Quem morre com Santiago?

Quem matou Santiago? Estes foram prontamente identificados. Responderão por seus atos. Diferente dos assassinos de Amarildo, Antônio, Anão da Baixada e tantas e tantos outros anônimos (genuínos anônimos!) assassinados, suicidados, “desaparecidos”.

Mas não é hora disso. A dor da perda dói da mesma forma pra família de Amarildo ou Santiago. Com a mesma lágrima que choramos, no passado, a morte do trabalhador Amarildo devemos chorar agora a morte do trabalhador Santiago. E que este "lapso" de sensibilidade não se acabe neste caso, mas se estenda para tantas outras injustas mortes que acontecem todos os dias.

O acalento não pode vir senão do sentimento de que não mais haverá semelhantes vítimas, atentadas pelas mesmas mãos imprudentes ou torturadoras. Acalento que nenhuma das famílias poderá ter. Pois nem em um nem em outro caso as “autoridades” ou a “imprensa” buscaram efetivamente soluções para o fim das injustiças ou de tragédias.

O tratamento dado a cada morte, contudo, foi absurdamente diferente. Para Amarildo, o simples descaso manifesto em uma pequena nota ou notícia fria. Descaso que só foi rompido quando das ruas ecoou uma pergunta que não podia ser ignorada: “#CadêOAmarildo?”. Daí, com o rabo entre as pernas, os telejornais passaram a dar atenção ao ajudante de pedreiro assassinado e torturado pela polícia.

Já para Santiago, o oposto. O oposto, inclusive, invasivo e desrespeitoso. O oposto festivo, a celebração da tão demorada morte que pudesse colocar, de vez, os manifestantes no rol do “eixo-do-mal”, o oposto que sensacionaliza e que no fundo regozija com essa tragédia. Se o “vandalismo” forjado não foi suficiente pra fazer a sociedade torcer o nariz pras manifestações, legitimar a ação truculenta da polícia ou ter medo de ir às ruas, um homicídio caiu como luvas para criminalizar e desqualificar de uma só vez todo o conjunto de democráticas e legítimas manifestações brasileiras.

Não precisamos de um “#CadêOSantiago”. Precisamos de um #QuemMorreComSantiago?? No caso de Amarildo, morreu quem já morre sempre, o inaceitável banal seguiu seu curso. Afinal, a morte de Amarildo tem se aproximado de uma regra, se é que já não é. Já a morte de Santiago não é regra. Não é regra, entre outros motivos, porque raras são as mortes que podem ser tão instrumentalizadas por interesses políticos que nada têm de compromisso com a vítima ou seus familiares. Interesses de quem nunca se levantou contra as condições de trabalho ou de segurança a que seus funcionários são submetidos, interesses de quem nunca se colocou em favor das reivindicações de trabalhadores em geral, sejam cinematografistas, maquiadoras, pedreiros, metalúrgicos.

Santiago não foi apenas vítima de um pavio aceso. Santiago torna-se, desde seu falecimento, o próprio pavio de um ataque contra toda a sociedade brasileira. Ataque que já vinha em marcha com avanço de discursos e ações fascistas, como os de Sheherazade, Bolsonaro, e outros “justiceiros” que estão acima do bem e do mal. Mas que ganham ainda mais vigor em nome desta lamentável tragédia.

Ninguém tem o direito de acender um rojão em meio à multidão e quem o fez deve responder. Ninguém, em nome de “interesses da sociedade” ou de “revoluções”, pode agir de forma tão irresponsável, colocando em risco a integridade de todas e todos ali presente. Afinal, na minha humilde opinião de utópico sonhador, essa ação só prejudica o avanço de conquistas verdadeiramente revolucionárias. Mas, principalmente, nem a mídia nem NINGUÉM tem o direito de em nome da “justiça” defender extremismos autoritários, ninguém em nome do “combate à violência” pode promover o discurso de ódio, ninguém pode enfiar goela abaixo uma legislação abstrata como a chamada “lei de terrorismo” que dá espaço às mais diversas interpretações e que pode, SIM, ser usada contra as liberdades democráticas de todas e todos nós. Moças, rapazes, a Rede Globo não se importa com Santiago e não quer enterrá-lo sozinho. A cova está aberta. O pavio está aceso. O que faremos?

*Raphael Sebba é secretário de Juventude do PSB-DF, membro da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) e estudante de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB).

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