O presidente Cavalo de Tróia

David Emanuel de Souza Coelho *

Em continuidade ao meu último texto, no qual analisei o caráter performático e vazio de Jair Bolsonaro, analiso agora quais programas embarcaram em sua candidatura e conseguiram usar de um atalho para chegar ao poder.

Não tendo um conteúdo programático a conduzi-lo, sendo apenas vendedor de si mesmo, Bolsonaro precisava ocupar seu vazio com programas de terceiros, programas capazes de – ao menos para o futuro presidente – garantir base política e social para seu governo. E aqui entram os grupos programáticos que bancaram Bolsonaro.

Tais grupos se assemelham aos guerreiros gregos às portas de Tróia. A diferença é que sempre lutaram separados, tentando entrar na cidadela. Tróia, no caso é o Estado brasileiro e tais grupos representam forças sociais do país que nunca conseguiram – e certamente, nunca conseguiriam – entrar por conta própria no coração do poder nacional. Bolsonaro é o cavalo de madeira, pura aparência falsa – pois uma imitação – e completamente vazio em seu interior.

Bolsonaro precisava de programas e tais grupos precisavam de elegibilidade, então “juntou-se a fome com a vontade de comer”.

São quatro os grupos programáticos que embarcaram no presidente cavalo de Tróia:

1) Os fundamentalistas religiosos, oriundos sobretudo das igrejas evangélicas. Certamente, este grupo é o mais antigo a estar junto com Bolsonaro. Na verdade, ao que parece, a relação entre o futuro presidente e os fundamentalistas surgiu muito mais enquanto uma aliança, mas acabou evoluindo para uma situação de acoplagem troiana, onde destacam-se os nomes de Magno Malta, antigo aliado de Bolsonaro, e Silas Malafaia, este mais pragmático e próximo do embarque troiano analisado por mim. Além das pautas moralistas, tal grupo também visa interesses econômicos na sociedade e no Estado, seja ocupando cargos chaves, seja ampliando o escopo de atuação de suas organizações econômicas: TVs, rádios, “clínicas”, empresas de “entretenimento”, etc.

2) Os militares revanchistas, que não aceitam a visão predominante sobre a ditadura militar e, de modo mais fundamental, não aceitam a comissão da verdade e os processos de investigação da verdade histórica sobre o período militar. Apesar de sempre ter tido por base os militares, é bom destacar o alienamento de Bolsonaro frente ao alto escalão do exército, alienamento que só mudou, justamente, com o ressentimento de setores antigos do militarismo tupiniquim com as investigações em torno da ditadura. Bolsonaro surgiu como um barulhento defensor do regime, tendo, inclusive, como se sabe, homenageado a memória do torturador Brilhante Ustra em plenário. Embora vocalizem um reminiscente projeto desenvolvimentista, me parece que tal visão é muito minoritária. Na verdade, parecem mais interessados em questões corporativistas e de projeção pessoal.

3) Os neoliberais rapineiros, ávidos por radicalizar a pilhagem do trabalhador e do erário brasileiro. Capitaneados por Paulo Guedes, um inexpressivo economista da escola de Chicago, tais neoliberais representam a burguesia financista. Contam com o apoio desconfiado da mídia hegemônica – pois Paulo Guedes promete operar o tão sonhado desmonte do Estado brasileiro, transformando cada direito social da população em um produto para ser vendido no mercado. O santo graal, neste caso, sem dúvida é a Previdência, cuja “reforma” poderá, ao mesmo tempo, liberar bilionários créditos estatais para serem transferidos à burguesia financista via títulos públicos e ainda gerar um rentoso mercado de previdência privada, provendo especuladores com rios de dinheiro para serem queimados em bolsas ao redor do mundo.

4) Os tenentistas togados, grupo de promotores e juízes que conduziram a Operação Lava Jato e que vocalizam uma visão de reforma moral do país mediante o combate à corrupção. Sérgio Moro é o membro mais conhecido e popular deste grupo. Sua ida para o governo tem oficialmente a justificativa de realizar o projeto reformista destes tenentistas, no entanto, acredito que a real intenção seja mais próxima as dos militares, ou seja, Moro busca no governo defender posições corporativistas e de projeção pessoal para si mesmo.

Os quatro grupos não possuem, até onde posso ver, interesses em comum. São, a rigor, agrupamentos político-sociais diferentes, com interesses econômicos e ideológicos particulares. O que os une é apenas a possibilidade de acessarem o poder presidencial, coisa que, individualmente, muito dificilmente conseguiriam.

De todos, com certeza os fundamentalistas são os mais fracos do ponto de vista do poder de barganha político, pois, apesar de contarem com relativo apoio social, não possuem entrada no topo do establishment nacional, sendo até mesmo abertamente hostilizados por muitos dali. O fundamentalismo religioso não é um programa bancado pela camada superior da burguesia nacional, pelas forças armadas, pelo judiciário, pela mídia ou muito menos pelo mundo acadêmico. Embora pentecostais e neopentecostais tenham se alastrado pela classe média brasileira, ainda estão longe de terem verdadeiro poder de influência nos setores chaves da plutocracia nacional, ainda dominada pelo mais que secular catolicismo pragmático, herdado da cultura portuguesa. Até por isso, já sentindo sua própria fraqueza, os fundamentalistas tentam se aproximar de outros grupos, como os militares e, sobretudo, dos neoliberais, como indica o recente manifesto lançado pela bancada da bíblia do congresso nacional.

O mais forte é o grupo neoliberal. Não tanto por causa de Paulo Guedes – um economista nulo – mas pelo peso político do grande capital financista e a pressão por aprovar as “reformas”. O núcleo dominante do novo governo certamente sairá deste grupo. No entanto, a falta de tato político e a inexperiência de Paulo Guedes poderão ser um problema grave às articulações políticas para sustentar o projeto de radicalização neoliberal. O fato de Bolsonaro não contar com um partido sólido, e muito menos com nomes de peso dentro da plutocracia política, poderá ser um dificultador da vida do governo.

Um choque pode se instalar entre militares e tenentistas, de um lado, e neoliberais de outro. O nível e amplitude das reformas propostas por Guedes e sua turma podem deixar insatisfeitos os dois primeiros grupos.

Para além de questões corporativistas de carreira, há elementos de investimento no próprio poderio social do setor militar e do setor judicial. Pois não se trata apenas de preservar os nababescos salários de ambos os setores, mas também de preservar – ou ampliar – a própria estrutura material destes agrupamentos, visando até mesmo o futuro fortalecimento de sua influência no seio da sociedade.

No entanto, o alcance de uma reforma neoliberal radicalizada poderia ser desastroso para a saúde econômica do Estado, provocando uma crise de subinvestimento no exército e no judiciário. Daí um possível choque com o setor neoliberal.

Contudo, por óbvio, um compromisso poderá ser traçado entre os grupos, sustando uma guerra total no interior do governo.

O grupo fundamentalista possui de trunfo seus votos no congresso e a influência popular. No contexto onde é necessária a aprovação das “reformas”, os demais grupos podem ser coagidos a fornecer apoio às pautas fundamentalistas em troca do capital político destes em troca de votos e da defesa das “reformas” entre a população evangélica.

Dito de modo geral, acredito que cada grupo se portará dentro do governo Bolsonaro de modo isolado, apenas se relacionando mutualmente quando for para salvaguardar interesses ou negociar apoios. Na prática, será como se existissem quatro mini governos operando de modo mais ou menos independente. Bolsonaro não terá comando de nada, figurando apenas enquanto persona do regime, cumprindo o papel de entreter seus eleitores enquanto o trabalho sujo é feito nos bastidores.

O centro nervoso do governo será a realização das “reformas”. Na verdade, ouso até a dizer que o governo Bolsonaro só existirá para levar a cabo estas tais “reformas”. Se fracassar, só sobreviverá por milagre. Se vencer, também só sobreviverá por milagre. Pois, na verdade, ganhando ou vencendo, terá se tornado obsoleto e a tendência será sua substituição por um governo efetivamente programático e orgânico. Neste caso, os quatro grupos poderiam entrar em luta aberta pelos espólios do poder, tentando emplacar um possível sucessor.

Falta alguém neste cavalo?

A classe trabalhadora não foi convidada para participar. Até porque ela é o butim a ser saqueado pelos quatro grupos.

Até o momento, a classe trabalhadora se satisfaz em fruir a persona do novo presidente. Como se ele fosse um pop star, há uma admiração de curiosidade frente a Bolsonaro. Contudo, a morte trágica de John Lennon já mostrou o quanto um fã frustrado pode virar um raivoso inimigo.

No entanto, a pergunta desta seção não remete à classe trabalhadora e sim à classe política. Quando analisamos os quatro grupos embarcados no cavalo de Tróia Bolsonaro não vemos ali os tradicionais grupos fisiologistas do congresso e da plutocracia nacional. Não estão embarcados o MDB, o PP, o DEM, o PTB, o PR, etc. Como irá Bolsonaro se relacionar com eles?

Representante de si mesmo, o presidente eleito jamais se importou em participar de articulações políticas no congresso. Esteve sempre isolado dos grandes debates infra parlamentares. Chegou mesmo ao ridículo de ter sido o candidato menos votado para presidente da câmara em 2017, mostrando toda sua nulidade naquele espaço.

O discurso neoliberal e moralista do governo Bolsonaro poderá ser pura marquetagem, mas os reclames materiais do mundo não poderão ser ignorados. A fisiologia e o “toma lá, dá cá” não deixarão de existir porque agora é uma “nova Era”, neoliberal e pura.

O enxugamento da máquina pública por parte do novo presidente, capitaneado pelos neoliberais, e o fechamento da torneira de recursos poderá ser um fator de instabilidade com a plutocracia política. Pior ainda no quadro em que ela não foi chamada para embarcar no cavalo e colocar suas cartas na mesa.

Acreditar em um pretenso atalhamento do sistema político através de pressões diretas da burguesia ou da população em geral é um passo altamente arriscado. Por mais que a pressão popular e do dinheiro tenham considerável força, há complexos e solidificados interesses corporativos cujas ramificações vão desde Brasília até os confins do país e que precisam ser atendidos, sob pena de erosão dos pilares governativos. Bolsonaro não chegou ao poder mediante uma revolução e não tem estatura para enfrentar o titânico poder do sistema político nacional profundo.

Tão pouco parece crível uma ideia de Moro enquanto um chantageador do baixo clero. Não apenas porque não parece ser esse o trabalho a ser desempenhado pelo ex-juiz, mas também pelo potencial de instabilidade política que ações desse tipo poderiam trazer.

Neste caso, só restaria abrir a porteira e recolocar em voga os velhíssimos jeitos de fazer política no Brasil, arriscando a fazer cair por terra o discurso da pureza moral e da austeridade econômica. Como reagirão, diante disso, os tenentistas togados e os neoliberais rapineiros? Aceitarão serem queimados publicamente em seus discursos e práticas ou pressionarão contra?

No fundo, como antes, a questão da disputa em torno do fundo público será o decisivo para garantir o futuro do novo governo. Em época de escassez, de agitação social e de um presidente vazio, é difícil cravar com absoluta certeza o desfecho do processo. Apenas é possível dizer que serão tempos de alta turbulência.

Quando a realidade exigir uma ação embasada e refletida de Bolsonaro, não adiantará fazer gesto de arma com as mãos ou denunciar o pretenso “kit gay”. Se tudo estiver desmoronando e a única resposta possível da liderança do Estado for palhaçadas, o espectador desinteressado poderá até rir da cômica situação, mas os protagonistas só poderão lamentar a sua sorte.

* Bacharel e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde atualmente cursa o doutorado. É colunista do site Naufrago da Utopia, de Celso Lungaretti.

>> Nossa opinião: Bolsonaro é o pior que nos pode acontecer

>> A faxina eleitoral de 2018, por Percival Puggina 

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