O Brasil visto por fora

Márcia Denser*

Respondendo a questionários de duas estudantes – uma da Vanderbilt University, USA, outra da Universidade de Frankfurt, Alemanha, cujas teses abordam minha produção literária e, por extensão, o contexto histórico brasileiro pós 70 –, encontro questões que me deixaram particularmente desconcertada (para não dizer desagradavelmente surpresa) precisamente por terem vindo de onde vieram, isto é, dos chamados templos do saber, os “sancta sanctorum” do conhecimento ocidental. O fato é que tais questões continham pressupostos absolutamente equivocados sobre o Brasil, sua política e cultura.

Por exemplo, tanto a pesquisadora dos Estados Unidos como a da Alemanha parecem considerar que a chamada “abertura política” de 80 determinou a emergência duma literatura erótica feminina no Brasil e na América Latina (?). Pensei: onde foram buscar tal conexão? Que jamais ocorreu a nós posto ser inexistente? Como hipótese acadêmica está até bem arranjada, tem uma certa lógica, mas sem nada a ver com a realidade estrutural dum país como o Brasil, onde as determinantes históricas dos países centrais funcionam de maneira diferente, ou simplesmente não funcionam.

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Imagino que o desconhecimento do Brasil (e da América Latina) é mais grave, mais profundo, daí o estudo das nossas artes e letras por parte de pesquisadores estrangeiros tornar-se importante por lançar pontes sobre este abismo. Assim, transcrevo adiante a pergunta exatamente como foi feita. E a minha resposta à la carte.

P. Nos anos 80 houve uma emergência da literatura escrita por mulheres na América Latina com conteúdo do erótico e com o corpo da mulher como a linha central estrutural e temática. Você acha que esta emergência foi devida ao fenômeno cultural conhecido como “a abertura” que ocorre freqüentemente após uma ditadura e durante o processo de democratização?

R. Uma coisa nada teve a ver com a outra, até porque a “abertura política” nada teve de abertura, foi apenas uma troca de guarda: os militares simplesmente lavaram as mãos dos seus crimes, cedendo o governo do país aos membros da sempiterna burguesia (que até então havia apoiado os militares na sombra), ambos aliados aos norte-americanos  – que os apoiou plenamente pelo lado de fora – e todos contra o povo brasileiro, right, baby?  

Com o progresso, as anomalias da sociedade brasileira se reproduzem noutro patamar ao invés de se dissolverem, segundo as teses do nosso ex-presidente, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, acessíveis na biblioteca do Congresso americano. De outro ângulo, essas anomalias são o arranjo sócio-político em cima do qual se processa a inserção do país na economia internacional. O desenvolvimento dos países subdesenvolvidos não leva ao desenvolvimento senão em aparência, pois o capitalismo em plena ação modernizante repõe a situação subdesenvolvida, que nesse sentido faz parte do travejamento arcaico da própria sociedade contemporânea de cujo desenvolvimento então seria o caso de duvidar.

No fim da década de 80, durante a “abertura”, a evolução mundial do capitalismo novamente desarmou o enfrentamento interno, de conteúdo sociológico claro, e deu espaço à recondução da burguesia ao poder. De lá até aqui, após vinte anos de evolução pacífica do processo democrático, ainda estamos longe, mas já estamos bem melhor.

Quanto à literatura, na década de 80 entraram em pauta as questões do corpo e isso no mundo inteiro (pense em Foucault, Derrida, Deleuze, pós-modernismo e desconstrução) assim, entendo a incorporação da perspectiva feminina na nossa ficção erótica, sobretudo após a década de 80, como manifestação estética sintonizada com as tendências mundiais, vigentes a partir da década de 60.  

A questão central da abertura é que ao abolir a censura às obras de arte paralelamente intensificou a banalização e a degradação da arte, da educação e da cultura brasileiras como um todo, através do que um amigo meu, o professor Ítalo Moriconi, chama “popização da cultura”. Na época, os escritores comentavam: liberou para quê? Pois o que se evidenciava era o vazio – de ideais, de esperança, de corpo, de alma, de valores reais – agora totalmente preenchido pela cultura de massa. Aliás, não foi isso que ocorreu no mundo todo?

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