Suplente recusa mandato na Câmara: sente-se como um “peixe fora d’água”

O artigo poderia se chamar simplesmente “Por que não vou assumir”. Nas últimas eleições obtive 72.099 votos para deputado federal. Votação maior que a de dezenove dos eleitos e a maior entre centenas de suplentes. Fiquei como primeiro suplente da coligação. Agora, com a licença temporária do experiente deputado Bilac Pinto, fui convocado para assumir a vaga.

> Tabata diz que falta democracia nos partidos

A vida pública e a militância política sempre foram o centro de minha trajetória. Comecei muito cedo. Em 1976, com apenas dezesseis anos, liderei a maior manifestação secundarista pós-68 em Juiz de Fora. Em sequência, participei do movimento pela Anistia e presidi o Diretório Acadêmico de Economia e o Diretório Central dos Estudantes da UFJF. Fruto dessa experiência, aos 22 anos, em 1982, me elegi vereador na histórica campanha ao lado de Tancredo Neves, Itamar Franco e Tarcísio Delgado. As forças democráticas conquistaram uma grande vitória abrindo o horizonte para a Nova República. Minha motivação sempre foi alimentada pela busca da liberdade, da justiça social e do desenvolvimento econômico sustentável. Portanto, a minha recusa em assumir o mandato temporário nada tem a ver com qualquer postura antipolítica. Ao contrário, é uma homenagem e um reconhecimento a todos aqueles que se dedicam à mais nobre atividade humana, a maior ferramenta para melhorar o mundo e transformar a vida.

Nos trinta e três anos do ciclo da Nova República avançamos muito. Consolidamos a democracia, derrotamos a hiperinflação, iniciamos o combate às desigualdades, construímos as bases do SUS, universalizamos o ensino fundamental, modernizamos o Estado, privatizamos estatais ineficientes, introduzimos a preocupação com a responsabilidade fiscal. Mas é inevitável sentir nos resultados de 2018 certo gosto amargo de fracasso geracional. A criminalização da política, a forte rejeição no seio da sociedade aos políticos, a desmoralização do quadro partidário tradicional, a corrupção endêmica revelada pela Lava Jato e a radicalização extrema do jogo político foram me transformando em uma “ideia fora do lugar”, um “peixe fora d’água”.

A ideia predominante de que o político não trabalha e vive rodeado de privilégios sempre me incomodou. Vinha crescentemente sentindo um desconforto com o novo quadro da era dos radicalismos e das frenéticas redes sociais. Sou um político do Século XX perdido no Século XXI. Minhas referências inspiradoras foram Tancredo, Ulysses, Mário Covas e FHC. O mundo mudou e eu não consegui mudar na velocidade necessária. Sou um político de estilo europeu – orgânico, ideológico, partidário, coletivo – perdido nos trópicos, onde impera cada vez mais o individualismo e a espetacularização da política. Sou um conciliador, afeito ao diálogo, incompatível com os atuais níveis de intolerância, sectarismo e radicalização. Não quero mais disputar eleições. Mas estarei sempre ativo e militante por perto.

Nestes oito meses, após 42 anos de militância e 36 anos de vida pública ininterrupta, redirecionei minhas energias para o setor privado. Seria uma irresponsabilidade com os compromissos assumidos e com minha família dar um cavalinho de pau numa aventura temporária de retorno à Câmara dos Deputados.

Agradeço aos eleitores, aos prefeitos, vereadores e lideranças que sempre me acompanharam. Contem sempre comigo, agora de uma nova forma.

> Veja outros artigos de Marcus Pestana

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!