São Paulo apaga 462 velinhas. “Porém com todo defeito, te carrego no meu peito…”

Uma das minhas mais remotas lembranças é a de, com três anos e três meses de idade, assistir com meus pais às comemorações do IV centenário de São Paulo, no vale do Anhangabaú.

Era começo da noite e o melhor lugar que encontramos, em meio à enorme multidão, foi no viaduto do Chá.

O que mais me encantou: a chuva de aviõezinhos de papel laminado, que eram atirados do topo de edifícios e lampejavam à luz dos holofotes. Que criança não se deslumbraria?

Mas, o ufanismo paulista nunca me contagiou. Locomotiva do Brasil - e daí? Quando pequeno, não dava muita importância ao que estava além de minhas experiências e conhecimentos. Depois, entendi muito bem o que aquilo significava mas, cabeça feita por Monteiro Lobato, preferia os artistas e pensadores aos ganhadores de dinheiro. Sou assim até hoje.

Minha mãe, coitada, acreditava que ter-se industrializado antes fazia São Paulo melhor do que o resto do Brasil. Em suas tentativas canhestras de lançar-se como compositora, criou um mostrengo que, felizmente, nunca ninguém gravaria: "Este São Paulo é um colosso/ Tem cafezais e algodão/ Sua indústria assombra/ É a maior da nação/ Venha assistir a sua luta incessante/ para ver que tem o paulista/ fibra de herói e de bom bandeirante..."

 

Na Mooca dos anos 60, os jovens projetavam para si carreiras de engenheiros, médicos, advogados e que tais - pois os pais incutiam-lhes desde cedo o sentimento de dívida: tendo a oportunidade de estudar que a eles próprios não fora dada, deveriam chegar aonde gostariam de ter chegado. Para quê? Para terem bons empregos, casas, carros, quinquilharias.

[Eu percebia claramente no meu pai - que começou a trabalhar aos 11 anos de idade no Crespi e passaria os 45 anos seguintes no mesmo prédio, embora com patrões diferentes - o sonho inconfessado de me ver na pele do imponente ingegnere daquele gigantesco cotonifício. Mas, deu-me a liberdade de escolha e aquele papel eu não me sentia talhado para desempenhar.]

Até pensei em me tornar engenheiro químico, mas fascinado pelos cientistas loucos dos filmes de terror e não por ambições materiais. Aliás, nunca as teria.

Estudar no Ginásio Estadual (depois Colégio) MMDC não me fez entusiasta da Revolução Constitucionalista de 1932, embora a escola tentasse nos incutir os valores correspondentes. Veteranos vieram algumas vezes fazer palestra para nós, medalhas balançando nos peitos. Mas, caindo aos pedaços, pareciam mais caricatos do que heroicos.

 

Uma jovem e desejável professora de música chegou a criar um hino que começava assim: "Nós somos os estudantes/ Que só chegaram depois/ Dos gloriosos instantes/ De julho de 32/ Herdamos seu heroísmo/ A sua tenacidade/ O seu gesto de civismo/ Defendendo a liberdade". Ela e minha mãe formariam uma boa dupla.

Ao me tornar revolucionário, engoli sem pestanejar a versão que os historiadores ligados ao PCB difundiram e prevalece até hoje na esquerda, de que a Revolução Constitucionalista não passara de um movimento orquestrado pela oligarquia industrial-cafeeira de São Paulo.

Mas, depois da passagem pelos porões da ditadura militar, passei a ver com outros olhos os regimes que detêm poder de vida e morte sobre os governados, concluindo que nada, absolutamente nada, justifica que seres humanos sejam submetidos àqueles horrores que eu sofrera e presenciara.

E, lendo historiadores mais isentos (o stalinizado Partidão precisava provar que estava e sempre estivera certo, até ao apoiar ditaduras fascistoides como a de Vargas), percebi que a revolta contra o governo ilegítimo era generalizada entre a classe média paulista.

 

Os quatro do MMDC, mais o que morreu logo depois (Orlando de Oliveira Alvarenga) e não foi celebrado como Marins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, eram simples estudantes, nem de longe pertencentes à aristocracia reacionária. Há de tudo numa luta dessas, mas eu diria que o anseio por liberdade pesou mais do que a defesa de privilégios. E é inconcebível a esquerda, sob quaisquer subterfúgios, alinhar-se com despotismos.

Não que inexista conservadorismo e reacionarismo em São Paulo. Evidentemente, há. Percebe-se isto até no esquecimento a que são relegados episódios tão marcantes como a grande greve de 1917, varrida da memória paulista e paulistana. E são duros de engolir os cinco mandatos consecutivos do PSDB no governo estadual, marcados por episódios chocantes como o da barbárie no Pinheirinho. Mas, exageram os que maximizam a importância daqueles gatos pingados que, nas manifestações pró-impeachment na avenida Paulista, pedem a volta da ditadura; os nostálgicos do arbítrio são exceção irrisória, jamais regra.

A Mooca proletária dos meus verdes anos deixou de existir, hoje os novos ricos tomaram conta. A avenida Paes de Barros virou um boulevard de bancos e empresas com instalações faraônicos. Os marcos do meu passado viraram pó que o vento do tempo espalhou.

 

Ainda acontece alguma coisa no meu coração quando cruzo a Ipiranga com a São João, apesar da visível decadência do centro velho, do desfilar de zumbis do crack e marginais, de o cine Ipiranga não existir mais, de o Marabá ter virado colmeia de salinhas malcheirosas e o Metro, templo da fé mercantilizada.

E não gostaria, como no pesadelo bizarro de Arnaldo Baptista, de ver uma bomba H destruindo São Paulo.

Mas, o encanto há muito passou, até porque não vejo mais aviõezinhos de papel jorrando do alto dos edifícios...

Então, fico com o Tom Zé e sua oportuna ressalva: "porém com todo defeito/ te carrego no meu peito".

* Jornalista, escritor e ex-preso político. Edita o blogue Náufrago da Utopia.

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