Bolsonaro defendeu população armada para ir às ruas contra decretos de prefeitos e governadores

Trechos do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril foram divulgados pelo decano do STF, Celso de Mello, nesta sexta-feira (22).

Nele, o presidente Jair Bolsonaro, exige comprometimento de seus ministros e diz que quer armar a população para que vão às ruas "contra estes bostas". "Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. E se eu fosse ditador, né? Eu queria desarmar a população, como todos fizeram no passado quando queriam, antes de impor a sua respectiva ditadura. Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoj e que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não da pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais."

> Celso de Mello libera vídeo de reunião ministerial; leia a íntegra da transcrição

Bolsonaro diz ainda, que os ministros que não estiverem alinhados ao seu discurso, deve sair. "Espero não trocar mais ninguém. O que os caras querem é nossa hemerroida. É a nossa liberdade! Isso é uma verdade. O que esses caras fizeram com o vírus, esse bosta desse governador de São Paulo, esse estrume do Rio de Janeiro, entre outros, é exatamente isso. Aproveitaram o vírus, tá um bosta de um prefeito lá de Manaus agora, abrindo covas coletivas. Um bosta. Que quem não conhece a história dele, a conhecer, que eu conheci dentro da Câmara, com ele do meu lado! Né? Esse bosta desse governador de São Paulo, esse estrume desse governador do Rio de Janeiro, esse bosta desse prefeito de Manaus", aponta.

Reunião ministerial
Marcos Correa/PR
O presidente também adverte os ministros. "Quem não aceitar a minha, as minhas bandeiras, Damares, família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado. Quem não
aceitar isso, está no governo errado. Esperem pra vinte e dois, né? O seu Álvaro Dias. Espere o Alckmin. Espere o Haddad. Ou talvez o Lula, né? E vai ser feliz com eles, pô! No meu governo tá errado! É escancarar a questão do armamento aqui. Eu quero todo mundo armado! Que povo armado jamais será escravizado. E que cada um faça, exerça o teu papel. Se exponha. Aqui eu já falei: perde o ministério quem for elogiado pela folha ou pelo globo! Pelo antagonista! Né? Então tem certos blogs aí que só tem notícia boa de ministro. Eu não sei como!"

> Os principais momentos da reunião de Bolsonaro com seus ministros

O trecho apontado pelo ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, também consta no vídeo. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira."

Linha do tempo

Bolsonaro inicia a reunião falando sobre a imprensa. “Eu acho que eu resumi hoje na frente do palácio em vinte segundos: ‘Eu não vou falar com vocês, porque vocês não deturpam, vocês inventam, e potencializam’. Tem que ser o papel de cada um, não pode um sair daqui no cantinho... ‘A, foi mais ou menos isso, não pode falar nada. Tem que ignorar esses caras, cem por cento. Senão a gente não, não vai para frente”, diz.

“A gente tá sendo pautado por esses pulhas, pô. O tempo todo jogando um contra o outro. Até a Teresa Cristina contra mim (SIC). Mas para jogar a Teresa Cristina ... jogam ela contra mim. O tempo todo, tá? Então se a gente puder falar zero com a imprensa é a saída”, continua.

Na sequência, Braga Netto chama atenção dos ministros para a questão da economia diante do cenário de pandemia. Ao que Bolsonaro responde. “É, me ligou agora de manhã, o Eduardo Gouveia Vieira da Firjan. Ele quer fazer uma videoconferência onde mais de trezentos empresários do Rio, que é um pouquinho abaixo do potencial de São Paulo, pra hipotecar solidariedade a uma a ideia que nós temos de reabrir o comércio. [...] Vai ser uma porrada muito maior do que você possa imaginar. Não são apenas os informais. Eu acho que já bateu a dez milhões de carteira assinada, foi pro saco. E os governos estaduais não têm como pagar salário, não tem. Maio, metade dos estados não têm como pagar salário mais. A desgraça tá aí. Eles [se referindo aos governadores] vão querer empurrar essa trozoba pra cima da gente, esse pessoal aqui do lado vai querer empurrar, e a gente vai reagir porque aqui não é saco sem fundo. Tá? Então essa preocupação vamos ter. Paralelamente a isso tem aí OAB da vida, enchendo o saco do Supremo, pra abrir o processo de impeachment porque eu não apresentei meu exame de vírus, essas frescurada toda, que todo mundo tem que tá ligado”, diz.

O presidente também exige lealdade de seus ministros. “Não é cuidar do seu ministério nessas questões que estamos tratando aqui, é tratar da questão política também. Tá certo? Então é essa é a preocupação temos que ter, porque a luta pelo poder continua. A todo vapor. E, sem neurose da minha parte, tá? O campo fértil pra aparecer uns porcaria aí, né? Levantando aquela bandeira do povo ao meu lado, não custa nada. E o terreno fértil é esse, o desemprego, caos, miséria, desordem social e outras coisas mais. Então essa é a preocupação, todos devem ter, né? Não é ‘tá bom?’, o ministério fatura, ‘deu merda? no colo do presidente. Não pode ser assim. Hoje eu vi o Magno Malta me defendendo. O Magno Malta, desculpa aí [dirigindo-se ao vice-presidente Hamilton Mourão], foi tratado lá atrás para ser vice. Depois ele resolveu não ser, tudo bem. Depois foi ser tratado para ser ministro, tudo bem.”

Na sequência, Bolsonaro comenta sobre a possibilidade da abertura de um processo de destitução. “Quando se fala em possível impeachment, ação no Supremo, baseado em filigranas, eu vou em qualquer lugar do território nacional e ponto final. O dia que for proibido de ir pra qualquer lugar do Brasil pelo Supremo, acabou o mandato. E, espero que eles não decidam, ou ele, né? Monocraticamente. Querer tomar certas medidas porque daí nós vamos ter uma crise política de verdade. E eu não vou meter o rabo no meio das pernas. Isso daí [renunciar] zero, zero. Tá certo? Porque se eu errar, se achar um dia ligação minha com empreiteiro, dinheiro na conta na Suíça, [pode dar] porrada sem problema nenhum. Vai pro impeachment, vai embora. Agora, com frescura, com babaquice, não”, brada o presidente.

Bolsonaro comenta a repercussão de sua presença em uma manifestação que pedia o retorno do AI-5. “Eu sou o chefe supremo das forças armadas. Ponto final. O pessoal tava lá, eu fui lá. Dia do exército. E falei algo que eu acho que num tem nada demais. Mas a repercussão é enorme.” [...] Quando um coitado levanta uma placa de Al-5, que eu tô me lixando para aquilo, porque não existe AI-5. Não existe. Artigo um, quatro, dois: nós queremos cumprir o artigo um, quatro, dois, todo mundo quer cumprir o artigo um, quatro, dois. Havendo necessidade, qualquer dos poderes, pode, né? Pedir as forças armadas que intervenham pra restabelecer a ordem no Brasil, naquele local sem problema nenhum”, pondera.

Assista a um trecho do vídeo da reunião

Interferência na Polícia Federal

A seguir, Bolsonaro volta a pedir fidelidade de seus ministros e que se exponham em defesa do governo. Nesse trecho, o presidente fala sobre interferência nos bancos, ministérios e, também na Polícia Federal.

“Tem que se preocupar com a questão política. [...] Tira a cabeça da toca, porra! Não é só ficar dentro da toca o tempo todo não. ‘Tô bem, eu tô cuidando da minha imagem, eu sou bonitinho, e o resto que se exploda” [falando aos ministros]. Não, tem que fazer a sua parte. É isso que eu tento que falar com vocês, porque depois de certo momento, onde [quando] chegar na cabeça dessas pessoas, fica difícil voltar atrás. Daí querem uma crise. Não tenho amor por esse mandato, pela cadeira de Presidente. Zero, zero! Não vou provocar ninguém. [...] Acordem para a política e se exponham, afinal de contas o governo é um só. E se eu cair, cai todo mundo.”

“Eu não vou esperar o barco começar a afundar pra tirar água. Estou tirando água, e vou continuar tirando água de todos os ministérios no tocante a isso. A pessoa tem que entender. Se não quer entender, paciência, pô! E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora os demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações. [...] As inteligências das Forças Armadas que não tenho informações. ABIN tem os seus problemas, tenho algumas informações. Só não tenho mais porque tá faltando, realmente, temos problemas, pô! Aparelhamento etc. Mas a gente não pode viver sem informação”, diz.

Bolsonaro continua sua fala reforçando a importância de ter informações. “E me desculpe, o serviço de informações nosso, todos, é uma ... são uma vergonha, uma vergonha! Que eu não sou informado! [...] E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é ameaça, não é uma extrapolação da minha parte. É uma verdade”, aponta.

Neste momento está o trecho citado pelo ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, em que o presidente fala sobre a interferência na Polícia Federal. “Prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho. Então, pessoal, muitos vão poder sair do Brasil, mas não quero sair e ver a minha a irmã de Eldorado, outra de Cajati, o coitado do meu irmão capitão do Exército lá de Miracatu se foder, porra! Como é perseguido o tempo todo [pela imprensa]. [...] Mas é a putaria o tempo todo pra me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira”, vaticina.

A seguir, o presidente volta a pedir fidelidade dos ministros e fala sobre armar a população. “O que esses filha de uma égua quer, ô Weintraub, é a nossa liberdade. Olha como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Como é fácil. O povo tá dentro de casa. Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz uma bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. Se eu fosse ditador, né? Eu queria desarmar a população, como todos fizeram no passado quando queriam, antes de impor a sua respectiva ditadura. Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não dá pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais”, brada.

Na sequência, os ministros tocam a reunião e o presidente participa pontualmente, questionando as ações de cada um deles.

> Os principais momentos da reunião de Bolsonaro com seus ministros

 

 

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