No impeachment, só 34 eleitos com os próprios votos

Na votação do último domingo, 477 dos 511 deputados votantes só chegaram à Câmara graças aos votos do partido, da coligação ou de colegas mais votados. Saiba quem se elegeu por conta própria

Nilson Batistan/Ag. Câmara

Quem votou em Tiririca ajudou a eleger outros dois deputados pelo PR. Humorista estreou no microfone após cinco anos de mandato

O eleitor que votou em um candidato a deputado federal que não se elegeu em 2014 pode não saber, mas ajudou a eleger parlamentares que votaram o impeachment na Câmara. E é possível que, em alguns casos, ele só tenha tomado conhecimento da existência desse congressista no último domingo (17). Dos 511 deputados que participaram da votação histórica, apenas 34 (veja a lista abaixo) tiveram votos suficientes para se elegerem sozinhos. Destes, 27 votaram a favor da abertura do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff; os outros sete votaram contra. Além desse grupo, outros dois deputados que não estavam na Câmara no domingo também se elegeram com a própria votação Clarissa Garotinho (PR-RJ), que está em licença-maternidade, e Felipe Carreras (PSB-PE), que se licenciou do mandato para comandar uma secretaria estadual.

Os outros 477 votantes não tiveram voto suficiente para conquistar o mandato diretamente. Valeram-se da soma dos votos recebidos pelo partido ou por outros candidatos de suas legendas ou coligações, eleitos ou não. Esses parlamentares não alcançaram por conta própria o chamado quociente eleitoral, que é a quantidade necessária de votos para a eleição de um deputado em seu estado (ao fim da matéria, a lista por unidade federativa). A maioria deles chegou à Câmara de carona na montanha de votos recebidos por colegas de partido ou chapa. No Distrito Federal e em outras 11 unidades federativas, ninguém foi eleito apenas com a própria votação.

O quociente é definido pela divisão do número de votos válidos pela quantidade de vagas que cabe a cada estado. Vejamos o caso de São Paulo: os 20,99 milhões de votos válidos dados a candidatos à Câmara no estado divididos entre as 70 cadeiras da bancada resultou no quociente eleitoral de 299,9 mil votos. Ou seja, quem alcançou dessa marca em diante conseguiu se eleger sozinho. E, quem teve votos de sobra, ainda levou para Brasília outros parlamentares com votação modesta.

Russomanno e Tiririca

Dono da segunda maior votação da história da Câmara, com 1,5 milhão de votos em 2014, Celso Russomanno (PRB-SP) elegeu outros quatro deputados de seu partido: o cantor sertanejo Sérgio Reis, que recebeu 45.330 votos, o hoje primeiro-secretário da Casa, Beto Mansur, com 31.305, Marcelo Squassoni, com 30.315, e Fausto Pinato, com 22.097 votos. Primeiro relator do processo contra Eduardo Cunha no Conselho de Ética, Pinato trocou recentemente o PRB pelo PP.

Tiririca (PR-SP), o segundo mais votado da atual legislatura, com mais de 1 milhão de votos, garantiu a eleição de mais dois candidatos do PR: Capitão Augusto (PR), com 46.905 votos, e Miguel Lombardi (PR), com 32.080. Capitão Augusto é o único parlamentar que circula pela Câmara fardado e com condecorações militares no peito. No caso de Tiririca e Russomanno, as sobras foram rateadas entre companheiros de partido. Mas nem sempre é assim. Em diversos casos o beneficiado é de outra legenda, que faz parte da mesma coligação. Ou seja, o eleitor pode votar em um candidato de determinada sigla e ajudar a eleger o de outra sigla.

“Os votos computados são os de cada partido ou coligação e, em uma segunda etapa, os de cada candidato. Eis a grande diferença. Em outras palavras, para conhecer os deputados e vereadores que vão compor o Poder Legislativo, deve-se, antes, saber quais foram os partidos políticos vitoriosos para, depois, dentro de cada agremiação partidária que conseguiu um número mínimo de votos, observar quais são os mais votados. Encontram-se, então, os eleitos. Esse, inclusive, é um dos motivos de se atribuir o mandato ao partido e não ao político”, explica o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Partidos e estados

De acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), os estados em que mais candidatos conseguiram alcançar o quociente eleitoral em 2014 foram São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com cinco cada. Quatro pernambucanos também obtiveram sucesso apenas com os próprios votos. Na Paraíba e no Ceará, foram três. Em Goiás e em Santa Catarina, dois. Amazonas, Bahia, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Sergipe e Roraima tiveram apenas um deputado entre os que atingiram a marca. Nas demais unidades federativas, ninguém alcançou por conta própria o quociente eleitoral.

Na última eleição, ainda segundo o Diap, os partidos que mais tiveram parlamentares eleitos com os próprios votos foram: PSDB (6), PT (5), PMDB e PP (4 cada), DEM (3), PR, PSB e PSD (2), PRB, PSC, Psol, PTB, PTN e SD (1 cada). Em 2010, 36 deputados se elegeram sem a necessidade de contar com os votos da legenda ou coligação; em 2006, foram 32; e em 2002, 33.

Veja quem se elegeu ou reelegeu com os próprios votos (pelo partido em que estava em 2014):

Deputado Partido * UF Votação Impeachment
Arthur Bisneto PSDB AM 250.896 Sim
Lucio Vieira Lima PMDB BA 222.164 Sim
Genecias Noronha SD CE 221.567 Sim
José Guimarães PT CE 209.032 Não
Moroni Torgan DEM CE 277.774 Sim
Daniel Vilela PMDB GO 179.214 Sim
Delegado Waldir PSDB GO 274.625 Sim
Gabriel Guimarães PT MG 200.014 Não
Odair Cunha PT MG 201.782 Não
Misael Varella DEM MG 258.393 Sim
Rodrigo de Castro PSDB MG 292.848 Sim
Reginaldo Lopes PT MG 310.226 Não
Zeca do PT PT MS 160.556 Não
Delegado Eder Mauro PSD PA 265.983 Sim
Pedro Cunha Lima PSDB PB 179.886 Sim
Veneziano PMDB PB 177.680 Sim
Aguinaldo Ribeiro PP PB 161.999 Sim
Eduardo da Fonte PP PE 283.567 Sim
Pastor Eurico PSB PE 233.762 Sim
Jarbas Vasconcelos PMDB PE 227.470 Sim
Christiane Yared PTN PR 200.144 Sim
Jair Bolsonaro PP RJ 464.572 Sim
Eduardo Cunha PMDB RJ 232.708 Sim
Chico Alencar PSol RJ 195.964 Não
Leonardo Picciani PMDB RJ 180.741 Não
Shéridan PSDB RR 35.555 Sim
Esperidião Amim PP SC 229.668 Sim
João Rodrigues PSD SC 221.409 Sim
Adelson Barreto PTB SE 131.236 Sim
Celso Russomano PRB SP 1.524.361 Sim
Tiririca PR SP 1.016.796 Sim
Pastor Marco Feliciano PSC SP 398.087 Sim
Bruno Covas PSDB SP 352.708 Sim
Rodrigo Garcia DEM SP 336.151 Sim

* Clarissa Garotinho (PR-RJ) e Felipe Carreras (PSB-PE) também superaram o quociente eleitoral. Os dois estão licenciados do mandato.

Veja o quociente eleitoral por estado:

UF Votos válidos Vagas Quociente eleitoral
AC 399.201 8 49.900
AL 1.384.584 9 153.843
AM 1.658.136 8 207.267
AP 386.084 8 48.261
BA 6.641.666 39 170.299
CE 4.367.020 22 198.501
DF 1.454.063 8 181.758
ES 1.794.470 10 179.447
GO 3.032.760 17 178.398
MA 3.074.321 18 170.796
MG 10.118.666 53 190.918
MS 1.276.893 8 159.612
MT 1.454.612 8 181.827
PA 3.755.239 17 220.896
PB 1.936.819 12 161.402
PE 4.129.147 25 165.166
PI 1.587.323 10 158.732
PR 5.665.222 30 188.841
RJ 7.615.669 46 165.558
RN 1.580.871 8 197.609
RO 798.475 8 99.809
RR 237.900 8 29.738
RS 5.896.504 31 190.210
SC 3.376.535 16 211.033
SE 981.303 8 122.663
SP 20.996.612 70 299.952
TO 733.225 8 91.653

Reportagem publicada inicialmente em 6 de outubro de 2014 e atualizada em 22 de abril de 2016 para inclusão de novas informações e cruzamento de dados sobre a votação do impeachment na Câmara.

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