Terrorismo digital contra a saúde pública e o cidadão é quem paga a conta

Você já viu esse filme várias vezes: grupo terrorista espalha um vírus letal para desestabilizar uma Nação e obter ganhos políticos. Na ficção, quase sempre “roliudiana” os inimigos já foram russos, chineses, árabes, curdos ou persas e têm como líder dessa conspiração um criminoso patético e maniqueísta capaz de perpetrar o ato às suas expensas.

O Brasil vem assistindo a essa trama desde o início da pandemia da covid-19, quando uma alentada rede de perfis falsos e robôs de internet aliados a uma criatividade mórbida trabalha uma avalanche de mentiras para mutilar as ações em defesa da saúde e da sobrevivência de nosso povo.

As mentiras vão desde a “gripezinha” aos boatos sobre “caixões vazios”. Transitam do “primo do vizinho do amigo” que se curou com cloroquina ao “risco” de se usar máscaras.

A diferença com as tramas de Hollywood, porém, é que os inimigos não vêm de fora, bancam sua campanha maléfica com dinheiro público e não estão no exterior, mas instalados no chamado “Gabinete do Ódio” do Palácio do Planalto.

Um estudo realizado pelo Laboratório Forense Digital do Atlantic Council, em parceria com o Facebook, constatou a participação de um assessor especial do presidente da república, Tércio Arnaud Tomaz, na operação de 73 contas falsas deletadas por aquela rede social.

Os perfis serviam para ataques a adversários políticos do bolsonarismo. Mas, ainda mais grave, eram ferramenta de divulgação de desinformação a respeito da pandemia que já matou mais de 68 mil brasileiros—um número maior do que o de vítimas imediatas da bomba atômica em Nagasaki, no final da Segunda Guerra Mundial.

Trata-se de assessor direto do presidente da República — com salário pago pelos cofres públicos e usando recursos do erário — que tem entre suas funções espalhar mentiras que ameaçam a saúde da população.

Isso ajuda a explicar a ofensiva feroz dos setores bolsonaristas contra o PL 2330/2020 — a lei para coibir as fake news aprovada no Senado.

Citada em reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a pesquisadora Luiza Bandeira, do Digital Forensic Research Lab do Atlantic Council, é taxativa: “os dados mostram uma rede conectada a Bolsonaro e aliados dele, usando funcionários do governo e de deputados, dedicada a manipular informação e criar narrativas, com ataques a opositores”.

O uso da mentira como ferramenta política não é uma invenção de Bolsonaro e seus sequazes, mas é uma degeneração que vem sendo perversamente refinada por esse grupo político.

Suspirante de saudades da ditadura — um regime onde o povo não se manifesta, apenas obedece — essa gente encontrou no mundo digital a arma para suprimir o livre exercício da opinião e o direito de escolha que assistem aos cidadãos e cidadãs em uma democracia.

Já que não consegue proibir o voto, urde uma distorção da realidade onde a decisão popular não mais se basearia nos fatos, mas na fraude.

A Oposição no Congresso já requereu ao Supremo Tribunal Federal uma investigação sobre a participação de assessores de Bolsonaro e seus filhos na operação dos perfis falsos banidos pelo Facebook, mais uma linha de apuração que se soma ao inquérito sobre as fake news em curso naquela Corte.

Essa é uma frente de investigação importante e complementar ao trabalho da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga a indústria das fake news para manipulação política. Como integrante dessa CPMI, tenho o compromisso de trabalhar dia e noite para que a apuração chegue aos responsáveis e possamos encerrar de vez esses tempos de embuste. Os brasileiros têm direito à verdade sobre o “Gabinete do Ódio” e suas vinculações com os interesses passados, presentes e futuros do presidente da república.

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