Sobre eleições, corporações, tiranos e a placa de Auschwitz: “O trabalho libertará”

Impressionou-me a ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho contra a empresa Havan, aquela que assume em sua fachada a Estátua da Liberdade estadunidense e tem sua sede em Santa Catarina. Acusava-se a empresa da prática de assédio moral e conduta abusiva, por obrigar seus empregados e empregadas a votarem no candidato Jair Bolsonaro. O juiz da 7ª Vara do Trabalho acatou o pedido ministerial, fixou uma multa de R$ 500 mil e determinou que a empresa infratora publicasse o conteúdo da decisão que reconheceu a gravidade da prática ilícita.

Noticia-se que a Havan não agiu de forma isolada. Assim como ela, várias empresas cometeram assédio moral contra seus empregados e empregadas, ameaçando-os de punições, demissões ou com prêmios caso votassem no candidato do PSL. Certamente esse inusitado, violento e coletivo gesto tinha como razão o compartilhar das ideias dos infratores com aquelas defendidas pelo presidenciável escolhido como porta-voz dos interesses patronais em debate.

Ou, escrevendo em outras palavras, os assediadores queriam eleito um candidato que tem um histórico de defesa dos interesses patronais. Como noticiado ao votar no Parlamento contra os direitos dos empregados domésticos e, depois, seu voto favorável à nefasta “deforma” trabalhista que transformou a CLT na Consolidação das Lesões Trabalhistas – e, em razão dela, os trabalhadores em “coisas” a serem apropriadas pelo menor preço imposto pela ganância do “mercado”.

E não só! Queriam o candidato que prometeu aprofundar a exploração, extinguindo a Justiça do Trabalho e ampliasse a política de restrições a direitos, como o fim da gratificação de férias e do 13º salário.

Mas não é a primeira vez na história em que empregadores, banqueiros, industriais e grandes empresários apoiam governantes que prometem destruir direitos trabalhistas, organizações sindicais e escravizar a classe trabalhadora. Não é a primeira vez, também, que financiam projetos que, sabidamente, sabiam exploradores, criminosos e atentatórios à dignidade da pessoa humana. Tampouco é a primeira vez que buscam o lucro fácil às custas das tragédias sociais que seus dinheiros financiam. Todos, evidentemente, disfarçados em despretensiosos interesses moralistas, religiosos, anticorruptos e patrióticos.

A historiadora Patrícia Agosto, em seu livro El Nazismo: La otra cara del capitalismo, afirma que foi exatamente assim o relacionamento aberto da classe patronal com o nazismo de Hitler. A IBM, por exemplo, ajudou, via holerite, a cruzar dados, nomes, direções, genealogias e contas bancárias para identificar os adversários do nazismo e, assim, terem seus bens confiscados, deportados ou condenados à morte em guetos e campos de concentração. E, devido a esse “feito”, o fundador da IBM recebeu, em 1937, a Cruz do Mérito da Alma Germana.

Condecoração nazista também recebida por Henri Ford, admirado por Hitler – que, aliás, tinha na sua sala de despacho uma foto do ídolo estadunidense. A subsidiária alemã da Ford era a fornecedora dos motores dos aviões de guerra da Luftwaffe, utilizando, para aumentar seus lucros, a mão de obra escravizada dos prisioneiros do ódio nazista.

Lucrar com o governo nazista era regra geral para o ambicioso poder econômico, pouco importando a tragédia humanitária anunciada, sem disfarce, por Hitler e seus asseclas. Os bancos Union Banking Corporation, Brown Brother Arriman (dirigindo pela família Bush), Chase Manhattan Bank (da família Rockfeller), Dresdner Bank (principal acionista da empresa encarregada de fazer os fornos onde se queimavam os cadáveres), Reichsbank, os bancos suíços, a companhia de seguro Allianz e tantas outras instituições financeiras lucraram com o nazismo e, vários deles, com o confisco das propriedades judias e as vendas forçadas para os próprios alemães. A indústria química I.G. Farben, a poderosa empresa de comunicação ITT, a German Steel Trust confessaram que sabiam e lucraram com o holocausto nazista.

Da mesma forma a Texaco, a Standard Oil of New Jersey, a General Motors, a Volks e infinitas empresas que investiam no ódio nazista aos comunistas e sindicatos para, destruindo direitos, ampliarem seus lucros. A anglo-holandesa Shell, inclusive seu diretor Henry Deterding, patrocinava as publicações nazistas e emprestou altas fortunas diretamente a Hitler, com a promessa de receber, quando eleito, o monopólio do petróleo das áreas alemãs e anexadas.

Estima-se que os campos de extermínios, os trens da morte, os guetos e as balas nazistas mataram milhões de judeus, cristãos, comunistas, ciganos, negros, homossexuais e outros tantos que se opuseram ou estavam na mira dos ódios nazistas. Sabe-se que grande parte da classe empresarial financiou, lucrou e utilizou mão de obra escrava dos campos de concentração.

Essa parcela do poder econômico concordara e fora cúmplice das ideias nazistas que “coisificavam” a pessoa humana. Certamente por isso não se chocava quando, ao adentrar o genocida campo de concentração de Auschwitz, lia a irônica placa pendurada na sua porta de entrada: “O TRABALHO LIBERTA”!

 

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