O papel que enrolava o pão

Denise Becker*

Antes que este ano caia no horizonte e desapareça, relembrar aquilo que teve significado, nesta crônica de reminiscências é garantir as memórias de uma vida inteira de ganhos, perdas e sonhos.

Falar de sonhos, é lembrar de quando o pai, que foi trabalhador braçal, analfabeto e nem falava corretamente, sonhava em assinar o nome – não queria ser apenas uma digital – queria mesmo ser alguém capaz de assinar o próprio nome.

Era uma noite fria, lenha queimando no fogão, lá estava ele sentado à mesa velha na cozinha de casa, rabiscando coisas sem sentido, com um toco de lápis, no papel amassado de enrolar o pão, que ele mesmo trazia do bolicho para casa todo fim de tarde.

- Pai, o que o senhor tá escrevendo nessa folha amassada?

- Eu tenho o sonho de assinar meu nome, minha filha. Um dia eu consigo, porque quando a gente quer muito alguma coisa, a gente dá um jeito.

Em 1977, uma guria ainda não sabia escrever corretamente, mas eu precisava ajudar o meu pai. Mal sabia ele, que estava plantando em mim o desejo de nunca desistir, e que não existe sonho grande ou sonho pequeno. São os nossos sonhos e, o tamanho, está no significado que eles representam para nós.

Peguei a folha de papel amassada de enrolar o pão, corri até meu irmão, que era mais velho e pedi que pontilhasse o meu nome e o nome do meu pai no papel, para que eu e ele pudéssemos passar o lápis por cima das letras.

Parti a folha ao meio, dei de mão em outro lápis e fizemos uma aposta para ver quem terminava primeiro. Claro! Eu terminei primeiro, mas pude observar o meu pai, com o vidro daqueles olhos verdes, marejados, olhando o nome se formando, uma letra após a outra. É como se ele só existisse a partir daquele momento.

Foi assim que ajudei o meu pai. E foi assim que ele plantou em mim uma das memórias mais significativas que trago comigo.

Ao término do tracejo, juntamos as partes da folha de papel amassada de enrolar o pão e lá estávamos, os dois:

- Dorival Becker

- Denise Becker.

Para o meu pai, representou a sua existência, a confirmação do ser e sentir que ele era realmente um homem capaz de assinar o próprio nome e aquilo mudou sua vida.

Para mim, a grande lição, de que o impossível não existe, ele só tarda um pouco mais.

Antes que 2018 caia no horizonte e desapareça, é preciso agradecer pelo dom da vida. Porque sempre haverá esperança enquanto houver vida. Meu pai não está mais aqui, mas deixou em mim as marcas da persistência, da perseverança e dos sonhos.

Encerro este ciclo assinando meu nome como jornalista – é como se eu não existisse antes disso. Sou capaz de assinar o meu nome, nome que herdei do meu pai.

A ti, meu velho querido, de joelhos no chão eu te ofereço tudo que sou e uma coisa eu te garanto, sempre me orgulhei de ti, pois contigo eu aprendi, que “quando a gente quer muito alguma coisa, a gente dá um jeito e consegue.”

Feliz Ano! E que lhes seja sempre Novo e carregado de significados.

*Denise Becker é  estudante de jornalismo da Universidade Positivo em Curitiba

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