Quinta, 23 de Maio de 2013

Colunistas

Violência & poder em Sampa

“A violência é a base mais fraca possível para a construção de um governo. É a arma favorita do impotente”

Qualquer um pode ser preso ou morto se estiver no lugar errado”, declarou a professora da USP e especialista em Sociologia Urbana, Vera da Silva Telles ao site Carta Maior desta semana, analisando o atual surto de violência e a ação policial nas periferias de São Paulo. Entre 17 e 28 de junho, segundo dados do Sistema de Informações Criminais, 127 pessoas foram assassinadas na capital. Durante o mês de junho, 39 cidades da Grande São Paulo registraram 166 mortos.

Na avaliação de Telles, a explosão de violência nas periferias de Sampa faz parte de “um embaralhamento dos critérios de ordem, no qual a ação dos agentes policiais gera um sentimento de imprevisibilidade nos moradores de tais áreas.” (apesar do jargão criptoacadêmico, é uma explicação muito simplista, confusa e rebuscada pro entendimento do leitor comum, vocês não acham?). Por outro lado, especula-se que o estopim para essa onda de “violência extralegal” seria um suposto confronto entre membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) em 28 de maio, na zona leste, com oficiais da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), do qual teria resultado cinco mortes.

Para muitos, a violência do Estado – sobretudo um Estado tucano há décadas – é o ingrediente central dos assassinatos em Sampa, refletindo práticas higienistas, sem contar o encarceramento que se maximizou em toda a região, na mesma medida em que, sintomaticamente, extinguiram-se os empregos sob o império dum Estado excludente e privatista. Mas as conexões entre violência, poder e autoridade estão sutilmente articuladas em reflexões exemplares por Slavoj Zizek, em seu último livro (1), uma vez que ele considera o estudo do antagonismo da ordem social uma tarefa maior do nosso tempo.

Segundo o filósofo esloveno, a única maneira de nos orientarmos na charada da violência é nos concentrarmos em sua natureza paralática (a “paralaxe zizekiana” é o efeito do aparente deslocamento do objeto observado devido à mudança na posição do observador. A exemplo daquela frase de Malcolm Lowry: “Quando se olha diretamente para o abismo, este devolve o olhar”). Resumindo: como “reagimos” à violência e nela interferimos, modificando-a.

Inicialmente, é preciso examinar os curtos-circuitos entre os diversos níveis, digamos, entre poder e violência social. Uma crise econômica que causa devastação é vivenciada como poder incontrolável e quase natural, mas deveria ser vivenciada como violência. O mesmo acontece com a autoridade e a violência: a forma elementar de crítica da ideologia é exatamente desmascarar a autoridade como violência.

Aqui o autor se refere a Hannah Arendt que elaborou (2) uma série de distinções entre “poder”, “vigor”, “força”, “violência” e “autoridade”. “Força” deve ser reservada para as “forças da natureza” ou a “força das circunstâncias”, indicando a energia liberada por movimentos físicos ou sociais. Nunca deve ser intercambiável com o “poder” no estudo da política: a força se refere a movimentos da natureza e outras circunstâncias humanamente incontroláveis, enquanto poder é função das relações humanas.

Nas relações sociais, o poder resulta da capacidade humana de agir em concerto para convencer ou coagir os outros, enquanto “vigor” é a capacidade individual de fazer isso. “Autoridade” é uma “fonte” específica de poder. Representa o poder investido em pessoas em virtude de seus cargos e autoridade quanto a conhecimentos relevantes. Existe autoridade pessoal na relação pais e filhos, professor e aluno, padres ou pastores e comunidade de fiéis. Sua marca é seu reconhecimento inquestionável, não é necessária nem coação nem persuasão para que os outros obedeçam. Portanto, a autoridade não brota simplesmente dos atributos do indivíduo, seu exercício depende da disposição por parte dos outros de atribuir respeito e legitimidade e não da capacidade pessoal (as tais “gestão” & “competência” eternamente invocadas como mantras neoliberais) de alguém de persuadir ou coagir.

Portanto, é fundamental distinguir poder de violência: o poder é psicológico, uma força moral à qual as pessoas obedecem naturalmente, enquanto a violência impõe a obediência por meio da coação física. Os que empregam a violência podem impor temporariamente sua vontade, mas seu comando é sempre tênue, porque quando a violência acaba ou diminui, há ainda menos incentivo para obedecer às autoridades. O controle da violência exige vigilância constante. Violência de menos é ineficaz; violência demais gera revolta. A violência pode destruir o poder antigo, mas não pode criar autoridade que legitima o poder novo.

Logo, a violência é a base mais fraca possível para a construção de um governo. É a arma favorita do impotente: os que não têm muito poder tentam controlar os outros usando a violência. Ela raramente cria poder. O terrorista que explode um prédio ou assassina um político dá ao governo a desculpa que ele deseja para reduzir as liberdades individuais e expandir sua esfera de influência. Quando um governo recorre à violência, é porque sente que seu poder está se esvaindo. Os governos que dominam pela violência são fracos e sem legitimidade.

A proposta do terrorismo político de esquerda na EU nos anos 70/80 (o Baden-Meinhof na Alemanha, as Brigadas Vermelhas na Itália, a Action Directe na França, etc.) resultam duma época em que as massas estão totalmente imersas no torpor ideológico capitalista e a crítica da ideologia já não funciona mais, donde só o recurso ao real nu e cru da violência direta consegue despertá-las.

A “maioria silenciosa” pós-política de hoje não é estúpida, mas cínica e resignada. A limitação da pós-política é bem exemplificada não só pelo sucesso do populismo direitista, cujos expoentes europeus foram, apesar da impopularidade crescente, reeleitos “democraticamente”, a exemplo de Tony Blair (eleito também várias vezes a pessoa mais impopular do Reino Unido), Sarkozy, Berlusconi e outros.

Isto significa que o descontentamento geral não tem como encontrar uma expressão política eficaz. Há algo muito errado aqui: o problema não é que as pessoas “não sabem o que querem”, e sim que esta “resignação cínica” as impede de agir, de modo que o resultado é a estranha lacuna entre o que elas pensam e como agem, isto é, votam.

Portanto, a violência sistemática dos sucessivos, além de fracos e ilegítimos (ou deslegitimados/desmoralizados) governos tucanos em Sampa é o inevitável resultado catastrófico deste voto “cínico e resignado” da maioria silenciosa pós-política paulistana.

É isso aí. Uma pílula amarga de engolir, contudo, também segundo Zizek, “a verdade é violenta”.

(1)Vivendo no fim dos tempos. São Paulo, Boitempo, 2012.

(2)In Hannah Arendt. Rio, Sobre a Violência, Civilização Brasileira, 2009.

Sobre o autor

Márcia Denser

Márcia Denser

* A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos de Márcia Denser.

7 Comentários

  1. Lucy disse:

    (Continuando 2): Usar Zizek para entender o que ocorre na brutalidade paulistana é até dourar a pílula, fazendo crer que há profundidades recônditas e sutilezas macabras a serem desvendadas. O Real, a natureza paralática… Papaguear essas coisas não ajuda, sinceramente, na compreensão do fenômeno do terror observado pela socióloga Vera Telles. Se “qualquer um pode ser preso ou morto se estiver no lugar errado”, vivemos mais que um surto de violência policial, vivemos em plena floração do terror estatal. Totalmente desinibido. É terror como método político de aplicação diária e “legítima”. Tantas vezes ao dia quanto forem necessárias. O que quer dizer a frase empolada da socióloga: “um embaralhamento dos critérios de ordem, no qual a ação dos agentes policiais gera um sentimento de imprevisibilidade nos moradores de tais áreas”? Uma palavra só: Terror. Ou traduzindo: Terror.

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  2. Maria disse:

    (Continuando 1): Creio que é um equívoco radical chic usar o filósofo pop para entender o Brasil. Seria necessário na verdade esquecer tudo que Zizek possa ter dito para tentar entender o Brasil. Para ficar só em poucas palavras, Zizek não sabe o que é o Bope nem o que a Rota. O crescimento do prestígio do Bope com todas as ações realizadas no Rio de Janeiro e amplamente noticiadas pela imprensa, assim como a notoriedade ganha pelo batalhão com os filmes tropa de elite I e II , poderia mexer com os brios corporativos? O crescimento das UPPs no Rio poderia insuflar o fantasma da “migração do crime” do Rio para SP? O momento eleitoral tem alguma influência sobre a violência policial? As ações violentas seriam bem recebidas por parte significativa do eleitorado?

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    • Marlucy disse:

      Várias matérias foram feitas sobre o atual surto de matança em SP. Uma saiu na Folha/UOL assinada por André Caramante: Mortes cometidas por policiais da Rota sobem 45% em SP. Entendo que um crescimento de 45% significa um surto epidêmico. E no entanto o nível sempre foi muito alto. Os intelectuais deveriam perguntar as razões dessa intensificação do morticínio da parte do Estado, no momento presente e na realidade que vivemos dentro do Brasil. Por que o que significa que o policial mate? Hoje os jornais estão trazendo afirmação do comandante-geral interino da Polícia Militar de São Paulo, coronel Hudson Camilli, que considerou a ação que terminou na morte do empresário Ricardo de Aquino “tecnicamente correta”. Em 2011 tivemos a dor como método para “limpar” a Cracolândia, nos últimos episódios a morte aparece como “tecnicamente correta”.

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  3. fred navarro disse:

    Só em S.Paulo, né Márcia?

    Vá à periferia do Recife, Rio, BH, Salvador e qualquer capital brasileira pra ver se é diferente.

    O que vc está fazendo é propaganda eleitoral para um mauricinho inventado por mais um dedaço de Lula.

    Triste.

    Fred Navarro

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  4. nelson gomes disse:

    Acho injusta a posição de vocês, afinal a Márcia está precisamente condenando também a violência (ou terror, como todos) por ser esta ilegítima e própria dum governo tucano, sobretudo comadado por Alkmin, totalmente deslegitimado,privatizado e higienista, a colunista disse bem> Suas críticas com filigranas policiais tá mais para a terminologia fascista de quem assistiu DEMAIS Tropa de Ellite,bem como seguidores do Opus Dei, tão caro ao nosso ger, digo, governador,
    Nelson

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  5. nelson gomes disse:

    E mais> Por que considerar “radical chic” as colocações da Márcia? Será que nos tornamos tão alienados e burros a ponto de desconsiderar as amplas relações entre teoria e prática? A menos que o brasileiro ainda prefira continuar ressentido e complexado. É uma opção, aliás, pré-Lula, abraços Nelson

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  6. DERLY DO SULE MARCELINHO DOS TECLADOS disse:

    http://www.youtube.com/marcelo37369 deixe seus comentarios e sejas mais um dentre muitos a compartilhar este link

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