Com apoio de deputados, bolsonaristas montam acampamento com estratégia paramilitar

“Lembre-se, você NÃO É MAIS UM MILITANTE, VOCÊ É UM MILITAR, um militar com uma farda verde e amarela, pronto para dar a vida pela sua nação”.

É com essa frase que moderadores de um grupo bolsonarista no aplicativo Telegram mobilizam pessoas para participarem de um acampamento que acontece no gramado em frente ao Congresso Nacional, em Brasília. O nome do grupo é “300 do Brasil”, em referência aos “300 de Esparta”, obra que narra batalhas da Grécia Antiga. 

Entre as bandeiras defendidas pelo movimento estão o “extermínio da esquerda” - exatamente nessas palavras -, além do fim da corrupção, o respeito à soberania nacional e a insurreição contra medidas de distanciamento social adotadas por governadores como forma de impedir o avanço da pandemia de covid-19.

Do vocabulário às estratégias, o grupo se comporta como uma milícia instalada no centro político do país, sob os olhos de todas as instituições. 

Print de conversas no grupo do Telegram

O paramilitarismo e a ameaça às instituições democráticas também são as bases de treinamentos que os organizadores ministram aos acampados, conforme convocação abaixo, que foi compartilhada no grupo. 

“ATENÇÃO- GRANDE TREINAMENTO DOS 300 DO BRASIL

O Treinamento acontecerá em nosso QG e a localização NÃO SERÁ REVELADA TAMPOUCO COMPARTILHADA, aos interessados comparecer ao nosso ponto de acolhida no estacionamento da FUNARTE, em frente ao estádio Mané Garricha 

Todos os interessados deverão portar RG e CPF ou CNH para passar pela análise da equipe de segurança, para evitar infiltrados de todos os tipos. Sem documento com foto não participa, não entra e não será incluído em nenhuma das atividades.

Fotos e vídeos estão terminantemente proibidos dentro do QG, prezamos pela segurança e integridade de todos, sujeito à expulsão.

O que vocês vão aprender: Técnicas de revolução não violenta e desobediência civil, técnicas de estratégia, inteligência e investigação, organização e logística de movimentos contra revolucionários. 

Previsão de término: 18h

Vista roupa adequada pra um treinamento físico de combate.

Na entrada do QG TODOS OS CELULAR, SEM EXCEÇÃO serão desligados e recolhidos pela equipe de segurança. Serão devolvidos ao final. Tenham isso em mente como regra para participação do treinamento para evitar qualquer tipo de mal entendido.

Venha com o ímpeto de aprender, se organizar e ir pra guerra. Te esperamos às 12h50, pois às 13h sairemos e não haverá tolerância para os atrasados.”

Apesar de destacar nas convocações que preza por atos não-violentos, os organizadores do grupo deixaram claro que isso não significa dizer que são desarmamentistas. 

“O termo "guerra não violenta" NÃO SIGNIFICA DESARMAMENTISMO, mas parte do pressuposto que, numa ditadura as armas são retiradas da população, então faz-se necessário desenvolver técnicas que não utilizam armas e que sejam acessíveis à todos”, diz uma das mensagens no Telegram. 

O grupo foi um dos responsáveis pela manifestação de domingo (3), que registrou agressões a profissionais de imprensa

A Polícia Militar do Distrito Federal chegou a desmobilizar o acampamento, mas nesta quarta-feira (6) o grupo voltou a se reorganizar no local. Foi assim que Sara Winter, uma das organizadoras dos atos, reagiu à ordem das forças de segurança do DF.

Apoio de parlamentares

Como é próprio da estratégia bolsonarista, o movimento surgiu de modo aparentemente desordenado em guetos da internet, daí saiu para as ruas e logo chegou às instituições. Em 15 dias - tempo de existência do grupo no Telegram - o “300 do Brasil” já conta com o apoio de parlamentares.

As deputadas federais Carol de Toni (PSL-SC) e Bia Kicis (PSL-DF), duas ativas defensoras de Bolsonaro na Câmara, foram ao acampamento e discursaram para os presentes. 

Em seu discurso, Bia Kicis disse aos manifestantes que ali ninguém deveria pedir o fechamento do Congresso, que o movimento deveria ser democrático. A fala gerou reações contrárias e a deputada insistiu, dizendo que intervenção deve ser do povo. 



Um assessor do gabinete da deputada também foi identificado pela Folha de S. Paulo como um dos organizadores do ato. 

"Estou só ajudando de forma administrativa esse movimento a acontecer. Estou fazendo contato com as caravanas, conversando com as lideranças, acionando as lideranças em grupos de WhatsApp para a gente manter esse contato", disse Evandro de Araújo Paula à Folha

A deputada confirmou ao Congresso em Foco o apoio dado à manifestação e a presença de seu assessor no acampamento. 

Ela disse que construiu sua carreira política com manifestações como essa e que enquanto o ato fosse pacífico, teria seu apoio. Ela relatou, inclusive, ter tido conversas com o secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres, e com o governador Ibaneis Rocha (MDB), pedindo que tivessem “boa vontade” com o grupo. A deputada disse, entretanto, que recuou do apoio após ver algumas publicações ligadas ao grupo que atacavam o comando da Polícia Militar do DF.  

Segundo Bia Kicis, seu assessor se envolveu na organização do acampamento espontaneamente, como cidadão, e não o fez atendendo a ordens do gabinete. 

O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, também endossou publicamente o acampamento. 

Estrutura

Além do acampamento no gramado em frente ao Congresso, o grupo diz ter dois outros pontos de apoio: uma estrutura para acolhimento de novos acampados e coleta de doações no estacionamento da Funarte, próximo ao estádio Mané Garrincha, e um outro espaço chamado de Quartel General, onde há mais de 200 beliches e um local para os treinamentos, segundo informações repassadas pelos organizadores no grupo do Telegram. 

Em uma vaquinha online para financiar as atividades, os grupo já obteve mais de R$ 60 mil, doados por 640 apoiadores.

Vínculos institucionais

Apesar de o movimento se dizer espontâneo e organizado pelo povo, seus líderes tem fortes ligações com o governo Bolsonaro. Sara Winter, a principal porta-voz do acampamento, chegou a ser anunciada como coordenadora nacional de Políticas à Maternidade no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, chefiado por Damares Alves. A nomeação, entretanto, não chegou a ser formalizada 

Além de Sara, outro organizador do movimento é ligado ao ministério de Damares. Oswaldo Eustáquio, que segundo Sara foi o idealizador do acampamento, é casado com Sandra Terena, secretária nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. 

Ação policial

Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, por força do Decreto nº 26.903, de 12 de junho de 2006, é vedado o uso das áreas públicas da Esplanada dos Ministérios, da Praça dos Três Poderes e dos Eixos Monumental e Rodoviário, em toda extensão, para qualquer tipo de acampamento.

De acordo com a PMDF, no domingo (3) foi concedido um prazo para saída dos manifestantes em acampamento e, antes do término, eles deixaram o local, conforme estabelecido. Nesta quarta-feira (6), entretanto, alguns manifestantes voltaram a instalar barracas em frente ao Ministério da Justiça. “A PMDF solicitará ao DF Legal que notifique os manifestantes a fim de retirarem as barracas, em cumprimento ao Decreto nº 26.903”, diz a nota.

“Importante ressaltar que a Secretaria de Segurança Pública e o Centro Integrado de Operações de Brasília (CIOB), composto por 22 órgãos, instituições e agências do governo, monitoram atos públicos de toda e qualquer natureza, respeitados os limites constitucionais”.

A Câmara dos Deputados, um dos principais alvos dos manifestantes, informou que o Departamento de Polícia Legislativa tem acompanhado as atividades realizadas pelo grupo nas imediações do Congresso Nacional. “Até o momento, não houve  nenhuma ação passível de gerar registro de ocorrência policial no departamento”, diz.

Enquanto se reorganiza, o acampamento recebe novos apoios, conforme vídeo publicado no grupo do Telegram.

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