No Brasil, negócio é ir contra consumo e emprego

Enquanto a maior parte dos países trabalha para escapar da crise, incentivando o consumo para que o mercado absorva sua capacidade de produzir eletrodomésticos, automóveis, caminhões, remédios, vestuário e outros produtos industrializados ligados a geração de empregos nos setores industrial, do agrobusiness e de serviços, no Brasil, inversamente, o governo anuncia o aumento dos juros, para que os brasileiros parem de comprar, viajar e comer. A justificativa é que, se continuar o consumo nos patamares atuais, os preços irão subir, provocando inflação.

Entretanto, no resto do mundo civilizado, os juros são reduzidos a quase “zero” para que o consumo retorne aos números praticados antes da crise global. A explicação é que no Brasil é preciso frear o consumo porque o governo, nos últimos 20 anos, não investiu o mínimo necessário no desenvolvimento da agricultura, na construção de estradas, aeroportos, portos, produção de energia e apoio as indústrias brasileiras para produzirem mais e melhor. Aqui os preços sobem porque tem gente demais querendo comprar, enquanto não existe infraestrutura e produção para atender a demanda.

O inexplicável é que o governo federal, somente nos últimos oito anos elevou a dívida pública, interna e externa, para R$ 1,8 trilhão. Para onde foi este dinheiro? Não está em estradas, aeroportos, hospitais, na segurança ou na produção de energia.

Se não houver mudanças, esses fatores farão com que a crise financeira internacional, que eclodiu no fim de 2008 e pegou em cheio as nações ricas, tenha como sua próxima vítima, o Brasil e seus números incríveis.

Essa é pelo menos a opinião da consultoria Oliver Wyman Group, sediada em Londres. Nos últimos dias de janeiro de 2011, a consultoria fez circular um estudo que traz projeções sombrias sobre o futuro dos países emergentes, quando acabar o forte ciclo de avanço nos preços de matérias primas - commodities - como alimentos não industrializados e minérios brutos, produtos dos quais dependem as economias pouco desenvolvidas, de perfil ainda colonial, onde se exporta matéria-prima e se compram produtos industrializados. Ou alguém pensa que o petróleo da Petrobrás, a soja e os minérios da Vale são muito diferentes da cana-de-açúcar e do pau-brasil?

Até agora o que nos salvou foi um real hipervalorizado impulsionado pela política de injeção de recursos para salvar a economia dos Estados Unidos. Esse quadro mudará muito em breve, pois quando os preços das commodities caírem, desaparecerá o efeito esponja que vem absorvendo o excesso de oferta de moeda global que até então beneficiou artificialmente o Brasil e a Rússia. A alta dos preços de commodities ajudou as economias emergentes da mesma forma que a sobrevalorização dos preços dos imóveis nos EUA. Em ambos os casos, pessoas e empresas lançaram-se em gastos excessivos, contraindo mais dívidas, todos gastando e se endividando acima das suas possibilidades.

Isso é uma armadilha! No Brasil, o fenômeno é percebido pelo alto endividamento do governo, justificado em gastos e avaliações irrealistas. Não por outra razão, que no início do segundo semestre de 2010 o Tribunal de Contas da União (TCU) divulgou relatório criticando o desempenho da economia e as baixas taxas de crescimento e a falta de infraestrutura. O relatório apontou como causa o fato de o governo brasileiro estar descumprindo, sistematicamente, várias leis relativas à execução do Orçamento Geral da União aprovado no Congresso Nacional. O pior é que o governo federal participa, administra e é responsável por mais de 25% da "atividade econômica privada" nacional. Esse fato gera maior insegurança institucional, contaminando potencialmente os resultados econômicos.

Esse fato já foi objeto de manifestação do economista Frederick Jaspersen, do Instituto Internacional de Finanças (IIF), em reunião anual, encerrada no dia 11 de junho de 2010, quando em conferência à imprensa e aos membros da instituição que congrega os mais importantes líderes das principais instituições financeiras do mundo, ratificou a impressão quanto às fragilidades da economia do "B"do BRIC, em face dos mesmos motivos apontados pelo Tribunal de Contas Brasileiro.

Em 2009, o Produto Interno Bruto acumulado foi de R$ 3,143 trilhões contra uma dívida pública interna superior a 1,7 trilhões de dólares; a taxa de desemprego de 2009 chegou a 6,8% (idêntica de 2008); e apenas 60% das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) previstas para serem realizadas até 2010 foram executadas até 2009. O Brasil tem a 14ª maior carga tributária de todo o mundo ao lado do juro mais caro do mundo. Quem compra um eletrodoméstico no Brasil com cartão de crédito paga próximo a 264% de juros ao ano. Nos EUA não chega a 3%, no Japão menos ainda. Na Europa, algo em torno de 8%. Isso é a prova de que no Brasil, mesmo com crise, o negócio é ir contra o consumo e a geração de emprego.

Se isso não é prognóstico de crise, no mínimo pressupõe que vivemos fora do mundo.

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