Os imigrantes e a hipocrisia europeia

Ela decorre desde o achamento do continente africano pelas caravelas europeias, quando se consolidou, em escala inimaginável, a criminosa prática da escravidão, do estupro, do genocídio e da transferência compulsória de milhões de acorrentados seres humanos para terras desconhecidas e de impossível retorno. Ainda significou a destruição de estruturas sociais consolidadas, o deliberado roubo das riquezas naturais e o sequestro de qualquer perspectiva de uma sobrevivência digna.

Como se não bastasse a exploração criminosa e predatória por séculos, em tempos mais “modernos” o saque ao continente africano ganhou formas mais explícitas através do que a história registrou como “A Partilha de África”, ocorrida a partir da Conferência de Berlim de 1885.

Naquele espaço do tempo, também conhecido como a “Corrida a África” ou a “Disputa pela África”, os países europeus saíram do "imperialismo informal", em que exerciam o controle através da influência militar e da dominação econômica, para uma pilhagem mais direta. Sem disfarce ou qualquer resquício de humanismo, dividiram entre si o território africano. E não levaram em consideração, sequer, as diferenças étnicas, históricas e culturais existentes no continente africano.

Repentinamente, sem qualquer aviso prévio, famílias, grupos étnicos, histórias e territórios africanos passaram a pertencer a algum império europeu. E não era uma lista pequena, a exemplo da seguinte repartição: Inglaterra (Egito, Sudão Anglo-Egípcio, Nigéria, Costa do Ouro, Serra Leoa, Uganda, Gâmbia, África Oriental Britânica, Somália Britânica, Rodésia do Norte, Niassalândia, Rodésia do Sul, Bechuanalândia, Transvaal, Suazilândia, Orange, União da África do Sul e Basutolândia); França (Marrocos, Argélia, Mauritânia, Sudão Francês, Níger, Senegal, Guiné, Costa do Marfim, Alto Volta, Daomé, Chade, Gabão,  Tunísia e Madagascar); Alemanha (Camarões, África Oriental Alemã, África do Sudeste Alemã e Togo); Bélgica (Congo Belga); Espanha (Marrocos Espanhol, Rio de Ouro e Rio Muni); Itália (Líbia, Eritreia e Somália Italiana); e  Portugal (Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Angola e  Moçambique).

Esta perversa divisão entre nações e povos irmãos, empobrecidos pela histórica e ininterrupta pilhagem, está na base das diversas guerras civis e disputas territoriais, sempre “controladas” pelo poderio bélico de cada império europeu e do parceiro EUA. E elas se tornaram acentuadas nos dias atuais, quando, a pretexto de defender a população civil, destruiu-se o Iraque, a Tunísia, a Líbia e, por último, a Síria.

Nestes países, as “humanitárias armas de assassinato em massa” completaram a perversidade vivenciada em terras africanas e asiáticas, arrasando vidas, quedando instituições e explodindo estruturas vitais à sobrevivência de comunidades inteiras. A África e o Oriente Médio segue, assim, morrendo à míngua, desencantados, sem conseguir seduzir os belos olhos estadunidenses/europeus que sempre lhes sugaram a beleza.

Estes são os refugiados e imigrantes que são recusados em terras europeias, humilhados em discursos e ações, abandonados na travessia incerta do cemitério marítimo e desprezados pelos destruidores de suas terras natais. Eles não perceberam, salvo quando pisaram no solo europeu, que, para os governantes e parte da população, as mortes afegãs, sírias, iraquianas, palestinas e milhões de outras não têm rostos, donos ou digitais, pois são consideradas apenas estatísticas nos jornais diários ocidentais.

Na verdade, eles revelam a hipocrisia dos bombardeadores que professam o paraíso terreno para todos, desde que nascidos em solos europeus ou estadunidenses. Assistimos diante dos nossos olhos a um holocausto todo dia, resta saber por quanto tempo permaneceremos insensíveis àqueles que nos são diferentes?

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