Lições da crise hídrica em Brasília

Brasília acaba de sair da maior crise hídrica de sua história. E ter sobrevivido a esse cenário está longe de ser mérito exclusivo de medidas emergenciais adotadas pelo governo ou até mesmo da ajudinha do humor instável de São Pedro. A educação da população em contribuir com a economia de água no Distrito Federal foi essencial.

As reflexões e experiências acumuladas durante o período de racionamento estão sendo compartilhadas com os maiores especialistas globais em gestão de recursos hídricos no 8º WWF (Fórum Mundial da Água). O evento acontece na capital até o dia 23 de março, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães.

Essa é uma oportunidade histórica de refletir sobre o planeta que vamos deixar de legado para as futuras gerações, principalmente agora que sentimos na pele que a escassez de água não é só uma possibilidade. Tempo de lembrar também que “a água é um direito, não um produto”, conforme foi destacado durante o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), que acontece em paralelo aos debates oficiais.

No ano passado, no auge da crise, a equipe do Canal de YouTube Politizando saiu pela cidade e realizou uma pesquisa em busca de soluções alternativas para falta de água. A série Pela Cidade será exibida até o final deste mês. Em campo, as gravações registraram como a população do DF tem sido muito mais criativa, colaborativa e ecologicamente responsável do que os órgãos oficiais que insistem na postura nada sustentável de gastar bilhões em financiamentos para buscar água em novas fontes, cada vez mais distantes. Na época, uma autoridade entrevistada chegou a dizer que “vamos chegar em São Paulo, se for preciso”.

É fato que, se o racionamento foi um sucesso, isso aconteceu pelo esforço de pessoas como a esteticista Nayara dos Santos, moradora do Paranoá. Nayara mora numa casa pequena com o marido e os dois filhos, e não tem caixa d´água. O armazenamento é feito em grandes baldes na véspera do dia do racionamento que, segundo ela, nem sempre corresponde ao calendário oficial. Por isso, é necessário reservar uma quantidade de água ainda maior e suficiente para cozinhar, lavar a louça, limpar o chão e garantir o banho da família.

Já o bioarquiteto Sérgio Pamplona, que há tempos está atento à escassez dos recursos naturais, transformou seu sítio Nóis na Teia, no Jardim Botânico, em um projeto-piloto de comunidade hidricamente autossustentável. Há quase 20 anos, Pamplona construiu o primeiro tanque para armazenar e reaproveitar a água da chuva, captada pelos telhados. Hoje já são sete tanques com capacidade total de 185 mil litros. Bombas direcionam a água para onde ela é necessária e a água do chuveiro é reaproveitada na horta.

Como resultado desse investimento, a comunidade conseguiu reduzir seu consumo diário de água per capita a 40 litros, o que representa menos da metade da média recomendada pelas Nações Unidas (100 litros/dia). Para se ter uma ideia, a média do Lago Sul é de 600 l/d.

 

 

E como eles alcançaram esses resultados? As oito pessoas que moram na comunidade tomam banhos de três minutos, no máximo, e usam água na bacia para lavar a louça. Sem contar que ainda usam o chamado banheiro seco, um sistema de descarte que armazena os resíduos humanos num recipiente de feno em que eles vão sendo naturalmente transformados em adubo.

Essas soluções em busca de novas fontes de abastecimento colocam por terra os argumentos dos órgãos oficiais de que “essas alterativas devem ser estimuladas, mas não são viáveis quando se fala de políticas públicas”, conforme destacou Maurício Luduvice, presidente da Caesb.

Na contramão da posição dos órgãos oficiais está o professor da Universidade de Brasília e também arquiteto Daniel Sant´Ana. Ele coordena o projeto Reuso DF, uma parceria entre Adasa e UnB, que investiga a viabilidade de alternativas de reaproveitamento de água de acordo com o perfil socioeconômico dos habitantes do DF. Em conclusões iniciais (o trabalho deverá ser finalizado este ano), a pesquisa mostrou que, se de um lado modificar a estrutura de edifícios e condomínios já construídos pode ser inviável, de outro lado pode ser muito simples incentivar, com benefícios fiscais, a reutilização de água para quem ainda vai construir.

Daniel sugere, inclusive, que o governo cobre tarifas diferenciadas de acordo com o padrão de consumo das famílias – consumo da água, não do serviço. Atualmente, por causa da famigerada tarifa mínima (ameaçada de ser extinta), quem consome menos paga pelos outros. Todas as unidades consumidoras são obrigadas a pagar por um consumo mínimo de 10 mil litros. Quem mora sozinho, por exemplo, não consegue consumir tudo isso e tem na tarifa mínima um incentivo ao gasto desnecessário.

Nayara, Sérgio e Daniel são exemplos de posturas políticas globais. As grandes questões que devem nortear as políticas públicas dos governos neste século não têm fronteiras. Mas ainda esbarram nos interesses bairristas, mesquinhos e personalistas de quem finge não perceber o óbvio em nome dos possíveis ganhos eleitoreiros e das vantagens pessoais que se podem extrair de uma obra milionária. Que os dois fóruns em curso nos tragam novos rumos.

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