O centro político é uma miragem

Marcelo Miterhof *

Tem sido quase divertido acompanhar o esforço da grande imprensa em criar um centro político incluindo figuras, como Sergio Moro, Luciano Huck e João Dória, que explicitamente apoiaram o atual presidente de extrema direita.

Essa geometria muito particular tem razão de ser. Para entender, vale antes buscar caracterizar as noções políticas de esquerda e direita.

O filósofo italiano Noberto Bobbio estabeleceu essa divisão na disputa em torno da distribuição de renda. A esquerda deseja interferir nela para torná-la mais igualitária. A direita a vê como um dado da natureza, um padrão relativamente imutável, dado pelas diferenças nas qualificações humanas. Interferir nisso gera perdas e deve ser evitado, bastando garantir a igualdade de oportunidades.

Essa é uma boa síntese. Outra forma de conceituar é olhar para a ênfase que cada corrente confere a dois tipos de interação humana: competição e cooperação. A direita tem mais apreço pela primeira e a esquerda, pela segunda.

É por isso que a direita defende os mecanismos de mercado. O mercado é a forma de organização coletiva humana que opera primordialmente pela concorrência. A esquerda prefere o estado, organização coletiva por excelência cooperativa.

É claro que há uma oposição entre competição e cooperação, mas elas não são dicotômicas, isto é, para uma ocorrer não é preciso excluir a outra. Pelo contrário, todas as relações humanas contêm em alguma dose ambos os tipos de interação.

Espera-se que um casamento seja cooperativo, mas há elementos de competição: o amor dos filhos, o sucesso profissional etc. Da mesma maneira, é competitiva a relação entre dois comerciantes do mesmo ramo, na mesma rua, mas o conceito de economia de aglomeração chama a atenção para um elemento de cooperação que há nisso. Por exemplo, há quem não saiba o nome de uma loja da rua Teresa em Petrópolis, mas vai lá porque sabe que é um polo de venda de roupas.

Além de sempre estarem presentes nas relações humanas, cada forma de interação tem impactos virtuosos na outra. A competição promove eficiência. Mais eficiência facilita criar/manter mecanismos cooperativos visando à igualdade.

A máxima de Bernard Mandeville “vícios privados, benefícios públicos” - i.e., “faça sem culpa o que for melhor pra si mesmo, pois ao cabo será melhor para todos” – é tributária dessa constatação. A direita adora tal máxima porque ela supõe de um jeito extremo que a competição suplantaria a necessidade de cooperação.

Como notado, na prática isso nunca ocorre. A cooperação atua pela sobrevivência mútua. Sem ela, haveria o que Thomas Hobbes chamou de “estado de natureza”, situação hipotética em que os humanos fazem o querem, se impondo ao outro pela força (competição física). Há máxima liberdade individual, mas também máxima insegurança. A visa sem cooperação não seria boa para ninguém.

Além disso, a importância da cooperação para a competição pode ser vista na divisão de riscos da inovação. Nas etapas iniciais, quando incertezas e chances de perda são maiores, em geral as atividades inovadoras têm seus riscos compartilhados coletivamente através de subvenção pública (compras estatais, garantias, pesquisa nas universidades etc). Se um país não promove essa forma de cooperação tende a inovar pouco e, logo, ser menos competitivo.

Essa maneira de conceituar direita e esquerda, que foca nas ênfases nos processos interativos, permite lidar melhor com a diversidade das disputas políticas.

O lado na questão da desigualdade conta muito, mas também a posição quanto a direitos e costumes. Combater o machismo, o racismo e o sexismo (a pauta identitária) é ser mais cooperativo. A preocupação sem maiores mediações com a segurança ou o direito de andar armado é defender a uma competição algo feroz.

O estado é mais relevante para a esquerda, mas ela pode ao menos em parte ser a favor da privatização de um serviço público se isso trouxer mais eficiência e investimentos visando sua universalização. A direita defende o mercado, mas até o atual ministro da Economia, um ultraliberal de extrema direita, teve que usar o estado para minimamente socorrer pessoas e empresas atingidas pela pandemia.

 

Como cooperação e competição são formas opostas de interação, mas que uma produz efeitos benéficos para o objetivo central da outra (sobrevivência e eficiência), as relações entre esquerda e direita ficam menos dicotômicas. Há mais nuances. De todo modo, os balanços virtuosos estão de alguma forma ao centro.

Não há um balanço único ou certeiro entre incentivos e políticas que promovem respectivamente a cooperação e a competição. Uma sociedade pode ser mais competitiva do que outra. Num país, o balanço tende a mudar. Numa democracia, as disputas políticas tendem a produzir um movimento pendular, ainda que possa ter uma tendência (não necessariamente o pêndulo volta aos mesmos pontos).

O centro é uma miragem porque ele existe como referência, mas ideologicamente não é bem definido. Ele é resultado da disputa política e se estabelece numa faixa de balanços possíveis. Os atores da disputa estão ao longo do espectro político e tendem a se concentrar à centro-esquerda e à centro-direita, mas não há um ponto médio determinado, que seja indiscutivelmente atribuível a um grupo específico.

O centro ainda pode ser o que no Brasil se conhece por “centrão”, um conjunto de partidos/políticos pragmáticos e/ou fisiológicos que oferece governabilidade ao grupo que está no poder, exercendo pouco filtro ideológico. Mas o “centrão” não é um centro ideológico entre esquerda e direita e, sim, um operador da política.

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Num país extremamente desigual, a esquerda nunca deixa de ser uma força política de grande relevância, em especial sob democracia. Por isso, no Brasil a esquerda sempre gosta de ser chamada de esquerda. Mas para chegar e se manter no poder ela luta pelo centro. O sucesso que levou o PT a ganhar quatro eleições presidenciais seguidas foi tê-lo tomado com um balanço entre políticas de combate à desigualdade e de boa convivência com o dito “mercado”, além de ter aceitado iniciativas conservadoras, como as leis da ficha limpa e antiterror, e até ter oferecido indicações de juízes para o STF que não comungam de suas visões.

Esse sucesso fez o PSDB, nas últimas décadas o principal partido de centro-direita, radicalizar o discurso, passando a criticar duramente pautas que tiveram espaço quando ele mesmo governou o país. Daí, vieram os chiliques contra o “kit gay”, as cotas raciais etc. E a criminalização do PT, da esquerda e, claro, da política.

Só que tal tipo de atuação acabou abrindo espaço para a extrema direita. Porém a aposta é que esse domínio será bem passageiro, dado o seu extremismo.

Com o PT sacado de lá, a direita vê que a hora é de voltar a disputar o centro. Porém, sendo uma miragem, o “centro” não precisa estar no meio do espectro ideológico. Ele é um esforço narrativo que visa apenas arrogar para si o lugar para onde a disputa política costuma convergir.

Até Moro – artífice de iniciativas como o excludente de ilicitude, que amplia a licença para matar de agentes de segurança, e político que inclui no seu grupo o vice-presidente “gorila” (apelido que no século 20 a esquerda usava para militares reacionários) - faz parte desse “centro” torto.

O centro político é importante demais para ficar nas mãos dos ditos “centristas”.

 

*Marcelo Miterhof é economista do BNDES. O artigo não reflete necessariamente a opinião do banco. Email: marcelo.miterhof@gmail.com.

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