O paradoxo do PT

O Partido dos Trabalhadores completa 40 anos com uma história impressionante. Desde a sua fundação, ocupou sempre a primeira ou a segunda posição nas eleições presidenciais.

No seu interior convivem correntes das mais variadas orientações ideológicas. É um partido ou uma Frente? Se já é um Partido de Frente, como pode integrar outra Frente? A questão dá um bom debate.

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A sigla forjou a maior liderança popular de todos os tempos: Lula. O ex-presidente disputou quase todas as eleições presidenciais desde a redemocratização. Foi candidato em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2018, quando seu registro foi rejeitado. Em 2010, a legislação não permitia. Apenas em 2014 abriu mão, para Dilma, naquele que pode ter sido seu maior erro político.

Se tentou registrar sua candidatura de dentro da prisão, por que Lula não tentará registrar sua candidatura em 2022, solto para percorrer o país?

Em 1989, Luiz Inácio foi procurado por Brizola logo após o primeiro turno com uma proposta: ambos renunciariam em favor de Covas. O petista rejeitou e acabou derrotado por Collor.

Em 2018, foi procurado por companheiros com proposta semelhante: Haddad deveria renunciar em favor de Ciro. O PT triunfou e elegeu grande bancada, o pedetista teria mais chances contra Bolsonaro. Lula rejeitou. Disse que se tivesse aceitado a proposta de Brizola em 89 não teria chegado à presidência da República.

Não há qualquer sinal de que o ex-presidente planeja passar o bastão. É um direito seu, legitimo. Em São Bernardo, no dia de sua prisão, disse que quem quisesse ocupar o seu lugar teria que trabalhar mais que ele. Na festa dos 40 anos foi ainda mais claro: “Estou lutando pelo direito de poder voltar a governar este país”.

Vítima de uma perseguição inaceitável, Lula merece todo respeito, apoio e solidariedade. As dores compreensíveis do cárcere e dos processos infames parecem ter empurrado o líder para o canto do ringue. O PT parece estar voltando às origens.

Em 1989, Lula recusou conversar com o PMDB no segundo turno. Em 1994, o PT aprovou a resolução “Fora Itamar – Itamar é igual a Collor”. Segundo Zé Dirceu em seu livro de memórias, um dos graves erros que determinou a vitória de FHC.

Foi justamente a ascensão de uma visão política mais ampla que levou o partido ao poder. Não foi fácil. Na véspera do encontro partidário que selou a aliança com o liberal José Alencar, o petista Patrus Ananias, opção para a vice, ficou de sobreaviso. Existia o receio de que o nome do mineiro preferido não fosse aprovado pelos correligionários.

A situação atual é complexa. Os companheiros sofrem a maior perseguição política da história.

Neste cenário, parecem coexistir no partido duas posições distintas por três motivos diferentes. Os governadores, liderados por Rui Costa, defendem desde o ano passado uma flexão tática no protagonismo da legenda.

Na afirmação do projeto de poder petista convivem duas visões. Uma corrente aposta numa reviravolta capaz de levar o partido novamente ao Planalto.

Outra corrente defende a mesma linha por razão diferente. Acredita que estamos diante de um novo ciclo histórico e que o melhor é se fechar, proteger a tropa na dura travessia e garantir o segundo lugar.

O partido jamais ganhou uma eleição nacional com uma política estreita. Em sua história, nunca apoiou um nome de outra legenda.

É muito difícil a construção de uma saída progressista para o Brasil sem o apoio de Lula. Com grande força e lastro social, o maior partido do Brasil é, ao mesmo tempo, solução e problema.

Um verdadeiro paradoxo.

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