Quer-se passar o Brasil a limpo, mas as escolas brasileiras estão sujas

Adalberto Piotto *

É de educação o artigo que escrevo a seguir. Em todos os sentidos. Convenhamos, somos carentes.

Experimente dizer para alguém que, intencionalmente ou sem querer, deixou cair um papel de bala, uma bituca ou uma latinha de refrigerante no chão que o lixo mais próximo fica a alguns metros dali. Imagine a resposta.

Ouso sugerir uma, algo comum, que o cidadão infrator da limpeza urbana poderá lhe dizer: “a rua é pública!”. Pública, atente-se, quer dizer que não é sua. É. Mas não só sua. Portanto não tem autoridade sobre ele que também tem uma parte dela. Acaba sendo de ninguém.

Vou além. Experimente agora dizer a um aluno de uma escola pública que ele deveria limpar as salas de aula, cuidar do edifício, zelar pelo patrimônio coletivo. Ouso novamente sugerir algumas repostas. Dos estudantes, algo parecido com um desdém do tipo “o que esse velhinho está falando?”. Dos pais pobres à classe média baixa,“que o filho dele não está na escola pra ser faxineiro”. É de doer o preconceito. Dos pais de classe média alta aos ricos, “que eles pagam impostos”. É de doera ignorância.

Uma minoria, de todas as classes, é que bravamente se diferencia e mantém a esperança.

As respostas acima não são fictícias. Foram colhidas in loco nas escolas públicas e testemunhadas por quem apenas quer manter asseado o ambiente da escola e crê que as pessoas podem mais que apenas reclamar e culpar o Estado por tudo.

Os exemplos acima nos ajudam, mais do que talvez imagine, a entender a derrocada da qualidade da escola pública e também, porque está em voga, da outrora decantada universidade pública deste país. Porque falta envolvimento, sensação de pertencimento e de propriedade coletiva.

Eu fui aluno do Senai em Piracicaba e da Marinha em Florianópolis e, se não havia cobrança de mensalidades, havia forte acompanhamento disciplinar e, sim, cobrança por eficiência. Nós alunos é que limpávamos a sala de aula, a oficina, os jardins e nunca me vi menor por causa disso. Pelo contrário, até porque já fazia isso em casa. A escola era uma extensão do comportamento doméstico. Resultado é que ambas as escolas sempre estavam limpas, asseadas e conservadas. De sexta-feira, no Senai, tinha a famosa “parada da palha de aço”, em que os alunos faziam o chão de tacos de madeira ficar como novo toda semana. Na Marinha, a “faina do ferrinho” constituía em tirar as ervas daninhas que cresciam entre os paralelepípedos das ruas da escola. Ninguém morreu limpando ou cuidando de nada. Educou-se.

Uma vez, eu sugeri no ar, quando ainda era âncora da rádio CBN, que a meninada da USP capinasse os jardins do campus do Butantã em São Paulo, cuidasse da manutenção da escola. O mato estava alto. Bem não sei se foi por isso ou porque sou um crítico da desigualdade que a gratuidade pública brasileira sem critérios proporciona, fui chamado de persona non grata lá. Não me doeu. Decepcionou-me.

Se a escola e a universidade públicas no Brasil estão em vertiginosa decadência, o Estado não está sozinho na culpa. É dele a falta, sobretudo, de coragem para cobrar eficiência e promover acesso e um modelo de gestão sustentável, mas alunos e professores são culpados também. E muito!

A média dos brasileiros, que inclui os privilegiados ou não por uma vaga no ensino público, professores, acadêmicos e “comunidades”, se omite por pura conveniência. Sobram as exceções de sempre, que também ganham o rótulo de personas non gratas, quando sugerem um debate franco. Mesmo que não se tenha a pretensão de ser portador da solução, a mera tentativa de sugerir uma discussão honesta intelectualmente que questione o status quo visivelmente deteriorado, obrigando as pessoas a pensar, já é o suficiente para lhe impingirem algum rótulo ‘neoliberal’, seja lá o que esse mostrengo semântico for.

Pra deixar claro minha opinião, do jeito que está, a se manter a gratuidade absoluta, alunos deveriam sim ajudar a cuidar e limpar a escola e a universidade. E como fator educativo inclua-se a escola privada. E sem direito a dizer não. Pagar imposto ou mensalidade é pouco. Cobrar do Estado não é o suficiente. Votar melhor, só uma obrigação.

No caso da universidade, “pública” não deveria significar gratuita como é no país. Até porque a maioria, todos os pagantes de impostos, que está fora paga.

Como essa maioria não tem condições de elevar mais sua contribuição, a crise da universidade pública brasileira só aumenta para o nível da insolvência com instalações precárias e falta de recursos para tudo.

E finge-se que são de qualidade e que representam a formação da massa crítica para a sociedade. Não mais. Não com a qualidade ou quantidade que deveriam.

Mas não se vê entre os acadêmicos, na classe política, enfim, na sociedade, muitas vozes querendo discutir o modelo de gestão, financiamento e, também, o índice de eficiência das universidades. O governante porque quer voto amanhã. O reitor porque ou ostenta essa visão da gratuidade indistinta torta por convicção arcaica ou por pressão do seu eleitorado local.

Será que as universidades públicas precisam continuar 100% gratuitas e decadentes?

Não. O cobertor dos impostos do contribuinte é curto e o modelo é ineficiente em quantidade e qualidade. Eu defendo, sim, alguma forma de pagamento pela maioria e até concessão de subsídio para aquele estudante talentoso com severas dificuldades socioeconômicas. Tratar os desiguais igualmente não é democrático. Justo? Impossível.

A hipocrisia do imobilismo que sustenta os hipócritas do mundo acadêmico de esquerda ou direita e os preguiçosos e atrasados líderes dos movimentos estudantis de hoje está deteriorando a graduação, a pesquisa e comprometendo o desenvolvimento do Brasil.

Tergiversa-se para evitar a discussão real, sobretudo a que precisa dar respostas à sociedade, com os maniqueísmos de sempre que, preferencialmente, culpem o outro, nunca promovam uma autocrítica que lhes seria devastadora.

É esse monte de gente que vive dizendo que quer passar o Brasil a limpo, mas que se recusa a limpar e cuidar da sala de aula da própria escola.

E que joga lixo no chão da rua pública.

* Jornalista, autor, produtor e diretor do documentário Orgulho de Ser Brasileiro. http://www.orgulhodoc.com.br/

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