Envenenamentos radioativos

Os legistas e cientistas suíços do Instituto de Física Radioativa do Hospital Universitário de Lausane, encarregados de examinar os restos mortais de Yasser Arafat, concluíram pela existência de restos de polônio 210, uma substância radioativa, que teria causado sua morte, em 2004, num hospital parisiense depois de duas semanas de agonia causada por uma estranha e fulminante doença.

Na sua autópsia a hipótese de envenenamento fora descartada na medida em que foram negativos os testes para um conjunto de venenos e toxinas conhecidos.  Na época apareceu uma amostra de sangue que estaria contaminada pelo vírus HIV. Os sintomas apresentados por Arafat e a rapidez com que a doença o matou nada tinham a ver com Aids e ficou a impressão de uma operação de contrainformação dos mesmos círculos de inteligência que, no passado, já havia espalhado a versão de que o velho líder "gostava de garotos" versão que nenhuma biografia séria jamais confirmou.

Na época não passou pela cabeça de ninguém testar os despojos para polônio. Era um método de envenenamento até então ignorado embora teoricamente viável. A substância só ganhou evidência dois anos mais tarde quando o dissidente russo e ex-espião Alexander Litvinenko, denunciante de Vladimir Putin, foi envenenado em Londres por agentes russos e agonizou até a morte num hospital inglês, com imagens de seu definhamento galopante transmitidos pela TV. Esse envenenamento acabou levantando a suspeita de que a mesma técnica fora utilizada com Arafat.

Em 2012 o repórter investigativo norte-americano Clayton Swisher, autor de um livro sobre a fracassada conferência de Camp David, num trabalho para a Al Jazeera,  levantou esta hipótese. Roupas íntimas e objetos pessoais de Arafat, fornecidos pela viúva Suha Arafat, revelaram traços da substância radioativa. Agora uma análise dos restos do líder da OLP confirma o envenenamento.

Quem matou Yasser Arafat? Obviamente o principal suspeito é o Mossad israelense. O atual governo de Israel e os anteriores negaram terminantemente a autoria do crime. Mas que outra resposta iriam dar? Acaso admiti-lo?

É certo que para ser praticado o envenenamento contou com a cumplicidade de alguém suficientemente próximo a Arafat como para colocar o polônio 210 numa bebida ou comida consumida pelo líder palestino, na época confinado ao seu QG, em Ramalah, cercado por tropas israelenses.

Israel não é o único suspeito, outros poderiam cometer o crime, Arafat tinha muitos inimigos. Mas o fato é que o polônio 210 é uma substância que só pode ser obtida por quem disponha de uma reator nuclear com determinadas características o que aponta para um culpado de considerável  sofisticação operacional e capacidade tecnológica dificilmente à disposição de um grupo palestino ou mesmo de um regime árabe desejoso de se livrar de Arafat.

Evidentemente ninguém em Israel vai jamais admitir a autoria do crime. Não há provas dele. Há apenas fortes indícios. O então primeiro ministro israelense Ariel Sharon, hoje reduzido a vegetar em consequência de um derrame cerebral, odiava ferozmente Arafat. Os israelenses consideram-no responsável pela segunda intifada. Sharon, que várias vezes ameaçara fazê-lo, havia prometido a George W. Bush que não mataria Arafat e nesse sentido teria sido uma afronta também aos EUA, mais uma razão para nunca admiti-lo.

Objetivamente o desaparecimento de Arafat não interessaria Israel no sentido de que tenderia a fortalecer o Hamas, um inimigo muito mais irredutível,  mas essa nem sempre a foi a lógica dos governantes israelenses. Há sempre uma espécie de parceria tácita objetiva da direita sionista com o Hamas.

Se o Mossad, de fato, foi responsável pela eliminação de Arafat novamente caímos naquela tragédia corriqueira do estado sionista: uma profusão de vitórias militares e de inteligência, táticas, que vão lentamente conduzindo a uma situação cada vez mais precária e isolada numa perspectiva estratégica de longo prazo.

Há uma pulsão auto destrutiva, suicida, nas políticas da direita israelense. Mesmo quando se deram conta da necessidade de rever sua estratégia do Grande Israel e admitir um estado palestino Sharon e, depois, Ehud Olmert - esse, sem dúvida,  o dirigente que mais se aproximou de um acordo de paz - não souberam dar um mínimo de consequência à mesma.

Sharon evacuou os assentamentos de Gaza, mas o fez de uma forma unilateral sem negociação ou concertação com a Autoridade Palestina e a retirada acabou favorecendo sobremaneira politicamente ao Hamas. Olmert deixou-se provocar por uma emboscada do Hezbollah na fronteira norte e lançou-se numa guerra no Líbano que lhe custou politicamente muito caro.

Bibi Netanyahu segue essa tradição quando busca por todos meios evitar a reaproximação do Irã com o ocidente e a resolução da crise nuclear.

Salta aos olhos que está havendo uma mudança no Irã decorrente do tsunami eleitoral que elegeu o presidente Rohani.

É viável um acordo que passe por um regime de inspeção severo e limites ao enriquecimento do urânio por parte do Irã, em troca do reconhecimento do seu direito a energia nuclear civil e a eliminação das sanções econômicas.

Netanyahu faz o possível para “melar” essas negociações, para tanto uso o lobby no Congresso norte-americano, onde alguns senadores pressionam para agravar as sanções.

Se fracassam  as negociações qual a alternativa? Bombardear? Diversos especialistas de defesa israelenses já advertiram que mesmo um ataque bem sucedido só atrasaria alguns poucos anos o acesso iraniano ao armamento nuclear. Provavelmente o tornaria inevitável levando o Irã a abandonar o tratado de não proliferação que assinou (ao contrário de Israel).

Da mesma maneira Netanyahu sabota sistematicamente as negociações secretas com os palestinos patrocinadas pelo secretario de estado John Kerry anunciando constantemente a expansão dos assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém.

Independente de ter ou não sido responsável pelo polônio 210 no chá ou no kebab de Arafat a política da direita israelense segue altamente radioativa.

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