Bolsonaro e PR têm namoro ameaçado por caciques do “centrão”

O deputado Jair Bolsonaro (PSL), pré-candidato do PSL à Presidência da República, pode ver naufragar antes do que pensava a aliança com o Partido da República (PR), legenda que tem 40 deputados e quatro senadores na atual legislatura (2015-2019). Ao menos quatro partidos do chamado "centrão" da Câmara, grupo que sustentou enquanto pôde Eduardo Cunha (MDB-RJ) na presidência da Casa, estão trabalhando para que o ex-deputado Valdemar Costa Neto, apontado como "dono" do PR, não concretize a parceria – que, além de garantir influência na costura de outros entendimentos, daria a Bolsonaro tempo significativo de rádio e TV, algo que ele quase não tem hoje.

DEM, PP, Solidariedade e PRB, grupo que reúne 124 deputados em exercício e forma a coligação em torno do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), não aceitam a formação de uma chapa com o PR, que sempre compôs o centrão, e o PSL de Bolsonaro. Segundo reportagem do jornal O Globo, caciques do bloco parlamentar vão tentar convencer Valdemar a negar apoio ao militar da reserva. Consta dessa estratégia um convite para que o PR participe da próxima reunião do centrão.

O grupo está disposto a embarcar na campanha do tucano Geraldo Alckmin à sucessão de Michel Temer (MDB), que ao menos publicamente tem evitado se envolver nas tratativas pré-eleitorais. Homem forte do Solidariedade e da Força Sindical, o deputado Paulinho da Força (SP) já se manifestou sobre a posição do bloco partidário. "Defendo que o PR participe do nosso encontro, porque o partido sempre esteve, de alguma maneira, junto com o grupo em ações na Câmara", diz o parlamentar na reportagem de Cristiane Jungblut e Eduardo Bresciani.

Valdemar, que mantém influência mesmo sem estar formalmente no comando do PR, tem se reunido com protagonistas da disputa eleitoral e garante que jamais apoiaria Ciro Gomes (PDT),que figura entre os cinco mais citados em pesquisas de intenção de voto. O ex-deputado não acredita que Alckmin, fustigado por denúncias na Operação Lava Jato, tenha consistência para vencer a disputa presidencial.

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Nos bastidores, dirigentes dos quatro partidos do centrão dizem que o PR não poderá retornar ao grupo, em caso de derrota de Bolsonaro, depois de ter formado chapa com o ex-capitão do Exército. Mas Valdemar, político experiente e conhecedor dos mecanismos de negociações pré-campanha, também visa reforçar a bancada do PR na Câmara e no Senado – algo que, avalia o ex-deputado, Bolsonaro pode viabilizar –, mesmo com o risco de não conseguir ajudar a eleger o próximo presidente da República.

Como o Congresso em Foco mostrou ontem (sexta, 6), a bancada de apoio a Bolsonaro na Câmara já é maior que a de qualquer partido, embora muitos não declarem publicamente a adesão. Levantamento do site apontou que pelo menos 65 deputados admitem – a maior parte deles, com a garantia de preservação dos seus nomes – que estarão com Bolsonaro na disputa presidencial. O número supera os 61 integrantes da maior bancada partidária da Câmara, que é a do PT. O próprio pré-candidato e seus seguidores difundem um cálculo bem superior.

Incontinência verbal

A despeito dos movimentos contrários, Bolsonaro diz que a aliança com o PR está bem encaminhada. Para que o partido bata o martelo em favor do apoio ao PSL, sequer é exigido que o senador Magno Malta (ES) seja o vice da chapa presidencial, desde que Bolsonaro indique alguém do PR para a vaga. Magno cogita tentar a reeleição ao Senado.

Mas o otimismo em relação à parceria pode ser minado dentro do próprio PR. Segundo a coluna "Painel" (Folha de S.Paulo), dirigentes do partido contrários à aliança vão aproveitar derrapadas de Bolsonaro para viabilizar aproximações com outros pré-candidatos. Hoje (sábado, 7), um grupo do PR se reúne com a presidente do Podemos, deputada Renata Abreu (SP), principal articuladora da campanha do senador Álvaro Dias (PR), também postulante da cadeira principal do Planalto.

"Esse grupo acha que Valdemar Costa Neto não se aliaria ao PSDB e vê em Dias uma alternativa à direita que seria palatável ao partido", diz trecho do texto da colunista Daniela Lima.

A nota faz menção à fala de Bolsonaro durante evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), quando o ex-capitão disse que colocaria militares em ministérios antes ocupados pelo que ele classificou como "terroristas ou corruptos". "Ao nominar as pastas que pretende entregar às Forças Armadas, Bolsonaro citou o Ministério dos Transportes, que é feudo do PR há anos, desde a era petista", acrescentou a coluna.

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