Brasil poderia ter bancado estudos da Pfizer, indica áudio entregue à CPI

O ex-secretário de Comunicação do governo de Jair Bolsonaro, Fábio Wajngarten, disse à revista Veja que sugeriu que o governo federal arcasse com os custos de estudos da Fase 3 da vacina da Pfizer no Brasil, em troca de um abatimento em uma futura compra, caso a vacina fosse considerada eficaz. A proposta, que segundo o publicitário teria apoio em diversos níveis, acabou não vingando e dificultou a entrada do imunizante no programa brasileiro.

A fala está em um áudio, encaminhado pela Editora Abril – que publica a revista Veja – à CPI da Covid.

"Outra que eu sugeri: para que se tenha a vacina aprovada pela Anvisa, precisa se fazer testes em seres humanos brasileiros. Aí obviamente os espertos da cadeia alimentar explodiram o preço disso, e muitos dos envolvidos, terceiros interessados, não queriam ou não tinham condições financeiras de fazer a fase 3 no Brasil", explicou Wajngarten. "Sugeri ao ministro Paulo Guedes que o governo bancasse [a pesquisa] e, uma vez aprovada, isso seria abatido do valor inicial da primeira compra."

Na gravação, Wajgnarten diz ao repórter que o ministro da Economia gostou da ideia – mas que outros atores também se mostraram otimistas com a proposta. O ex-Secom disse ter falado "com a República inteira" e obtido uma resposta "totalmente sinérgica", isto é, em favor da ideia. "Fiz peregrinação em todo: vertical jurídica, vertical parlamentar, vertical ministerial, familiar – todos",disse.

O ex-chefe da comunicação não indica por que a proposta – que poderia ter dado ao Brasil a chance de imunizar parte da sua população com uma vacina confiável contra a covid-19 ainda em 2020 – ficou pelo caminho. Wajngarten nega que houve inação: "Não por culpa do Palácio [do Planalto]. Não me cabe apontar dedos, me cabe reportar o que o Palácio fez, através da minha pessoa.", se defendeu.

Ouça no áudio abaixo, a partir do minuto 12:40

A vacina da Pfizer acabou sendo testada em brasileiros, com 2,9 mil voluntários. A Anvisa, que regula as vacinas no país, autorizou a vacina para uso definitivo apenas em 23 de fevereiro, 37 dias depois das primeiras doses administradas com a Coronavac.

A estratégia de permitir os testes em brasileiros era uma das maneiras do país acelerar seu acesso aos imunizantes contra covid-19. Em entrevista ao Congresso em Foco em abril, o ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, citou a questão como uma falha de planejamento do país.

"O Brasil permitiu que nossa população fosse utilizada para estudos de fase 3 de várias das vacinas contra a covid-19 que hoje estão no mercado – a da AstraZeneca, a do Butantan, a da Pfizer, da Johnson&Johnson foram testadas na população brasileira", rememorou o hoje pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). "E poderíamos ter feito algum grau de contrapartida, do tipo que se permite que se testem as vacinas na população brasileira, mas com a exigência a um acesso diferenciado ao fornecimento das vacinas, tão logo elas estivessem registradas para uso em seres humanos. E isso não aconteceu. Não fizemos nenhuma exigência, nem nenhum tipo de acordo prévio."

A entrevista de Fábio Wajgnarten foi um dos motivos alegados pelos parlamentares para convocá-lo à CPI da Covid. Segundo o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), Wajngarten deve ser ouvido novamente pelos senadores, desta vez na condição de investigado.


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