicionamento de seus eleitores.

“Ainda que Leonardo, Rosemary e seus respectivos partidos não façam declarações formais de apoio a Dr. Luciano, a tendência é que o candidato do PSC herde a maior parte desses eleitores, seja pela rivalidade histórica entre petistas e tucanos ou por insatisfações com a atual gestão”, pontua o mestre em comunicação política e professor da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), Manoel Assad Espíndola.

Os demais candidatos ficaram abaixo dos 7% de votos e a maior parte deles ainda não manifestou apoio a nenhum dos dois no segundo turno.

“A campanha do André usa elementos narrativos e estéticos que dialogam com um sentimento de nacionalismo e buscam atrair o eleitorado bolsonarista, fortemente antipetista, que se dispersou no primeiro turno”, acrescenta Manoel Assad.

Professor Manoel Assad: novo quadro da Câmara exigirá do prefeito negociar com habilidade no varejo a formação do secretariado e de maioria. Crédito: Arquivo pessoal

Outro fator que pode pesar no desfecho é a situação de saúde do prefeito, impossibilitado de cumprir agendas presenciais. Diagnosticado com covid-19 no última dia 9, André Merlo foi internado inicialmente em um hospital local e mais tarde transferido para São Paulo por recomendação da equipe médica. O prefeito deve retornar à cidade para a reta final da campanha.

Sua gestão durante a pandemia teve momentos de tensão, mas por ter aberto o comércio mais cedo que outras cidades de porte similar e não ter ocorrido colapso no sistema de saúde pública, acabou ganhando pontos com os lojistas. Sem a presença de grandes indústrias, o setor comercial é o mais importante da economia local. “Muitos pequenos comerciantes estavam em situação de desespero, sem reservas para suportar mais tempo e temendo a falência”, aponta Dileymárcio Carvalho, diretor de jornalismo da TV Rio Doce.

A administração, porém, é vista como distante por algumas camadas populares. E ao contrário de quatro anos atrás, a corrupção não pauta o debate.

“A resposta à pandemia e à corrupção não são temas centrais na campanha. Mas sim a qualidade dos serviços públicos. Há uma sensação de parcela da população de que o governo é de elite, pelo próprio perfil do prefeito e do secretariado. A transferência para São Paulo para recuperação da covid-19 também gerou críticas. O prognóstico é de uma disputa bem indefinida”, completa Dileymárcio Carvalho.

Os planos de governo dos candidatos têm em comum a promessa de mais investimentos na rede de atenção básica à saúde e às articulações para a conclusão de obras do hospital regional. Outro desafio imediato para o próximo prefeito será o reaquecimento da economia, em meio à ameaça de uma segunda onda da pandemia.

Durante o primeiro turno não houve a divulgação de pesquisa de intenção de votos. O horário eleitoral gratuito de rádio e TV recomeça na sexta-feira (20) e as agendas de rua das campanhas foram retomadas na quarta (18). No caso de André Merlo, o candidato a vice, Davi Barroso (DEM) é quem vai aos compromissos.

“Se a eleição fosse hoje, o prefeito seria reeleito. Mas a visibilidade e a capacidade de mobilização das campanhas nas ruas e redes terão muito peso nesse contexto e podem ser decisivas”, diz Manoel Assad.

Apoio de deputados

Dois deputados federais em primeiros mandatos exercem protagonismo como apoiadores dos ex-aliados. O prefeito André Merlo conta com Hercílio Coelho Diniz (MDB), de uma família do setor supermercadista regional. O vice, David Barroso,que atuava como chefe de gabinete do parlamentar em Brasília, foi uma indicação de Hercílio.

Já o deputado federal Euclydes Pettersen (PSC) é o coordenador-geral da campanha de Dr. Luciano.

“Os  dois parlamentares têm voz ativa nas tomadas de decisão das chapas. Hercílio traz peso econômico à campanha do prefeito por ser reconhecido como um grande empregador e pelas amplas relações empresariais. Euclydes tem boa inserção junto à juventude”, destaca Manoel Assad.

Câmara Municipal de Governador Valadares terá 14 novos vereadores em 2021. Crédito: Google Earth

Quem conquistar a prefeitura de Governador Valadares no próximo dia 29 terá de lidar na futura gestão com uma composição política bastante renovada e fragmentada do legislativo municipal.  A partir de janeiro de 2021, a Câmara Municipal terá 14 novos vereadores.

“O novo quadro exigirá do prefeito negociar com habilidade no varejo a formação do secretariado e de maioria. Mais fragmentação demanda aumento dessa capacidade”, diz Assad.

Dos 21 vereadores que ocupam a Câmara, 17 disputaram a reeleição, mas apenas sete foram reeleitos. A renovação de 70% no legislativo é puxada por movimentos locais de jovens e por desgastes, ainda não superados, de imagem da própria instituição.

Em 2020 foram eleitos representantes de 14 partidos: DEM, Rede, PSDB, PTC, PT, MDB, PSC, Pode, Republicanos, PSL, PDT, PSD, Avante e PV. Sete partidos elegeram dois vereadores: PT, DEM, PSDB, PTC, PSC, Podemos e PDT.

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