Vamos tocar a morte e seguir a vida. E parabéns, Palmeiras!

No dia em que o Brasil bateu a marca trágica das cem mil mortes pela covid-19 o presidente Bolsonaro cumprimentou todo sorridente, vestido com uma camisa do Palmeiras, a vitória sobre o Corinthians que garantiu ao time o campeonato paulista. Não disse uma palavra de consolo às milhares de famílias abatidas pela dor da perda de parentes, amigos, vizinhos, conhecidos, namorados, cônjuges... Nenhuma palavra. Nada. Aliás, disse, sim. Ao lado do eterno interino ministro Pazuelo, com aquele ar de pouco caso à vida de que parece se orgulhar, afirmou, burocrática e secamente: "A gente lamenta todas as mortes, já está chegando ao número 100 mil, talvez hoje. Vamos tocar a vida”.

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A falta de empatia de Bolsonaro com o povo que governa é sinal claro de uma doença mental grave de que padece. Ele não sabe o significado de palavras como compaixão, aconchego, consolo, carinho, consternação, dor, tristeza, luto, nada. Nem mesmo no dia em que anunciou que havia testado positivo para o coronavírus teve a decência de aproveitar o momento para pedir à população para tomar os cuidados básicos para se proteger, como fizeram todos os chefes de estado abatidos pela doença, como o Primeiro Ministro do Reino Unido Boris Johnson, que igualmente vinha negando a gravidade da covid mas caiu em si e fez um mea culpa frente às câmeras quando saiu da convalescença. Bolsonaro, não. Nem mesmo quando a primeira-dama anunciou que havia contraído a doença. Nem em momento algum. Em momento algum, repita-se. Pelo contrário: no caminho inverso ao que preceituam todas as organizações científicas de saúde, continuou a dar o péssimo exemplo de aparecer sem máscara em eventos públicos, posar em contato com admiradores para fotos e enaltecer a hidroxicloroquina, um medicamento sabidamente inóquo no combate à doença, como atestam pesquisas realizadas em todo o mundo pelos mais renomados institutos.

Alguns analistas avaliam a frieza glacial de Bolsonaro como parte de sua estratégia de fixação da ideia de governante transparente, que não esconde o que pensa, de olho nas urnas de 2022. E, assim, fala diretamente ao seu eleitorado e ainda angaria novos simpatizantes, como evidenciam as pesquisas que vêm revelando um lento mas seguro crescimento de sua popularidade. É até possível. Mas, a se depreender de sua histriônica burrice, não deve ser parte de estratégia alguma, pois não tem a mínima competência para isso. Simplesmente, tal atitude revela e desmascara um perigoso e assustador traço de caráter incompatível com o que se espera do chefe de governo de um país que se defronta com uma das piores tragédias de sua história.

Há algo de podre no reino mental de Bolsonaro 

Na sua vida de caserna, da qual foi posto pra fora pela porta dos fundos, o capitão   aprendeu rigorosamente tudo o que rezam os manuais de ordem unida, os rituais das solenidades oficiais, as posturas a serem adotadas nas cerimônias militares. Ou seja, aquilo que na conversa de botequim a gente chama de “perfumaria”. Sabe bater continência, sabe marchar, sabe olhar com semblante compenetrado e solene para a bandeira que sobe no mastro ao rufar dos tambores. Foi capaz de quebrar a clausura imposta pelo coronavírus para participar de solenidades de hasteamento ou retirada do pavilhão nacional em frente ao Palácio da Alvorada. Comove-se com clarins e tambores, bate no peito e ostenta  expressão de profundo sentimento de patriotismo ao escutar os hinos oficiais, presta continência à bandeira como se estivesse diante de uma imagem sagrada.

Não lhe passa pela cabeça que bandeira, hino e soldados em ordem unida só fazem sentido se, por trás de seus rituais, estiver presente a imagem de um país com seu povo, seus valores, sua cultura, suas grandezas, sua história. E também suas dúvidas, suas dores, seus sofrimentos. Um país ao qual, como presidente, ele deveria devotar, no mínimo, algum tipo de consideração num instante em que a tragédia provoca o derramamento de rios de sangue por todos os estados, cidades, bairros, vilas, casas, cabanas, ocas ou simples taperas onde cem mil famílias, trânsidas de dor, esperam ouvir de seu presidente um gesto qualquer de conforto e aconchego. Mas ele não desce do seu pedestal de arrogância e insensibilidade. E não desce porque transparecer qualquer tipo de sentimento, para uma personalidade doentia como a dele, poderia passar a imagem de um sinal de fraqueza. Ele não pode deixar que isso aconteça porque sua imagem pública foi construída em sentido contrário. Para ele e seus apoiadores, o ideal de líder é um ser acima de qualquer tipo de sentimento. Um chefe impassível, forte, duro, infenso à adversidade.

Alguém que não se comove com qualquer coisa. Na verdade, não é que Bolsonaro não QUEIRA demonstrar algum sentimento: ele não o faz porque não sente MESMO coisa alguma que o faça descer do pedestal onde as urnas de 2018 o colocaram. Não acha necessário fazer chegar às famílias em luto qualquer gesto que tenha cheiro de sentimento. Isso humilharia seu machismo, sua postura marcial de “soldado de ferro”, infenso à dor e às manifestações autenticamente humanas, que para ele devem soar como efeminadas. E isto ele não aceita de jeito nenhum, até porque iria contrariar a sua notória homofobia.

Os mortos atrapalham demais 

O Brasil dos cem mil mortos não é o país de Bolsonaro. Cada morto representa um estorvo ao seu projeto de reeleição pelo qual trabalha dia sim e outro também. Por ele, sequer as estatísticas seriam divulgadas. Aliás, é vergonhoso ter sido necessário formar um consórcio de imprensa para fornecer informações corretas porque o próprio Ministério da Saúde não oferecia dados confiáveis sobre o andamento da doença.

As falas do capitão lembram muito o grito encolerizado do general Millan-Astray na cerimônia de abertura do ano letivo de 1936 na Universidade de Salamanca, invadida por hordas de franquistas: “Abaixo a inteligência, viva a morte”. Seus apoiadores devem estar celebrando a frase desastrada com que passou ao largo da dor das famílias das vítimas da mais feroz doença dos últimos cem anos e acabou com a fronteira entre civilização e barbárie. E daí? Afinal, são apenas cem mil mortos.

- Vamos tocar a vida.

Mas nem isso soou como sincero. Na verdade, o que sentia no íntimo ao proferir a frase, era bem diferente:

- Vamos tocar a morte e seguir a vida. Parabéns, Palmeeeeeeeiras!

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