Evento na UnB discute uso da ciência de dados na análise do cenário político

Seminário “Ciência de Dados e Política”, realizado pelo Ibpad em parceria com o Congresso em Foco, mostra como as novas tecnologias vão revolucionar o jornalismo e a análise política

 

A importância de análise de dados para o futuro tanto da observação do cenário político quanto do trabalho de relações governamentais, na esteira das mais novas tecnologias. Esse foi o mote da segunda edição do seminário Ciência de Dados e Política, realizada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (Ibpad), na última segunda-feira (3), na Universidade de Brasília (UnB). O evento teve apoio do Congresso em Foco e reuniu representantes de grandes corporações privadas (como Itaú, Nestlé, Oracle e Ambev); da Câmara dos Deputados; do governo federal; de empresas de consultoria política; e de pesquisadores, alunos e professores das áreas de Ciência Política, Jornalismo e Ciências da Computação.

Mediado pelo jornalista Sylvio Costa, fundador do Congresso em Foco, o debate Cristiano Ferri, diretor do Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados e pesquisador associado do Ash Center for Democratic Governance and Innovation, da Universidade de Harvard; Saulo Porto, especialista em Relações Governamentais e fundador da start up Dado Capital; e Pablo Cesário, pós-doutor em Grupos de Interesse e Democracia pela Universidade de São Paulo e gerente-executivo de Gestão de Defesa de Interesses da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Sylvio Costa ressaltou o "alto nível" do encontro, que trouxe para a mesa de discussão experiências de ponta na análise de dados políticos. Para ele, foi "uma amostra do enorme caminho de possibilidades existentes quando é possível botar no mesmo espaço quem produz conhecimento acadêmico e os melhores profissionais dos setores público e privado". Sylvio destaca que a aplicação de robôs, o big data, o monitoramento das redes sociais, a inteligência artificial e outras ferramentas tecnológicas já começaram a alterar profundamente a maneira como as corporações privadas mais eficientes acessam os dados do seu interesse "e o jornalismo não pode ficar de fora dessa revolução em curso".

“Cada vez mais vai ser impossível fazer jornalismo político sem o amparo da ciência. E o Congresso em Foco está fazendo um grande esforço de atualização para ser pioneiro nessa área, como já foi ao se lançar como o primeiro veículo online especializado no Congresso Nacional”, afirmou o jornalista. Segundo Sylvio Costa, um dos pontos altos do evento foi o relato sobre técnicas hoje disponíveis para antecipar decisões políticas, como votações no Legislativo e mesmo sentenças judiciais.

Ele também apontou o Painel do Poder como o primeiro resultado concreto do trabalho em desenvolvimento no Congresso em Foco para oferecer à sociedade e ao mercado corporativo soluções sofisticadas em um mundo a cada dia mais complexo, no qual se tornam maiores as necessidades dos cidadãos e dos consumidores.

Um futuro sem Parlamento?

Cristiano Ferri apresentou a estrutura do LabHacker da Câmara, debatendo o potencial e limites da intersecção entre Estado e sociedade civil na construção de mecanismos de transparência eficazes. Segundo Ferri, o Laboratório trabalha com três principais públicos (servidores, parlamentares e sociedade), buscando colaboração e evoluindo para um “Estado enquanto plataforma”, onde “as informações públicas têm que ser um resultado dessa interação entre cidadãos e administradores públicos e políticos”.

Ele disse que os novos mecanismos tecnológicos possibilitam ouvir os cidadãos sobre qualquer assunto de modo tão fácil e barato que se poderia até cogitar futuramente de substituir o Poder Legislativo pela consulta direta à população. "No futuro, podemos até não ter Parlamento. Seria bom?", questionou.

Já Saulo Porto destacou o futuro da área de Relações Governamentais com a introdução e fortalecimento de tecnologia na gestão de dados e na elaboração de prospecções políticas. CEO e fundador da Dado Capital, ele enfatizou a importância de modernização do profissional de Relações Governamentais como uma condição de sobrevivência à revolução que a área já prevê.

Saulo Porto desenvolve em Brasília projeto apoiado pelo Google que permitirá oferecer a qualquer grupo de interesse serviços científicos de coleta, análise e monitoramento de dados. A experiência tem como objetivo usar a inteligência artificial para fazer previsões políticas calcadas em base científica.

Pablo Cesário abordou a importância de análise de dados no universo dos grupos de influência junto ao poder político. Extrapolando as práticas tradicionais de Relações Governamentais, Pablo reforçou a necessidade de construir conhecimento real, seja na agregação de dados externos, no cruzamentos de dados e na gestão de análises temporais, seja no reconhecimento do papel da web e dos influenciadores temáticos.

O papel do analista político

Os três debatedores e Sylvio Costa foram questionados pelo diretor-executivo do Ibpad, Max Stabile, sobre o status da análise política em 2040.

Saulo Porto e Pablo demonstraram otimismo com o desenvolvimento do campo da análise política baseada em ciência de dados. Ressaltaram, sobretudo, que as novas tecnologias tornarão mais fácil e mais barato o acesso a informações de interesse público. "Não será necessário vir a Brasília e mais gente vai participar da discussão política", afirmou Pablo.

Cristiano e Sylvio concordaram que as tecnologias modernas trazem novas possibilidades, mas ponderaram que elas também trazem novos problemas. Um ponto crítico para ambos é o acesso da população aos benefícios das novas ferramentas de análise política. O fundador do Congresso em Foco também mencionou a crescente intolerância no debate político, que empobrece a discussão sobre as decisões políticas.

Na sua opinião, "é um problema de quantidade e qualidade". No primeiro caso, trata-se de ampliar o acesso da população às melhores ferramentas de acesso a dados públicos. No segundo, de melhorar a qualidade do debate político, que está hoje, para Sylvio, dominado pela desinformação e pelo ódio.

Ele explica o recado que tentou passar no evento: "Não podemos esquecer que as notícias falsas foram as mais lidas tanto nas eleições brasileiras de 2014 quanto nas eleições americanas de 2016. Anos atrás, eu via na internet a possibilidade de criar espaço para um mundo lindo, democrático, de respeito às diferenças, de debate inteligente. Hoje, ela é palco de figuras primárias e ameaçadoras como o deputado neofascista Jair Bolsonaro, que é atualmente, disparado, o parlamentar mais seguido e admirado nas redes sociais. Portanto, hoje é e acredito que daqui a 23 anos continuará sendo imenso o trabalho do analista político, e também do jornalista político, para desfazer mitos e educar. Afinal, informar adequadamente o cidadão, contribuindo para que ele exerça melhor o seu papel, sempre foi e sempre será a missão maior do jornalismo".

 

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