O Brasil não cabe no Brazil de Bolsonaro

É com prazer que estreio esta coluna semanal no Congresso em Foco. Por aqui, vou compartilhar reflexões e análises mais profundas sobre o país, os brasileiros e, claro, sobre política. O Brasil necessita se rediscutir e traçar novos e mais seguros caminhos na direção de um país melhor para todos.

Pretendo contribuir para isso por meio deste espaço que reúne um time de colunistas talentoso e heterogêneo. O Congresso em Foco é um bom exemplo de como uma imprensa livre pode colaborar para que a sociedade entenda melhor o seu passado e os dias de hoje para poder olhar com esperança para o futuro.

E um elemento fundamental para a construção do futuro é o trato com a cultura, tão vilipendiada pelo atual governo.

Na última quinta-feira (11), a Justiça Federal do Rio de Janeiro suspendeu a nomeação e a posse da indicada à presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão aponta que a que a escolhida pelo governo Bolsonaro não tem a formação nem a experiência profissional compatíveis com o cargo.

Neste cenário conturbado de crise política, econômica e sanitária, essa é uma pequena — mas significativa — vitória sobre a estratégia de Bolsonaro para desmontar o Iphan.

Assim como é preciso travar a “passagem da boiada” no Meio Ambiente e nas terras indígenas e quilombolas, também é preciso brecar ataques possivelmente irreversíveis do governo Bolsonaro à memória, ao patrimônio histórico e à identidade nacional.

O presidente compara esses elementos indissociáveis da nacionalidade a “cocô de índio petrificado”. Foi o que ele disse na célebre reunião ministerial onde todas as iniquidades foram aventadas.

Sítios arqueológicos, museus, edifícios, saberes e fazeres, uma vez destruídos, estão perdidos — como os Budas de Bayman, explodidos pelo Talibã, em 2001.

O desprezo de Bolsonaro pelo nosso patrimônio histórico e cultural não é surpresa. Ainda candidato, ele desdenhou do choque sentido pela maioria dos brasileiros diante do incêndio do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista.

“Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre”, reagiu na ocasião, estreando seu repertório de “e daí?” que chegaria à culminância no menosprezo aos milhares de compatriotas mortos na pandemia da qual é cúmplice.

A indiferença de Bolsonaro com as mortes de tantos brasileiros e brasileiras é nauseante. Mas aquele primeiro “e daí?” poderia ter servido de alerta, não fosse a pandemia de ódio que já se alastrava pelo país.

Desde então, os “e daís?” marcham solenes, dando de ombros diante da perda de gigantes — João Gilberto, Moraes Moreira, Rubem Fonseca, Flávio Migliaccio, Luiz Alfredo Garcia Roza, Aldir Blanc e tantos outros.

Tivesse o presidente o mínimo de noção do que é ser brasileiro, saberia o que representou cada uma dessas mortes.

Tivesse o então candidato um mínimo de apego ao Brasil, perceberia que o Museu Nacional era muito mais do que a morada de Luzia, “a primeira brasileira” — o fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com 13 mil anos de idade — ou abrigo do meteorito Bendegó, a casa do Maxacalissauro, dinossauro de 80 milhões de anos.

O que queimou, naquele dia fatídico, foi um conjunto inestimável de estudos, pesquisas, conhecimentos e símbolos inestimável, abrigados na instituição científica mais antiga do Brasil.

O Brasil já experimentou e se beneficiou de uma gestão da Cultura fundada na diversidade, no vasto sentido do que é “ser brasileiro e brasileira”.

Nos governos petistas, o trabalho inaugurado por Gilberto Gil no Ministério da Cultura orientou o Estado brasileiro para o reconhecimento do papel estratégico da Cultura, entendida, então, como todas as expressões da vida dotadas de carga simbólica, extrapolando o meramente funcional.

As políticas culturais são essenciais à construção de um país socialmente mais justo e para a afirmação soberana do Brasil no mundo. São elementos de construção e da preservação de nossa identidade e autoestima. São geradoras de emprego, renda e riqueza.

O Brasil é muito maior do que Bolsonaro. O povo que criou o samba, o maracatu e a ciranda, que pariu Chiquinha, Noel, Bandeira, Drummond e Glauber, que canta com Chico e Elza, que embalou Niemeyer e Tarsila e se reinventa todos os dias na irreverência dos meninos e meninas da quebrada vai saber retomar o rumo da felicidade.

Não vai tardar: os inimigos da Cultura não são muitos, nem sabem voar.

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