Não adianta torturar os fatos. Eles não confessarão o que não são

Gravidez, momento sublime!

Sétimo mês, reta final. Sonhos de vida e de luz para a pequena criança no ventre.

As memórias dessa época quase sempre são inesquecíveis para a mulher. Não seria diferente para uma então jovem brasileira, que acabou eternizando algumas dessas passagens em documentos que hoje ajudam a contar a história não dela e do filho, mas do Brasil:

“Pela manhã, o próprio comandante major Carlos Alberto Brilhante Ustra foi retirar-me da cela e ali mesmo começou a torturar-me [...]. Espancamentos, principalmente no rosto e na cabeça, choques elétricos nos pés e nas mãos, murros na cabeça quando eu descia as escadas encapuzada, que provocavam dores horríveis na coluna e nos calcanhares, palmatória de madeira nos pés e nas mãos. Por recomendação de um torturador que se dizia médico, não deviam ser feitos espancamentos no abdômen, e choques elétricos, somente nas extremidades dos pés e das mãos”.

Esse é fragmento do depoimento de Criméia de Almeida – uma das incontáveis vítimas dos sombrios porões da ditadura militar – à Comissão Nacional da Verdade. O relatório final do colegiado destinado a contar detalhes sobre o período foi entregue em 2014, com alguns dos mais bárbaros registros de violência do regime que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985.

Criméia foi dirigente estudantil e militante do PCdoB. Presa em dezembro de 1972 no sexto mês de gravidez, era torturada com acompanhamento médico, no sentido de que se evitassem choques elétricos nos ouvidos, boca, vagina e órgãos mais internos, como contou tempos atrás em uma entrevista para a TV.

O trabalho de parto foi longo, porque os militares não queriam intervir. “Meu filho vai morrer!”, apelava Criméia. A resposta era lancinante como a dor da palmatória: “Não tem problema. É um comunista a menos no mundo!”, sentenciava um militar.

Os castigos corporais e psicológicos continuaram até o nascimento da criança. Ameaças inclusive de adoção por parte dos oficiais, caso fosse menino, branco e saudável. E mais: provocações dos militares de que o menino não sobreviveria.

Sobreviveu. Mas após o nascimento, Criméia era impedida de vê-lo. Quando o tinha de volta, recebia-o com diarreia e vômitos.

Criméia resistiu à ditadura. João Carlos, seu filho, igualmente. Puderam e podem respirar os ares da democracia renascida daquele tempo, e hoje são arquivos vivos da história recente de um país.

Graças à batalha jurídica travada por esses e outros sobreviventes, Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do famigerado Doi-Codi paulista, tornou-se em 2008 o primeiro agente da ditadura a ser declarado torturador pela Justiça brasileira.

Por mais que se tente torturar os fatos no sentido de relativizar os crimes de Brilhante Ustra, por mais que se recorra a essa bravata quase ingênua (como fez Jair Bolsonaro ao votar pelo impeachment), esse é o quinhão da História nacional que estará para sempre reservado ao coronel torturador. Qual seja: o rol dos torturadores. Lutar contra isso é desonestidade intelectual. Esperneio típico de quem se vale de artifícios pirotécnicos como recurso ao vazio político... e humano.

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