Sobre polarização, intolerância e consensos

Com a libertação do ex-presidente Lula se instalou uma intensa discussão sobre o agravamento da polarização política no Brasil. O debate franco e aberto é da natureza do sistema democrático. A intensidade é variável dependendo da conjuntura. Isto pressupõe um acordo tácito entre as mais diversas correntes do pensamento político e ideológico sobre a legitimidade de todas as partes que participam do jogo e o respeito ao império das leis, da Constituição e das instituições permanentes. O fortalecimento da democracia depende de que qualquer polarização tenha como produto consensos progressivos que permitam o avanço de soluções em torno da agenda que interessa à sociedade.

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O pano de fundo que preocupa na radicalização do processo político brasileiro é a ocorrência de crises agudas e impasses em países como Bolívia, Equador, Chile e Hong Kong. Também nas democracias avançadas o desemprego, os movimentos migratórios e as ameaças introduzidas pela globalização produziram o crescimento da radicalização no Reino Unido, na França e nos EUA, entre outros.

No Brasil e no mundo, os velhos paradigmas ideológicos entraram em crise. As respostas não são lineares e fáceis e os fundamentos estão embaralhados. A divisão superficial e rasa entre direita, centro e esquerda é limitada diante de um mundo novo e complexo.

Há uma enorme confusão conceitual entre o que é ser conservador, liberal, reacionário, socialista, socialdemocrata, nacionalista, patriota, globalista. Há conservadores na visão de mundo e nos costumes e liberais na economia. Há liberais na economia e nos costumes, mas há também liberais conservadores e reacionários. Há conservadores antiglobalistas e socialistas globalistas. Há esquerda moderna e retrógrada, e mesmo conservadores nos costumes à esquerda. Há liberais progressistas que se preocupam com as desigualdades e socialdemocratas e socialistas que defendem a economia de mercado democraticamente regulada. Não é mero jogo de palavras. Em verdade há muito mais do que cinquenta tons de cinza.

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O próprio governo brasileiro e sua base política e social de sustentação não são monolíticos. A esquerda também não é homogênea. O Brasil tem pressa e vive uma crise conjuntural e estrutural a exigir respostas. A radicalização retórica e da ação política imaginada a partir da polarização entre bolsonarismo e lulopetismo não contribuirá para o avanço da agenda nacional. O núcleo duro na sociedade de posições radicalizadas não passa de 20% da população para cada lado. Há um campo de 60% das pessoas que fazem um movimento pendular conforme as alterações da realidade.

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O surgimento de um forte movimento de centro democrático mais racional, contido, propenso ao diálogo, será positivo e necessário para que o Brasil encontre os caminhos para a saída da crise. De certa forma, isto tem acontecido no Congresso. O sectarismo e a intolerância formam o caldo de cultura necessário para posições radicalizadas. O diálogo e o reconhecimento que ninguém é dono de uma verdade absoluta confundem o militante sectário. Cabe ao centro democrático ganhar parcela importante da sociedade com uma mobilização e comunicação social eficientes para que posições radicalizadas não aprisionem o processo de decisões tão necessário para que o país não caminhe para o impasse e confrontos evitáveis.

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