Genocida e impeachment: as palavras da moda no Brasil

Quem deixa morrer ajuda a matar. Quem, podendo evitar a morte, não se mexe para impedi-la, contribui para abreviar a vida. Quem, sabendo dos riscos do precipício, ensina as pessoas a se aproximarem perigosamente dele a ponto de escorregarem e caírem, é responsável pelo escorregão que as leva à morte. E quem aposta na morte como forma de solução dos problemas e não demonstra qualquer respeito e cuidado pela vida, é um homicida. Se tudo isso resultar em centenas, milhares, centenas de milhares de mortes, a palavra correta para definir o quadro é genocídio.

A palavra GENOCIDA colou-se indelevelmente à imagem de Jair Messias Bolsonaro. Nunca, mas nunca mais mesmo, ele se livrará dela. De forma gradual, mas numa batida sem retorno, a população está percebendo que há algo de podre, perigoso e virulento no reino bolsonarista. No Brasil, até hoje, não havia uma figura de proa, desde o império até a república, que tivesse seu nome associado a morticínio em massa.

A história registra, no mundo, a emblemática figura de Adolf Hitler como o maior símbolo do genocídio, diante o holocausto que resultou no extermínio de mais de seis milhões de judeus. Agora, até mesmo fora do Brasil, a palavra genocida já é usada abertamente em relação a Bolsonaro. Ele não tem mais como fugir dela.

Mas diversas forças começam a se articular, ainda que de forma desorganizada e sem qualquer coordenação para reagir à atual situação. Por enquanto, vislumbra-se um conjunto de fatos e ações convergentes à condenação do governo Bolsonaro.

Pouco a pouco o foco vai se fechando em torno da palavra impeachment, como ficou claro nas manifestações do último sábado. Até mesmo reivindicações da maior importância, como a exigência de ampliação da oferta de vacinas, preponderante em outros momentos, abriu espaço aos pedidos de afastamento, que ganharam a cena em faixas, camisetas, cartazes e palavras de ordem. Juntamente com a palavra “genocida”.

Basta avaliar a situação de forma panorâmica para se perceber que alguma coisa “está fora da ordem”, como diria Caetano Veloso. Ou algo próximo ao espanto do astronauta Jack Swigert durante a viagem da Apollo 13 à Lua, em 1970: “Houston, temos um problema”.

Sim, porque demorou até começar a se cristalizar a percepção de que é preciso destituir o grande responsável pela maior catástrofe sanitária dos nossos tempos, que acumula igualmente a responsabilidade por uma monstruosa devastação ambiental, pelo crescimento exponencial da intolerância, do falso moralismo, do uso cretino da religião como capital político, assim como a entrega do patrimônio público aos interesses particulares, a entronização do preconceito como método de ação social e a corrupção como prática corriqueira, dos filhos à esposa, passando agora, como ficou claro no caso das vacinas, pela figura do próprio capitão-presidente (que se elegeu cavalgando o cavalo da decência e do combate à corrupção). A casa caiu.

De repente, o que parecia apenas negacionismo deu lugar ao negocismo mais canalha, e o que parecia apenas um conjunto de atos de irresponsabilidade com as vidas dos brasileiros na pandemia revelou-se parte de um projeto consistente e articulado de eugenia, com uso do recurso ao assassinato em massa.

Não à toa, durante as manifestações de sábado (3), apareceram reivindicações diretas a Arthur Lira no sentido de que abra um dos mais de cem processos de impeachment, que o presidente da Câmara vem usando apenas como apoio às próprias nádegas.

Em reforço, o PT protocolou no STF mandado de segurança contra a omissão de Lira em relação aos  pedidos de afastamento de Bolsonaro. A OAB saiu da retórica para a prática e anunciou sessão extraordinária para discutir o impeachment. Militares revelaram-se constrangidos com a atual situação e não escondem mais a decepção com o governo que ajudaram a eleger. A Procuradoria Geral da República – quem diria? – abriu inquérito para investigar Bolsonaro por prevaricação no episódio das propinas descobertas nas negociações para aquisição das vacinas indianas.

De permeio, pesquisas apontam visível derretimento da imagem do governo, cuja desaprovação cresce consistentemente a cada rodada. Enquanto isso, a ministra Rosa Weber autorizou a abertura do inquérito solicitado pela PGR por prevaricação de Bolsonaro no caso das propinas dos imunizantes indianos, sobre as quais Sua Excelência foi informado pelos irmãos Miranda e criminosamente se calou a respeito.

Alô, Houston! Não há mais dúvidas de que temos um problema. A população percebeu, mesmo tardiamente, que alguma coisa está fora da ordem. Basta pedir pra ver as imagens e os áudios das manifestações do último sábado. E já não esconde o desejo de meter o pé nas nádegas do capitão presidente e mandá-lo à aquela parte, ou até mesmo ​àquela outra.

Finalmente, o país parece que está saindo da inércia. E atenção: se os nobres representantes do povo no Congresso Nacional continuarem a fazer ouvidos de mercador para a voz das ruas, correm o risco de ser pisoteados pela história. Tal como aconteceu com os asseclas daquele genocida da Alemanha que mandou para os pelotões de fuzilamento e para as câmaras de gás seis milhões de judeus, como parte de seu projeto eugenista da raça ariana. Qualquer semelhança com o que está ocorrendo no Brasil neste momento não é mera coincidência.

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