Um ano após vencer as eleições, a desconfiança continua a triunfar entre nós

André Sathler Guimarães  e Malena Rehbein Rodrigues *

Há cerca de um ano, alertávamos, no Congresso em Foco, para o fato de que a desconfiança havia sido a grande vencedora das eleições . De maneira geral, não costumamos ver as pessoas revisitando prognósticos antigos, mas a força com que ele aconteceu merece alguma reflexão. Naquele momento, vislumbramos três tendências, que, infelizmente, vêm mostrando-se verdadeiras: o espraiamento generalizado da desconfiança pela sociedade; o acirramento dos antagonismos políticos; e o aumento da descrença em relação ao Estado e ao sistema político de uma forma geral. Situação não menos triste que preocupante.

A proliferação da desconfiança pela sociedade manifesta-se de diversas formas. Consumidores adiam suas compras. Empresários postergam ou retiram investimentos. Emprestadores aumentam suas taxas de juros. As pessoas deixam de acreditar no valor da moeda e na capacidade do governo de proteger seu  poder de compra. Políticos recebem as piores avaliações em rankings de confiança em determinados profissionais. Há uma exacerbação do individualismo.

Pois, desconfiar em sociedade é também desconfiar da sociedade. Se as regras (instituições) não valem ou valem mais para alguns do que para outros, o comportamento racional-otimizador é me valer das regras em meu próprio benefício. Em um país já tradicionalmente associado à cultura do free rider (aquele que obtém vantagens pessoais aproveitando-se de benefícios coletivos, ou seja, que dá o jeitinho), essa exacerbação da desconfiança produz efeitos desastrosos. Sem confiança no maior ente social – o Estado – passa a valer a regra do cada um por si.

A descrença em relação à moeda, mais uma vez (ela também estava no prognóstico),  é um bom exemplo. A moeda é um bem coletivo, uma instituição, que permite que as pessoas tenham um referencial de valor comum, o que, por sua vez, facilita o processo da troca e dá fluidez à economia. Quando a sociedade passa a desacreditar da moeda, abre-se espaço para sua desvalorização, muitas vezes sem contrapartida no mundo da economia real. Neste momento, os fundamentos cambiais (reservas internacionais, redução do déficit em transações correntes,  fluxo cambial positivo, cobertura do mercado com mecanismos de hedge) não se constituem motivo para o pânico verificado e a explosão do valor da moeda americana. Ou seja, não há razão imediata para tamanha alta do dólar. Diante de tal quadro, vencem os especuladores, que são, na verdade, lobos que se alimentam de incertezas. Que crescem com a desconfiança no maior ente social... E, então, vai-se em busca de lucro no que estiver mais fora do agora ente traidor: dólar, investimentos fora do país, etc.

O acirramento dos antagonismos políticos permanece como tendência, levando a política a manter-se no seu nível mais rasteiro, que é o de desqualificar, a priori, o oponente e o processo político em qualquer situação ou instância. A alta política, do convencimento pela persuasão, do uso da argumentação e da retórica, requer, no mínimo, que se confie no adversário. Do contrário, só me resta enxergar no meu adversário político um inimigo a ser destruído.

É nesse contexto que prospera a descrença em relação ao Estado e ao sistema político de uma forma geral. Os políticos tornam-se bodes expiatórios e devem ser sacrificados, em uma perspectiva redentora veterotestamentária. Falar mal de políticos rende boas piadas e pode realmente servir como elemento catártico, contudo, não traz qualquer perspectiva de solução. Na verdade, as pessoas têm tendido a reproduzir os antagonismos desvairados da esfera política profissional, com a mesma lógica. A política doente contaminando o todo social.

Os que condenam os políticos ao holocausto não respondem à questão essencial: como seria uma sociedade sem políticos? Talvez se esqueçam que a resposta mais óbvia seja a da ditadura, com o retorno da concentração da soberania em uma ou pouquíssimas pessoas. Na ditadura, elimina-se a incerteza pela força . E aí voltamos a Hobbes, para quem devíamos obediência ao soberano como representante simplesmente por ele nos garantir proteção contra a morte violenta.

Nas democracias, gerenciam-se as incertezas pelo confronto de opiniões, reduzindo-se a desconfiança pela certeza da validade das regras do jogo – a legitimidade. Não é o fim dos grandes antagonismos de Carl Schmitt, ou das paixões que movem a política, como diz Chantal Mouffe. Antagonismos dos mais profundos continuam sendo necessários aos freios e contrapesos naturais da saudável política. Desde que sejam exercidos dentro da cooperação tácita da legitimidade dos processos, que vem da confiança...

O declínio da autoridade do Estado é inexoravelmente acompanhado pela insatisfação em massa com o sistema político e o aumento da tensão social. Descrentes dos mecanismos institucionalizados de inserção no mundo político – eleições, partidos políticos – as pessoas buscam soluções privadas e formas diretas de engajamento, como as manifestações de massa, que já apareceram neste ano e devem se avolumar nos próximos meses Em tempos de anomia desse tipo, têm vantagem os salvadores da pátria da vez, que oferecem dinheiro, segurança e liberdade, para só depois comunicarem que todos estão, na verdade, condenados à escravidão.

* André Sathler Guimarães é doutor em Filosofia e coordenador do mestrado profissional em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados. Malena Rehbein Rodrigues é doutora em Ciência Política e docente do mestrado profissional em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados.

 

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