CLT é vítima da falácia de que direitos trabalhistas estão associados ao fascismo, escreve Eduardo Aires

Eduardo Aires *

Na era da pós-verdade, mais importante que os fatos são as narrativas construídas com intuito de alcançar as emoções demolindo as defesas erguidas a muito custo pelo bom senso individual. No livro Rápido e devagar, duas formas de pensar, o autor discorre sobre os mecanismos que o nosso cérebro utiliza para chegar a conclusões e tomar decisões. De forma simplista, estamos sempre “tentando economizar” e, se algo segue um roteiro que já experimentamos e validamos em algum momento de nossas vidas, passa a incorporar nosso sistema de crenças como verdadeira, sem maiores ressalvas.

É uma sequência que faz muito sentido e nos livra de muitos problemas. Se todas as vezes que eu precisar acionar o freio do carro eu precisar refletir profundamente sobre os mecanismos envolvidos no ato de parar o carro, nas consequências de não frear etc, não conseguiria me precaver de acidentes. Por isso, ao pressentir que posso me envolver em um acidente, automaticamente, freio o carro e ponto. Por outro lado, quem já fez uma prova de vestibular ou prestou um concurso público sabe o quanto é cansativo “fisicamente” ficar parado pensando.

Tendo isso em mente, alguns profissionais criam narrativas que não agridem nossas defesas e plantam meias verdades, colhendo mentiras completas que servem aos seus interesses inconfessáveis. Vários são os exemplos e, nas últimas eleições, quem acompanhou de perto pôde ver brotar vários exemplos. Sem distinção de espectro ideológico, as fake news se multiplicaram e deram o tom da campanha.

A Consolidação das Lei Trabalhistas (CLT) é uma das vítimas dessa falácia e por consequência os sindicatos acabam recebendo muita dessa carga negativa. Falar que a CLT os sindicatos tiveram inspirações fascistas é desconhecer a história. Em primeiro lugar, por que o fascismo em seu nascedouro italiano rejeitava todas as formas de internacionalismos, inclusive o sindical. Tanto que as entidades preocupadas com as condições de trabalho foram estranguladas em um processo muito parecido com o que está ocorrendo agora. O fascismo é um regime que nega em essência a luta de classes e por isso rejeita a existência de uma entidade que “defenda” o trabalhador na relação com patrão.

A carta de lavoro como a nossa CLT tem as raízes na Rerum Novarum: sobre a condição dos operários (em português, Das Coisas Novas), encíclica escrita pelo Papa Leão XIII em 15 de maio de 1891.

Na Itália, como no Brasil, a condição de hipossuficiência do trabalhador – que, em alguns casos, não tinha condições de subsistir – era um tema muito caro à igreja católica. Tanto lá, como aqui, os governos precisavam manter boas relações com a igreja para se legitimarem e perdurarem. Afinal, os dois países são de tradição e maioria católica. Não foi questão ideológica própria do fascismo, pelo contrário, foi uma das estratégias utilizadas pelo partido fascista fazer essa concessão para se manter e legitimar-se no poder, diminuindo a resistência da mais poderosa instituição do período.

O fascismo é um regime de matriz ultranacionalista, exclusivista e excludente, que se posiciona fortemente contra internacionalismo (globalismo, sindicalismo, anarquismo), mas que faz concessões por necessidade. Esse foi o caso da aproximação de Mussolini com e a igreja católica. Mas para muitos, no atual contexto, isso pouco importa, já que gosto do Paulo Guedes e se ele falou que é fascista, está falado...

* Presidente da Federação Nacional de Carreiras de Gestão de Políticas Públicas (Fenagesp) e do Sindicato dos Gestores Governamentais de Goiás (SindGestor), é secretário-executivo da CSB-GO.

 

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