Renovação histórica, mas com nervos à flor da pele

"A disputa que levou ao segundo turno do pleito presidencial está reproduzida nas bancadas eleitas ao Congresso, criando espaço para ecoar picuinhas de um lado e de outro e dificultando ainda mais uma conciliação nacional"

A histórica renovação na Câmara e no Senado nessas eleições deve ser entendida para além de um simples recado das urnas contra os escândalos de corrupção dos últimos anos. Ela serve também como um alerta para o risco de choque direto entre a onda conservadora impulsionada pelo fortalecimento da direita e centro-direita, representada por Bolsonaro, e um movimento contrário de resistência da esquerda e centro-esquerda, representado por Haddad.

Se por um lado a renovação mostra o acerto de campanhas por mudanças na representação política por meio do voto consciente - como defendemos neste espaço -, por outro aponta para a manutenção do "Fla-Flu" político que tem criado obstáculos para o desenvolvimento do país com retomada do crescimento e da distribuição de renda.

Afinal, a disputa que levou ao segundo turno do pleito presidencial está reproduzida nas bancadas eleitas ao Congresso, criando espaço para ecoar picuinhas de um lado e de outro e dificultando ainda mais uma conciliação nacional.

O resultado mostra uma significativa pulverização das forças eleitorais: 30 partidos elegeram representantes na Câmara, contra 16 em 2014. No Senado, o número também subiu, de 15 para 21 partidos. Muitos deles sequer existiam quatro anos atrás.

A fragmentação política se verifica também no resultado para os governos estaduais, em que 13 partidos elegeram ou disputam o segundo turno.

Na Câmara, impressionantes 274 dos 513 deputados eleitos são nomes novos, ou 53,4%, maior índice de renovação desde 1994. Na eleição passada, o percentual foi de 46,7% e em 2010, 44,25%.

No Senado, o número é ainda maior: 85% de renovação, ou 46 cadeiras dentre as 54 em disputa. No total de 81 senadores, a depender dos resultados para governos estaduais em segundo turno, pode-se chegar a 50 novos parlamentares, ou 61% de renovação a partir de fevereiro de 2019, quando toma posse o novo Congresso.

Boa parte desse resultado se deve à onda conservadora e ao mesmo tempo anti-petista registrada às vésperas das eleições.

Ainda assim, a maior bancada será do PT, que elegeu 56 deputados, apesar de esperar por volta de 70. Já o PSL ganha uma relevância inédita ao tornar-se a segunda maior bancada da Câmara, com 52 nomes, quando estimava eleger cerca de 30. No Senado, ficará com quatro cadeiras (não elegeu nenhuma na eleição passada), enquanto o PT deve passar 13 em 2014 para seis em 2019. O MDB continuará sendo a maior força, mas cai de 19 eleitos em 2014 para 12 agora.

O resultado serve ainda como importante lição para uma série de forças tradicionais da política nacional. É grande o número de caciques da velha escola excluídos do tabuleiro - ainda que não totalmente do jogo -, em especial do MDB de Temer, do PSDB de Aécio e Alckmin e dos demais partidos que apoiaram o impeachment de Dilma para alçá-lo ao poder em 2016. Mas atinge também o PT, superado em disputas tidas como imbatíveis pelas pesquisas - a exemplo da própria Dilma na tentativa frustrada de se eleger senadora por Minas Gerais e a de Suplicy, até a véspera da eleição considerado a única certeza para voltar a ser senador por São Paulo.

Um número animador é o que demonstra o aumento da participação de mulheres na política, foco de campanhas e legislação específica para garantir a voz feminina nos espaços de poder.

Na Câmara elas serão 77 deputadas, 51% a mais do que em 2014, passando a representar 15% do total. No Senado, o número fica estável (12 ou 13 senadoras, a depender do segundo turno), com a eleição de sete senadoras (13%), mesmo número de 2010, quando também houve eleição de 54 cadeiras.

Para as assembleias estaduais foram eleitas 161 mulheres, o que representa 15% do total e um aumento de 35% em relação a 2014.

As urnas deram também um tapa na cara do tradicional modus operandi de campanha eleitoral em curso até aqui. Momento de rever conceitos e questionar "verdades"; como a importância do tempo de propaganda eleitoral em rádio e TV - que acaba determinando alianças muitas vezes inexplicáveis -, o novo ativismo político via redes sociais e aplicativos de mensagens e a proliferação de boatos e agressões virtuais com as fake news.

Afinal, o candidato com maior apoiamento partidário e, portanto, com o maior tempo de propaganda (Alckmin, com mais de 5 minutos) ficou em quarto lugar. E o candidato que tinha irrisórios oito segundos se aproximou da vitória em primeiro turno.

Agora, pode-se esperar algo que já se nota nas redes sociais: um enfrentamento direto entre os dois lados que farão a disputa em segundo turno. Resta a todos nós, daqui até 28 de outubro, debater o futuro do país profundamente, como pouco se fez no primeiro turno.

Mas defender pontos de vista, argumentar, conversar e buscar o convencimento do outro deve ser sinônimo de respeito, de bom-senso, de cordialidade. É o mínimo que se pode esperar de uma legião de eleitores dentro de
uma democracia madura.

Infelizmente, os sinais indicam exatamente o contrário. Que venham os próximos capítulos.

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