Trump, Bolsonaro e a autocrítica que a esquerda precisa fazer

Ricardo de João Braga*

No livro O progressista de ontem e do amanhã – desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias (Companhia das Letras, 2018), Mark Lilla, professor da Universidade de Columbia (Nova York, EUA) apresenta um instigante ensaio para o momento de ascensão dos populismos de direita no mundo, o que se aplica a Donald Trump nos Estados Unidos, mas também a Jair Bolsonaro no Brasil, entre outros.

O livro não envereda pelos “erros”, “absurdos” e “primitivismos” da direita. Ao contrário, foca na tão mais necessária crítica da própria esquerda, à qual ele reiteradas vezes afirma pertencer (nos EUA, liberal é o termo que designa a esquerda). A obra gira em torno do futuro, da superação do momento político atual, visto como problemático e com valores e propostas insuficientes para criar uma boa sociedade. Lilla preocupa-se em reconstruir a importância de dois conceitos centrais às sociedades políticas que andam bastante esquecidos: bem comum e cidadania.

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Para o autor, os EUA tiveram desde 1930 dois grandes períodos políticos, que, remetendo a eras espirituais, ele denomina “dispensações”: um fundado por Franklin Roosevelt nos anos 1930 e outro por Ronald Reagan nos anos 1980. Agora, estaríamos entrando numa nova fase, pouco desenvolvida na obra, fundada por Donald Trump. E é sobre esse futuro que Lilla conclama a esquerda a se auto-criticar e colocar-se à altura para disputá-lo.

Roosevelt e Reagan “formataram” mundos políticos. Souberam identificar condições materiais, estruturais, sociais etc. e sobre elas criaram um ideário capaz de energizar as forças políticas. A dispensação Roosevelt teria sido de reforço da solidariedade, da relevância do patriotismo, do “ninguém será deixado para trás”, slogan abundante em tantas outras circunstâncias. Do Estado do bem-estar e do discurso de direitos, mas também de deveres. O contínuo crescimento econômico criou uma sociedade rica e com oportunidades. Contudo, a guerra do Vietnã e o avanço do individualismo – que se formava insidiosamente nos subúrbios ricos, isolando as pessoas nas suas ilhas de bem-viver – corroeram os ideais liberais da época.

Reagan teria sabido captar o novo momento e catalisou a formação da cultura neoliberal (o termo é escasso no livro e aqui remete à direita): ataques permanentes ao governo, não a quem o empunhava e ao que fazia, mas ao governo em si mesmo, “eu-daniel-blake”-um-filme-para-ver-como-dever-civico/ e prometeu ao norte-americano a sociedade aberta aos sonhos individuais, a realização das potencialidades do indivíduo sem as constrições do Estado e do coletivo. Solidariedade e deveres não tinham espaço na nova ideologia de direita.

Até aí Lilla não estaria trazendo nada de novo ou tão instigante como aquilo que ele passa em seguida a analisar e criticar, e é sobre este ponto que o leitor deve empenhar também sua crítica, pois se o autor estiver certo, uma profunda transformação dos liberais norte-americanos, e de boa parte da esquerda entre nós, é exigida.

Segundo Lilla, a partir dos anos 1960 os liberais migraram para as universidades e fortaleceram a cultura do isolamento, do individualismo. Ele reconhece a importância dos movimentos pelos direitos civis, das mulheres e dos gays (o autor usa às vezes apenas gay, às vezes termos mais amplos), e entende que atualmente a sociedade norte-americana é muito mais tolerante que há 50 anos, o que é inegavelmente bom. Contudo, ele aponta duas questões fundamentais. A primeira consiste no fato de que a luta pelos direitos civis, embora beneficiasse um estrato social claramente definido por uma identidade, os negros, foi travada na seara estrita da cidadania. O argumento dos ativistas defendia cidadania para todos, igualdade. Ao tempo que remontava às bases fundacionais da sociedade política norte-americana, trazia aliados de outros grupos para a causa. A segunda refere-se à transformação desses movimentos sociais em movimentos identitários, e neles reside o problema que Lilla combate.

Os movimentos identitários, conforme se viu a partir dos anos 1980, foram a contra-face do reaganismo, não uma oposição ou força contrária. Nos movimentos identitários as pessoas reunem-se apenas entre iguais, exigem a demarcação das diferenças, e estruturam o debate público em termos de categorias morais de pertencimento. O resultado é o reforço do hiperindividualismo que a direita também alimentava, a fragmentação dos movimentos progressistas e a desvalorização do debate racional. O romantismo invade a política. Os ativistas dos movimentos identitários, segundo Lilla, veem a arena pública como um local de extravasamento de individualidades e assim pretendem moldar a coletividade à sua imagem; numa consequência algo paradoxal, diferenças passam a ser moralmente julgadas, classificadas e a conferir ou não legitimidade nos debates. Um exemplo interessantíssimo trazido pelo autor refere-se aos sites dos partidos republicano e democrata. Enquanto os republicanos ostentavam um único grande documento sobre sua visão para os EUA, os democratas tinham mais de uma dezena de documentos diferentes sobre cada grupo identitário que pretendiam atingir, sem uma preocupação de unificação.

Toda a análise culmina na questão do poder e do governo. O autor chama os democratas a atuarem para ganhar eleições, pois apenas empunhando o poder é possível implementar sua agenda de direitos e transformação. Segundo Lilla, movimentos sociais são reações, importantes, mas apenas uma política de resistência não constrói futuro. É preciso governar, e para isso vencer eleições. Vencer as eleições, todas elas – em especial as estaduais e locais ­–, deve ser o objetivo para realmente implementar uma agenda progressista. E vencer eleições exige acolher o diferente, compreendê-lo, aproximar-se, entender que há distância entre os participantes, coalizões necessárias; não se deve atuar na política buscando purismo ou conversão de mentes e corações ao credo, pois assim não se alcança resultados. E o discurso para agregar diferentes, para superar as divisões da sociedade hiperindividualizada tanto do neoliberalismo quanto dos movimentos identitários exige a revalorização do conceito de cidadania.

Cidadania é um status de igualdade política. Todas as diferenças entre as pessoas podem permanecer, mas cidadania iguala politicamente os indivíduos e pode colocá-los dentro do mesmo projeto, dos mesmos grandes objetivos. Cidadania é a amarra que une bem-comum e solidariedade.

Como um ensaio bastante instigante, a obra não termina com fórmulas ou estratégias de ação. Ela se posta no limiar deste novo mundo em que a direita, de uma forma ou de outra, busca passar uma imagem unificada de sociedade, de conjunto, monopolizando indevidamente o termo pátria. Lilla conclama à auto-crítica e à ação, fases necessárias do resgate dos valores progressistas.

PS: o autor não toca na questão da internet, das redes sociais, e seu papel na criação, consolidação e expansão das posturas políticas hiperindividualizadas e auto-expressivas. Tem-se aí um elemento fundamental da discussão. Embora Lilla não tenha avançado nesse campo, as sementes que lança para a discussão geral podem muito bem germinar aqui.

 

* Professor do Mestrado Profissional em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados. Economista e doutor em Ciência Política.

 

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