O que o povo quer?

Sílvio Ribas*

Analistas se surpreendem, vez por outra, com fenômenos da política no Brasil, pródiga em surrealismos. A atual popularidade recorde de Bolsonaro alcançada após toda sorte de ruídos, incluindo efeitos trágicos da covid-19, é desses eventos que derrubam pareceres bem sustentados. Enquanto os autores dessas análises se refazem do mais novo susto, aponto aqui fatos que ainda explicam muita coisa.

Imersa na mais brutal desigualdade do mundo, a maioria do povo anseia por vida digna, sem se importar com a ideologia de quem vai escolher para atender a sua demanda. Seja votando por continuidade ou por mudança, o eleitor menos favorecido se orienta pelo desejo de acessar mais bens e serviços, vindos eles das mãos estatais ou da livre iniciativa.

Assim, posições divergentes do votante de uma eleição para outra são só variações circunstanciais sobre o mesmo tema. É o império da necessidade a forjar o amplo pragmatismo político no país, que não é exclusividade de candidatos que ajustam discursos às tendências. O próprio cidadão torna-se pragmático, fazendo antes de chegar ao local de votação um breve cálculo de perdas e ganhos potenciais.

O embate entre urgências por atender a sofreguidão das massas e ajustar o peso do Estado sobre atividades que pagam a conta sempre compôs o cenário da política no país. Os últimos anos agregaram um fator extra: o barulho das redes sociais contra a corrupção sistêmica e os desmandos que levaram ao colapso estatal, arrastando junto a economia e velhos caciques.

Contudo, essa importante inflexão não muda a tendência de os governos se escorarem no temporário conforto econômico geral. Explosões de consumo do Plano Cruzado (1986) e da farra cambial (1995-2001) renderam, respectivamente, episódica popularidade recorde a Sarney e duas folgadas eleições a FHC. Lula, por seu turno, superou escândalos e saiu do poder com aprovação de 80% graças à socialização de parte dos US$ 100 bilhões que o país lucrou durante o boom das commodities (2000-2014).

Até agora, bonanças impulsionaram projetos partidários enquanto a dívida pública disparava e reformas estruturantes ficavam suspensas até que uma forte crise desnudasse o governante irresponsável e desengavetasse agendas. Criou-se, pois, com a saudável rotina de eleições, o vício de apropriação da miragem econômica por eleitos sortudos até que a necessidade de correção de rumo mais adiante colaborasse com a vitória dos seus rivais.

Com pleitos de dois em dois anos no país e mandatos de apenas quatro anos, os presidentes do Brasil acabam se valendo apenas de alívios momentâneos na pobreza e se orientando pelo mantra “é a economia, estúpido”, criado em 1992 por James Carville, estrategista do presidente Bill Clinton, vinculando resultados da eleição às condições econômicas.

Essa armadilha do imediatismo tem raízes profundas e apenas catástrofes econômicas são capazes de expor esqueletos do armário. Nessa toada, a prosperidade duradoura para os brasileiros é sempre adiada para um futuro incerto. O ciclo vicioso de remendos, tentações populistas e postergações só será quebrado quando os privilégios não mais conspirarem contra os direitos e a política se pautar prioritariamente pela visão de longo prazo.

Estadistas pensarem na geração seguinte e não na eleição seguinte. O Brasil precisa, pois, de um comandante que pactue o desmonte dos arranjos que se nutrem do status quo e que conduza o compartilhamento de sacrifícios para superar de vez persistentes mazelas. Bolsonaro prometeu levar adiante tal missão e ainda tem tempo de cumpri-la. Joga contra ele, contudo, as pressões e os ardores do malfadado estatuto da reeleição.

As urnas expressam fidedignamente a vontade do povo, cuja maioria pensa com o bolso, com a falta de moradia, com o valor da passagem, com o sinal grátis de Wi-Fi e com a perspectiva de ter trabalho ou renda. Bolsonaro está certo em não ignorar isso e investir no (re)conforto econômico do povo, ainda mais em meio à terrível pandemia. Mas ele também precisa enxergar além dos dividendos eleitorais para ousar e avançar naquilo que a História lhe confiou: construir um legado bem maior que oito anos no Planalto.

* Sílvio Ribas é jornalista, escritor e estrategista político

 

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