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Carnaval e suruba

É raro. Iniciei este artigo/crônica com o título já definido, “carnaval e suruba”. Raro porque, no geral, o título surge enquanto escrevo ou quando o termino.

Terminado de escrever o título, o corretor automático traça uma linha verde sob a palavra suruba. Pede a correção e dá algumas sugestões de alteração: “capaz, excelente, muito bom, namoro escandaloso e orgia”.

Se fosse aceitar sugestões do corretivo, substituiria a palavra “suruba” por “namoro escandaloso” ou “orgia”. Ambas adequadas para o carnaval e para o momento político atual.

Tão adequada que o senador Romero Jucá, golpista e líder do golpista Michel Temer, usou-a ao criticar a proposta do Supremo Tribunal Federal de limitar o foro privilegiado de políticos apenas a fatos acontecidos no exercício do mandato. Digo que orgia é adequada para substituir suruba porque assim afirma Houaiss: orgia, “namoro escandaloso; sexo grupal, suruba”.

Feita a crítica ao STF e muito criticado pela palavra (suruba) usada, Jucá veio a público dizendo que a declaração estava fora do contexto e que ele se referia a uma música do já falecido grupo Mamonas Assassinas.

Creio que ele se referia a música Vira-Vira, mais especificamente ao refrão: “Roda-roda vira, solta a roda e vem / Me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém / Roda-roda vira, solta a roda e vem / Neste raio de suruba, já me passaram a mão na bunda / E ainda não comi ninguém!”

Nesta suruba política, apesar de delatado inúmeras vezes, Aécio ainda não foi comido. Retiro essa afirmação da boca de Sérgio Machado.

No diálogo entre Jucá e Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro, divulgada em 2016, Jucá diz “todo mundo na bandeja para ser comido”, ao que Sérgio Machado acrescenta: “o primeiro a ser comido vai ser o Aécio”.

Nos dias que antecederam o carnaval, imaginando as festas do Rei Momo, a suruba política cresceu: Alexandre Moraes, num jogo de compadres, inclusive com piscadela, é aprovado para o stf (minúsculo); Carlos Velloso se nega a assumir o Ministério da Justiça, porém  Osmar Serraglio, que tem como única qualidade ser aliado de Eduardo Cunha, aceita-o; José Serra, denunciado pela Odebrecht por ter recebido ilegalmente R$ 23 milhões, alega problemas de saúde e pede demissão; e Eliseu Padilha – chamado por ACM de Quadrilha–, acusado de corrupção, é acometido de alguma enfermidade e pede licença do cargo.

Se a suruba, digo, a epidemia avançar há na lista de acusados outros ministros que devem pedir licença para tratamento de saúde. São eles: Gilberto Kassab, Bruno Araújo, Moreira Franco e Marcos Pereira.

A suruba, que muitos imaginavam ser mais adequada ao carnaval, acometeu a política, onde um procura “comer” o outro e, se possível, jantar a Lava Jato, afinal ela já prestou o serviço a que veio, destituir uma presidenta honesta e impor um Estado de exceção.

Estado cujos dirigentes estão acometidos do mesmo vírus, o da corrupção e os procuradores e o juiz da lava jato, como bons higienistas ou se quiserem, como Pilatos, lavam as mãos e deixam a suruba do Aécio e Jucá prosseguir.

Ao invés da suruba, a política tomou conta do carnaval. No último sábado (25), ACM Neto, prefeito de Salvador, foi recebido na sede do bloco Ilê Aiyê aos gritos de “fora Temer” e “golpista”. No dia anterior, uma multidão acompanhava a banda Baiana System e o vocalista da banda Russo Passapusso puxou um “fascistas, machistas, não passarão” e “fora Temer”, e a multidão respondeu.

Há 50 anos, como um meio de protesto, surgia a Tropicália. Na sexta feira, (24), Caetano Veloso e Gilberto Gil, ícones do movimento, levaram uma multidão ao Pelourinho para comemorar estes 50 anos. Caetano puxou um “fora Temer” e a multidão acompanhou.

Em Belo Horizonte, a maioria dos blocos puxou o “fora Temer” e distribuíram adesivos com frase. Esperavam distribuir cem mil adesivos.

O carnaval de norte a sul, de leste a oeste, teve duas palavras de caráter político gritadas: “fora Temer”. Como se vê, o carnaval se tornou politico e a política, uma suruba.

Se não parar essa suruba, o golpista Temer destruirá os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. Ou a classe trabalhadora reage ou “neste raio de suruba” a elite, representada pelos tucanos, se livra e a classe trabalhadora será comida.

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Sobre o autor

Dr. Rosinha

Dr. Rosinha

* Médico, com especialização em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho, destacou-se como líder sindical antes de se eleger vereador, deputado estadual e deputado federal. Também foi presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul). Exerce o quarto mandato na Câmara dos Deputados, pelo PT do Paraná.

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