E a esquerda, hein?

Vinícius Wu*

Balanços eleitorais costumam ser controversos. Os partidos, em geral, correm para identificar aspectos positivos de sua performance nas urnas, sempre pensando na próxima disputa, e buscam anunciar boas perspectivas para o futuro. É do jogo. Mas os números costumam se manter bastante indiferentes ao desejo das lideranças partidárias.

Nas eleições 2020 havia grandes expectativas em relação ao desempenho dos principais partidos de esquerda. Afinal, PT e PDT conquistaram, respectivamente, a segunda e a terceira posição na corrida presidencial de 2018 e permanecem enquanto fortes postulantes ao cargo em 2022. Mas sim, a esquerda sofreu uma derrota nestas eleições. Balanços eleitorais enviesados e contorcionismos analíticos não vão alterar esta realidade. E ainda que o segundo turno possa mudar um pouco o cenário, o fato é a esquerda encolheu e esta derrota é agravada pelo fato de a grande vitoriosa nestas eleições ter sido a antiga ARENA, a direita tradicional que sustentou a ditadura, atualmente dividida entre DEM, PP e PSD e mal denominada “centrão”.

Ou seja, o profundo desgaste de Bolsonaro não se traduziu em um avanço do principal polo opositor. Foram partidos que se mantêm na base ou na orbita de influência do governo federal que cresceram. E quaisquer que sejam os dados mobilizados para análise, será forçoso reconhecer que PT, PDT, PSB, PCdoB e Psol pouco ou nada avançaram sobre o terreno aberto pela queda da popularidade do atual governo.

O PT, por exemplo, viu o número de habitantes governado pelo partido despencar dos mais de 6,1 milhões em 2016 para 3,8 milhões agora. Também será menor o número de prefeituras que vai administrar a partir de janeiro. Eram 254 em 2016 e, agora, 174. O partido elegeu menos vereadores. Foram 2.812 nas últimas eleições. Em 2020, 2.645. O PT disputará 15 cidades no segundo turno, sendo que em apenas 7 terminou o primeiro turno na frente.

Já o PDT que governava 8,1 milhão de habitantes, governará 6,9 milhões agora. Antes administrava 334 prefeituras. Em janeiro serão 310. Ainda assim, com esta marca, será o maior partido da esquerda em número de administrações municipais. Houve queda também no número de vereadores: de 3.757 para 3.417. O partido de Ciro Gomes está presente em 4 disputas de segundo turno e chegou na frente em 3.

E o PSB, que não apresentou nome à disputa nacional em 2018, viu o número de governados pelo partido cair pela metade: de mais de 12,4 milhões para 6,4 milhões agora. E governará bem menos prefeituras. Serão 250 a partir de janeiro. Foram 407 conquistadas em 2016. O partido saiu das urnas na última corrida municipal com 3.628 vereadores e agora com 3.012. Está em 7 disputas de segundo turno e corre o risco de perder sua principal capital, Recife. Neste caso para outro partido de esquerda, o PT.

O PCdoB, que indicou Manuela D’Ávila como vice na chapa presidencial do PT em 2018, governava 2,1 milhão e vai governar pouco mais de 1 milhão de habitantes a partir de janeiro. Serão 45 prefeituras contra 81 anteriormente. O partido contava com 1.005 vereadores e contará com 693 a partir de janeiro. Os comunistas disputam o segundo turno em Porto Alegre onde Manuela D’Ávila encabeça uma chapa formada com o PT.

E, finalmente, temos o Psol que tem todo o direito de se orgulhar do excelente desempenho em São Paulo, onde disputa o segundo turno com Guilherme Boulos. É a primeira vez que um partido de esquerda fica à frente do PT na capital paulista. O Psol também está no segundo turno em Belém. Mas o partido que governava modestos 47.268 habitantes passará a governar apenas 14.454 cidadãos caso não vença em São Paulo ou Belém. Eram quatro prefeituras e agora apenas 2 se não vencer nenhuma das duas cidades ainda em disputa. O partido cresceu em número de vereadores: de 54 para 84. Em que pesem os dois bons resultados iniciais em São Paulo e Belém, o Psol ainda apresenta números bastante modestos em comparação aos demais partidos de esquerda.

Talvez um balanço mais preciso do desempenho da esquerda nestas eleições só possa mesmo ser feito após o segundo turno. Mas já é possível extrair duas conclusões parciais nada irrelevantes: a primeira é que uma esquerda menor e mais equilibrada emerge das urnas em 2020. E a relativização da hegemonia petista tem menos a ver com os números acima (mesmo porque PDT e PSB já governavam mais prefeituras que o PT) e mais com o resultado simbólico em São Paulo e com os casos de Porto Alegre e Belém, cidades nas quais o PT abriu mão de seu protagonismo em nome de aliados da esquerda. O isolamento do PT e o resultado pífio em muitas cidades importantes onde já foi governo, como Belo Horizonte, também é digno de nota. A segunda conclusão é de que, ao menos até aqui, a esquerda foi incapaz de ocupar o espaço aberto pelo enfraquecimento do bolsonarismo. Quem avançou foi a direita tradicional (DEM, PP e PSD) que, como sabemos, estão longe de serem partidos de “centro”.

Portanto, há boas razões para se concluir que a esquerda, em geral, não teve um bom desempenho nas urnas neste ano, o que poderá levar os principais partidos deste espectro político a correções de rumo caso tenham capacidade de enfrentar a realidade. Se o maior equilíbrio no campo de esquerda facilitará um entendimento em direção à 2022, possibilitando a formação de uma frente mais ampla, ou se o ressentimento das disputas municipais e os projetos de construção de cada partido falarão mais alto, só o tempo irá dizer. O fato é que o caminho trilhado de 2018 até aqui não parece oferecer um horizonte muito promissor para a esquerda em 2022.

*Vinícius Wu é pesquisador da PUC-Rio. No Twitter: @vinicius_wu

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