A dança de Moro e Huck

O encontro entre Moro e Huck foi patrocinado por um cupido oculto: a Globo. Tudo indica que a família Marinho retirou o veto ao projeto do apresentador. As ameaças de Bolsonaro de endurecer o jogo de renovação da concessão da emissora parecem ter emulado os instintos de sobrevivência da Vênus platinada.

Moro é "funcionário" da Globo há bastante tempo. O ex-juiz continua com um capital político respeitável, mas virou portador de uma doença contagiosa fatal. Está repleto de inimigos por todos os lados. Construir seu nome em cima da desgraça dos outros sempre tem um custo elevado.

Huck sonha em ser o Biden brasileiro. Um “neoliberal-social” que junte todos em torno de um programa leve contra a ameaça fascista. Para que isso se concretize, precisa cuidar de duas questões: não explodir as pontes com a esquerda e atrair uma estrutura político-partidária que lhe dê sustentação.

É aí que Moro começa a virar problema. Sua presença numa eventual chapa inviabiliza o diálogo com a esquerda e consolida o Centrão no colo de Bolsonaro. Sobra o quê?

Não há dúvida sobre a força da chapa global. As pesquisas indicam que Huck avança sobre votos de perfil lulista com seu discurso social. Moro é o catalisador da classe média arrependida pelo voto em Bolsonaro.

Entretanto, apesar da boa largada não é fácil fechar esta equação. Como ficaria a dupla Doria-Mandetta? A chapa Huck-Moro largaria com dois dígitos, sem muito esforço. Mas, isolada, poderia acabar imprensada entre Bolsonaro, a esquerda e até mesmo outro candidato da centro-direita.

Dono de uma “catinga” insuportável para o mundo político, o mais provável é que o ex-juiz de extrema-direita seja candidato isolado ou acabe rebaixado para o Senado ou algum governo estadual.

Na dança de Huck e Moro, o mais importante é compreender o sentido dos movimentos.

A centro-direita deverá sair fortalecida das urnas nas eleições municipais. E vai buscar algum nível de convergência para 2022. É inevitável.

Sabe que Bolsonaro estará no segundo turno. Sabe também que a sua divisão favorece uma repetição do embate entre Bolsonaro e a esquerda. Vai ficar olhando?

É improvável a convergência entre a oposição liberal e a oposição progressista no primeiro turno. Quem abriria mão? A disputa pela segunda vaga será duríssima.

Apesar disso, manter pontes é importante. O ideal seria um pacto de apoio mútuo contra Bolsonaro no segundo turno.

Analisar a correlação de forças congelando a conjuntura do passado é um erro grave. O Brasil está em movimento. A chave do sucesso estará com quem conseguir aglutinar mais o seu campo político mantendo canais com seus adversários.

Quem vai conseguir?

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