A segunda onda e a vida dos profissionais à frente

Zacharias Calil*

A pandemia do novo coronavírus (SarsCoV-2) segue se espalhando vertiginosamente e matando em todo o mundo. De novembro para dezembro uma segunda onda assolou a Europa e poucas semanas depois também atingiu o Brasil que amargou nova subida nas infecções e no aumento de mortes. Se no geral a situação é muito ruim para a saúde pública, para os profissionais que estão na linha de frente dessa guerra é ainda mais dolorosa.

No Brasil a cada minuto um profissional de saúde é infectado pela covid-19, na média desde o começo da pandemia, segundo dados do próprio Ministério da Saúde e da OPAS/OMS (Organização Pan-Americana de Saúde, braço continental da OMS). Ainda segundo esses dados, até setembro, nas Américas 570 mil profissionais de saúde haviam sido infectados pelo vírus, dos quais 307 mil eram brasileiros, recordista mundial de infecção de profissionais de saúde durante a pandemia. As mortes dos profissionais em todo o continente somavam, até setembro, 2.500, das quais 289 no Brasil.

Já na Europa, até agosto, cerca de 300 mil profissionais de saúde haviam sido infectados, e pouco mais de 2.500 haviam perdido a vida, mesmo o continente tendo adotado medidas mais restritivas que nas Américas de modo geral.

Estudo do instituto norte-americano National Center for Biotechnology Information, os profissionais de saúde correm o risco 3,4 vezes maior do que as outras pessoas de testar positivo para a covid-19.

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Vale dizer que esses números são tanto maiores quanto menor o acesso dos profissionais de saúde aos equipamentos adequados de proteção individual para o atendimento aos pacientes infectados. Isso explica um pouco porque o Brasil é o recordista de infecção entre esses profissionais, já que no começo da pandemia faltaram equipamentos em geral, enfermeiros e técnicos de enfermagem sendo obrigados a reutilizar máscaras e demorou muito que o abastecimento fosse normalizado.

O momento segue sendo crítico, duas novas cepas do novo coronavírus, uma inglesa (esta já chegou ao Brasil) e outra sul-africana, preocupam pela ainda mais elevada transmissibilidade. E o momento exige ainda muita cautela e seriedade do poder público e cumprimento das medidas sanitárias pela população. Os trabalhadores da saúde estão ainda mais cansados, exaustos e no limite com a pandemia do que o resto da população, e quando o número de infecções aumentou, como é o momento atual, eles que são exigidos ao limite, colocando suas vidas em risco ainda maior que os demais. As imagens de corpos já sem vida ao lado de internados com a covid-19 em Manaus, e a recente chegada de câmaras frigoríficas à cidade são chocantes e não podemos brincar com isso.

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Laboratórios produtores de vacinas já começam a fazer pedido de uso emergencial no Brasil, as primeiras doses começam a ser importadas e produzidas pelos nossos centros de pesquisas, o que, com o tempo, nos colocará em pé de igualdade com diversos países que já iniciaram a vacinação. Nos Estados Unidos, a primeira paciente a receber já a segunda dose da Pfizer/Biontech, no dia 4 de janeiro de 2021, foi uma enfermeira que esteve o ano de 2020 inteiro à frente do combate à pandemia, temos a esperança de ver essa cena se repetir largamente em nosso país. Enquanto isso, temos ainda meses de pandemia pela frente e cuidar dos nossos profissionais da saúde, para que eles possam cuidar da nossa população, deve ser a prioridade número um do poder público. Foi com essa preocupação que consegui aprovar em regime de urgência na Câmara Federal e depois no Senado a Lei 14.023/2020, que determina prioridade no atendimento aos profissionais da linha de frente no combate à covid-19 .

*Zacharias Calil é médico cirurgião pediátrico, deputado federal pelo DEM-GO e membro titular da Comissão de Combate ao Coronavírus na Câmara Federal.

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