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Populismo sem povo I: espiral populista, eleições e educação

O parágrafo único do artigo 1º da Constituição Federal consagra: “Todo o poder emana do povo”. Não é bem assim. Há certamente outros fatores complicadores da decisão política, mas em um país em que a assimetria entre Estado e sociedade é tão grande, governantes não têm pudor em fortalecer oportunisticamente suas bases clientelistas, mantendo cativa a população mais vulnerável. O povo, do qual o poder deveria emanar, figura como mero formalizador dessa concentração.

A experiência tem demonstrado que políticos brasileiros em posições de poder – portanto, os mais bem-sucedidos e que tendem a virar “modelos” de atuação entre seus pares – não pensam duas vezes antes de capturar capital político com discursos falaciosos que comprometem a coesão social ou o equilíbrio das contas públicas a médio prazo. Geralmente, produzem as duas coisas.

Como o cobertor é curto, níveis mínimos de efetividade das políticas públicas e de sustentabilidade fiscal – que garantiriam investimentos em políticas sociais e na infraestrutura do país ao longo do tempo –, são desconsiderados em momentos de crise. Nossa agenda política de quatro anos permite que se deixe confortavelmente a bomba estourar nas mãos do próximo governo.

No entanto, o que poderia ser uma dificuldade apenas momentânea vai se tornando crônica, principalmente nos casos de reeleição. A espiral populista de deterioração do desenvolvimento se apresenta. Recessão econômica, empobrecimento das famílias e enfraquecimento das instituições geram incerteza e ansiedade na sociedade. As pessoas passam a buscar lideranças fortes como solução imediata, reforçando o populismo. Quase metade dos brasileiros acreditam nisso, em vez de confiar em projetos políticos ou mesmo nas leis.

Piketty aponta causas para a ascensão recente do populismo no mundo. Para ele, o fenômeno é resultante da elitização da representação política. Não é novidade, mas ainda causa algum espanto aos portadores de ideologias “fechadas”, sua incredulidade com “pobres de direita” ou “ricos de esquerda”. O estudo aponta que não importa onde se encontram no espectro ideológico, haverá elites e esquecidos nessa equação, reforçando mutuamente suas posições.

Por causa da nossa extrema desigualdade, diria que, no Brasil, essa classificação também excluiria do centro das decisões nossas classes médias populares. O gráfico abaixo poderia ilustrar a questão da representação política – ou da falta dela –, que afeta essa parcela da população. São cidadãos que, por exemplo, pagam por planos de saúde baratos mas dependem, em parte, do serviço público. Pagam duplamente, e não recebem duas vezes. E não havia quem falasse diretamente para essa massa de interesses difusos não atendidos. Não havia.

Explicar francamente as consequências prováveis de cada ação ou política é difícil. Falar a verdade e dar notícias ruins é difícil. Tomar decisões que contemplem política e materialmente os mais pobres e deseducados, de forma sustentável, retirando-os dessa condição, é difícil. Resistir ao canto da sereia populista é muito difícil. Mas não é fácil liderar. Requer, antes de outras coisas, a fortaleza de ser intelectualmente honesto, em um meio que “premia” o comportamento oposto.

No começo de 2017, dava boas-vindas a 2018. O ano era outro, mas já vivíamos nesse, de agora. A polarização exacerbada dominava a conjuntura, todos os temas e ambientes de discussão. Nessa atmosfera sufocante, a irracionalidade da defesa ideológica cega e do culto personalista começava a mostrar nossa antes velada preferência por salvadores da pátria. A classe média brasileira parou de se envergonhar, e nas suas fronteiras com pobres e ricos, passou a reproduzir esse cansaço de se ver pouco representada.

Bolsonaros e Ciros despontam triunfais como porta-estandartes dessa narrativa. Exuberantes, talvez se lembrem que não são de forma alguma outsiders da política. Indiferente à carência reinante no cenário político nacional, outubro se aproxima com velocidade assustadora. Como será possível comunicar esse fato e acolher nossas camadas mais populares no processo político em tão pouco tempo, sem que ela resolva manifestar seu inconformismo por meio de alguma expressão eleitoral autoritária?

Não haverá solução imediata. Essa é uma missão para alguns anos e que dependerá fortemente de como passarmos a exigir do Estado a melhoria da nossa educação. Não é preciso citar os ganhos advindos de um maior equilíbrio de oportunidades entre ricos e pobres e do aumento da produtividade da nossa economia. A consolidação da nossa democracia depende da qualidade da formação do elemento humano brasileiro.

É por isso que campanhas como a #EducaçãoJá, coordenada pelo Todos pela Educação, são tão necessárias e urgentes. Colocar no lugar de soluções fáceis o planejamento e investimento nas gerações futuras pode nos fazer de fato uma nação que não dependa de “iluminados”. É uma boa ideia, pois eles não vacilam ao disputar o poder a qualquer preço, mesmo que isso nos encerre nas trevas da civilização.

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No artigo da semana que vem, o preconceito das elites e o reforço indesejado do populismo.

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