Depois de Zé Gotinha, tudo é possível. Até Cristo armado 

A utilização de Zé Gotinha para propagar a cultura armamentista, como fizeram os filhos de Bolsonaro colocando nele uma capa de super-herói com a bandeira brasileira e portando um fuzil-seringa não é apenas indevida, inapropriada ou inadequada: ela é criminosa. O subtexto da postagem remete ao oposto do objetivo para o qual o artista plástico Darlan Rosa o criou, 35 anos atrás. A apologia às armas promove a morte como solução para qualquer problema. Já o Zé Gotinha, ao contrário, é um personagem a serviço da vida.

O crime está justamente no uso que os filhos do capitão-presidente deram ao personagem. Liguei para Darlan, amigo de longa data, para me solidarizar com ele e ouvi-lo a respeito. Desolado, mas elegante como sempre, respondeu com suave sinceridade: “Foi um momento infeliz. Passa um péssimo exemplo. Nunca, nesses 35 anos de existência do Zé Gotinha, ninguém fez uma associação tão grotesca como essa. O que me consola é que houve uma reação muito forte da imprensa e das pessoas nas redes sociais. Desde o primeiro momento, trabalhamos Zé Gotinha como educador. Já são três gerações vacinando com ajuda dele. No tempo da ditadura, o governo criou um personagem chamado Sujismundo, que não deu certo justamente porque aparecia jogando lixo e sujando as ruas. Aí vinha um texto dizendo que não se devia fazer o que ele fazia. Só que dava errado porque as crianças copiavam o mau exemplo e saíam repetindo o que o personagem fazia, sujando tudo.

Não davam a menor atenção ao texto que mandava não repetir o que Sujismundo fazia. Porque a pessoa faz o que ela vê. E a apologia às armas é o pior exemplo que se pode dar a uma criança. Não combina com o perfil nem com a história do Zé Gotinha. Antes dele, as campanhas de vacinação não davam certo porque eram baseadas no medo, na força, no terrorismo, na truculência: “Se não vacinar vai morrer!” E o Zé Gotinha deu certo porque educa pelo exemplo. Ele é da paz”.

Apologia às armas nunca deu certo 

Ao contrário de Darlan, que prima pela elegância, eu repito, sem elegância alguma, que o ato dos filhos do capitão não foi apenas infeliz mas, sim, criminoso. Criminoso e passível de condenação judicial porque, em momento algum, em cultura alguma de qualquer país, a apologia ao uso de armas – instrumentos que só produzem a morte - resultou na promoção da paz e da vida. Ao ver Zé Gotinha armado, criança alguma vai pensar em vacina, mas apenas no fuzil que ele exibe com orgulho.

Imediatamente vai associar a arma ao mandonismo, à sensação de poder, à imposição das ideias pela força e não pelo diálogo. Isso tem nome: é fascismo, ideologia simplista pela qual tudo se resolve pela violência e pelo terror. Bem ao gosto de Bolsonaro e sua famiglia (assim mesmo, em italiano, como os integrantes da máfia siciliana se auto-denominavam). Todo o discurso de Bolsonaro, em seu sentido amplo, como o gesto que finge segurar uma arma, que ele ensina as crianças quando as encontra na rua e as põe no colo, ressuma a ódio, violência e ao mandonismo como método de ação. A dor é classificada por ele como demonstração de fraqueza, “coisa de maricas”. Porque, na visão de Bolsonaro, macho que é macho não chora nem demonstra piedade ou solidariedade.

Por isso, mesmo com o país se revolvendo em sofrimento diante da escalada de milhares de mortes pela pandemia, até aqui o presidente não teve a decência de vir a público dizer uma palavra de apoio, um gesto de mão estendida, uma demonstração de solidariedade e de empatia. Subjaz em todo o discurso dele o imediatismo eleitoral – só faz o que puder render votos para alavancar seu sonho de reeleição. E não pode dar demonstração de fraqueza diante da boiada que o apoia. Nem pode nem fazer um pronunciamento na televisão porque tem medo do  barulho das panelas. Não duvido que o desenho de Zé Gotinha armado possa ter o dedo sujo dele. Se não tiver, contou com seu apoio. E só foi retirado das contas dos filhos nas redes sociais diante da péssima repercussão que causou.

Zé Gotinha: patrimônio sentimental do Brasil 

Um pouco da história do criador do Zé Gotinha e do próprio personagem. Entre 1967 e 1971 o artista plástico Darlan Rosa era o Titio Darlan, apresentador do programa Carrossel, da TV Brasília, um sucesso entre as crianças da nova capital. Darlan era a Xuxa da época. Brincava, cantava e desenhava com elas no estúdio. Não podia nem andar na rua que era interrompido a toda hora pra dar autógrafos. Criou o personagem Zé Gotinha em 1986, no governo Sarney, por encomenda do Ministério da Saúde, quando o país vivia a ressaca dos anos de chumbo.

O nome foi produto de um concurso entre as crianças de todo o Brasil, que enviavam cartas ao Ministério. “Eram tantas que chegavam de caminhão”, lembra Darlan. Um menino do Cruzeiro, cidade-satélite de Brasília, criou o nome Zé Gotinha. Os traços do boneco famoso surgiram da intenção de permitir que qualquer pessoa, mesmo sem saber desenhar, possa reproduzi-lo em poucos traços. “São duas bolinhas, uma em cima da outra. Lá em cima você desenha a gota. E ele não tem detalhes nos pés nem nas mãos, porque pés e mãos são difíceis de desenhar”, explica Darlan. O sucesso foi imediato, e não só entre as crianças. É comum os adultos se deixarem fotografar ao lado dele.

No tempo em que fui repórter da TV Globo-Brasília gravei várias passagens ao lado do Zé Gotinha, pegando carona na sua popularidade. Nessa época conheci Darlan, visitei seu ateliê e adquiri várias obras que adornam até hoje as paredes do meu apartamento. Zé Gotinha terminou se tornando um patrimônio sentimental do povo brasileiro, está guardado na memória afetiva de três gerações  não só no Brasil, mas de vários países que também se utilizam da simpatia do personagem para impulsionar suas campanhas de vacinação. Os direitos comerciais sobre Zé Gotinha pertencem ao Ministério da Saúde. Mas os direitos “morais” do personagem pertencem a Darlan, seu criador. Daí sua indignação.

A apropriação inadequada do personagem permite a conclusão de que há uma perigosa deformação na personalidade dos integrantes da família Bolsonaro. Algo que os impulsiona sempre em direção ao terror e ao ódio, nunca à concórdia, ao entendimento, ao diálogo. A iconoclastia praticada contra Zé Gotinha se explica pela necessidade de inverter os valores para impor outro ponto de vista, ainda que vá contra o senso comum.

No andar da carruagem, a qualquer momento a imagem de Jesus Cristo na cruz pode aparecer com um fuzil nas mãos numa conta de alguma rede social dessa gente. Será apenas mais uma inversão de valores para colocar o personagem central do cristianismo a favor das causas exatamente contrárias a tudo o que pregou há mais de dois mil anos. Como é possível alguém se compadecer com os pobres ao ponto de dizer que a eles cabe o reino dos céus? Como aceitar um personagem que manda dar a outra face quando atacado? Que não matou mas curou e ressuscitou? E que chegou ao ponto de, na hora mesma da morte, perdoar os que o crucificaram por entender que eles não sabiam o que estavam fazendo? Ninguém duvide se o Cristo aparecer armado a qualquer momento. Desse povo pode se esperar qualquer coisa. Tudo começa por uma gotinha.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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