Festa à fantasia: como o racismo se disfarça de burocracia no audiovisual brasileiro

Para uma pessoa desavisada, seria no mínimo estranho, num país de população predominantemente feminina e preta, não termos nenhum filme dirigido por uma cineasta preta no circuito comercial, como demonstra o estudo Diversidade de Gênero e Raça nos lançamentos brasileiros de 2016, realizado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Se tem uma coisa que podemos dizer a respeito do racismo é que, definitivamente, ele é versátil. Ele consegue resistir aos séculos, assumindo convenientes discursos e facetas. Não seria diferente nos processos de produção audiovisual, sobretudo no Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão. Uma escravidão cujo argumento fundamental foi o racial, já sabemos.

Existe hoje, nos processos da produção audiovisual brasileira, uma festa à fantasia racista. E eu afirmo isto, pois, apesar de um significativo aumento na inserção de personagens negros e negras nos diferentes produtos audiovisuais, o cenário atrás das câmeras praticamente não mudou de 2016 para cá. Isso porque existem alguns gargalos em todas as etapas do processo produtivo que impedem a chegada de homens e mulheres negras aos espaços de poder de todas as instituições do país.

No que se refere à produção cinematográfica, existem pelo menos três etapas fundamentais para a realização de um projeto: desenvolvimento e pré-produção, produção e pós-produção. Para os produtores pretos, sobretudo para as cineastas pretas, cada uma dessas etapas forma parte de um ciclo bem estruturado de exclusão. Se considerarmos todo o processo uma festa à fantasia, o racismo utiliza, em cada uma das etapas, diferentes máscaras e cria um ciclo quase impossível de ser rompido.

Durante a etapa de desenvolvimento e pré-produção a ideia do projeto é concebida. A história e os personagens são escritos e aqui começam os primeiros desafios. Ter uma ideia é algo gratuito, mas existe um tipo de limitação aos tipos de narrativas que pessoas pretas podem escrever.

Certa vez, submeti um roteiro para um laboratório de narrativas pretas. Esse projeto contava a história de um menino negro cujo sonho era se tornar um jogador de futebol. O que eu ouvi da banca avaliadora sobre a minha história, que se ambienta numa favela do Rio de Janeiro, é que ela era até boa, mas faltava um traficante, faltava violência.

Uma outra coisa, que também acontece bastante nesta primeira fase, é a contratação de roteiristas pretos e pretas como consultores de roteiristas, geralmente homens e brancos, nas grandes e médias produções, para darem suporte a criação do núcleo de personagens negros das histórias. E, apesar de serem contratados como consultores, quando propõem uma narrativa menos estereotipada para os personagens pretos, como na minha experiência, têm suas ideias engavetadas ou invalidadas.

Essa limitação, da atuação dos profissionais pretos pretas, não se restringe a uma área do audiovisual, mas a todas as áreas, do roteiro ao figurino. É o que nos conta a figurinista Teresa Abreu, que, em 12 anos de experiência no audiovisual, não conseguiu um único trabalho onde o racismo não tenha sido presente:

“Em 20 anos de profissão, desses, 12 no audiovisual, em nenhum, mas nenhum único trabalho que realizei neste país, eu passei isenta do racismo. Alguns chegaram a prejudicar diretamente o meu trabalho, me deixaram doente, me fizeram querer desistir e achar que figurino não era lugar para pessoas como eu. Me questionei e ainda me questiono, o porquê das mulheres pretas não estarem no figurino. Porque a gente nunca está pronta? Nosso currículo nunca é bom o suficiente?”.

Depois de desenvolvida uma ideia, vem a captação de recursos para a realização do projeto, que, sem dúvidas, é a maior dificuldade de produtoras negras e negros, pois, para se captar recursos é necessária toda uma rede de influência que é construída dentro de espaços, muitas vezes, inacessíveis para uma população que teve que sair das senzalas e subir os morros. Critérios exigidos inclusive para ter projetos aprovados em editais públicos, raramente tendo modalidades que contemplem a realidade dos produtores pretos.

Depois de driblar as dificuldades do desenvolvimento e pré-produção, através de financiamentos coletivos, apoio de universidades e outras instituições, quando muito, entramos na etapa de produção, que basicamente é a fase onde o projeto é gravado.

Nessa etapa os maiores desafios já são impostos na primeira fase, quando não se consegue a verba necessária para a produção. Sem verba de produção não é possível alugar os equipamentos de filmagem necessários para uma produção profissional, nem é possível contar com estúdios e recursos mais profissionais.

Ainda assim, com muita criatividade, cineastas pretos vem produzindo verdadeiros milagres em formato audiovisual. Obviamente que a produção audiovisual preta ainda se concentra nos gêneros documental e performático, no formato de curta-metragens, que são filmes curtos com duração de até 25 minutos, isso devido a serem os formatos mais baratos de serem produzidos. Ainda assim, filmes surpreendentes têm sido produzidos (pretendo discuti-los em artigos futuros).

Outra questão enfrentada por profissionais pretos no setor audiovisual é o assédio moral e outras práticas racistas. Teresa Abreu produziu o curta-metragem “Preta persona em Traje fala”, disponível no Youtube, mostrando poeticamente parte deste cotidiano. E ela também comenta sobre a estruturação das relações profissionais na área do figurino no Brasil, realidade que pode ser perfeitamente aplicada às demais áreas do setor:

“O mercado branco-hétero-machista do audiovisual se construiu e se sustenta ainda hoje pelas relações parentais ou sexuais e tem a profissão de figurinista como um dos lugares de menor valor e importância. A necessidade de alguém que pensasse a roupa para o personagem trouxe para o set as mulheres do diretor, produtor ou coisa que o valha. (Suas amigas, amantes, filhas, afilhadas, que não tinham profissão) fizeram com que esse mercado fosse ocupado por mulheres brancas. Depois chegaram os homens gays também brancos e assim, nessa brancura a nossa profissão foi forjada. E, por mais que pretas se especializem, estudem, tenham vivência e repertório, elas não conseguem furar essa bolha da Família Imperial do Audiovisual”.

A figurinista Teresa Abreu
Priscilla Bastos
Depois de enfrentar todos estes desafios, já com um projeto audiovisual filmado, chegamos à fase da pós-produção. Nesta etapa, como nas outras, tudo se torna um desafio com alto potencial de frustração. Editar e montar um filme é um processo caro e por vezes demorado. Sem contar a documentação que legaliza o filme para que tenha possibilidade de ser licenciado e exibido nos cinemas e em outras janelas de exibição, algo que demanda dinheiro, conhecimento da burocracia e uma rede de relacionamentos que dificilmente será possível construir sem pertencer a família imperial do audiovisual, como nomeia acima Teresa Abreu.

Este é o ciclo: só é possível acessar os editais públicos, que financiam as produções audiovisuais nacionais, quando já se construiu um currículo, com experiências e produções. Mas, não sendo das famílias e parentes que dominam o setor, é quase impossível ser contratado e construir esses exigidos currículo e experiência.

Sem acesso ao financiamento, não é possível produzir, para também gerar experiência e currículo. E, mesmo quando conseguimos produzir, tendo enfrentado todos os desafios possíveis e impossíveis, os investidores nos dizem que nossas narrativas não tem mercado e pú