Cuba: corações ilhados, mentes globalizadas

César Gandhi, Guilherme Brandão e Walternor Brandão *

Cuba 2013: 11 milhões de habitantes, IDH elevado (0,78), expectativa de vida de quase 80 anos de idade e média escolar de dez anos de estudo. A seguir, uma breve visão da ilha na perspectiva de três jovens candangos.

Seria fácil falar dos charutos, da ausência de bancas de revistas internacionais e de grandes livrarias, da falta de McDonald’s, Subway, da internet tartaruga, da água mineral com leve gosto de sal, dos táxis velhos e do espanhol tresloucado, quase incompreensível. Nossa narrativa tem outro som, porém. Aqueles corações estão ali ilhados, mas de alguma forma suas mentes voam pelo mundo.

Viajar a Cuba é um misto de turismo e experiência intelectual únicos. Partimos de Brasília conscientes de que iríamos experimentar uma extravagância. Não foi somente um passeio, tampouco um puro atestado ideológico. Respiramos outra cultura, outro modo de ver e viver o mundo, outra ideia acerca do que é interesse público, outra organização social.

Por coincidência, chegamos em 26 de julho, data em que estavam comemorando os 60 anos do assalto ao quartel Moncada, de Santiago de Cuba, e ao “Carlos Manuel de Céspedes”, de Bayamo, em 1953, fato que marcou o início da última etapa de lutas do povo cubano por sua total emancipação, finalizada em 1959. Havia um exército de bandeiras com la estrella solitária espalhadas pelas casas.

À primeira vista, Havana apresentou-se como uma cidade comum. As coisas velhas estavam lá: os carros rabo de peixe, as casas com arquitetura dos anos 50, os prédios em ruínas, mas havia também um toque especial em toda a cidade. As ruas apresentaram-se limpas, com muita vegetação por todos os locais. Mesmo naqueles lares mais humildes havia um cuidado, um zelo expressivo. Os cidadãos ficam na frente de casa, no contato com os vizinhos e com a comunidade.

No centro administrativo e por toda a cidade os heróis nacionais são reverenciados. Mas não são as figuras óbvias que imaginávamos. Che é um herói nacional, sem dúvida, mas é o rosto de José Martí, bem anterior à Revolução Socialista, que decora toda a cidade. Imagens de Fidel Castro – pasmem – são incomuns nas ruas, embora tenham nos relatado que há um quadro do Castro-Chefe na casa de quase todos os cubanos.

Pelas ruas a presença militar é pequena. Não se trata de uma sociedade sitiada, refém de si mesma. E olha que andamos por lugares pouco convencionais, por quase toda a capital. No decorrer das caminhadas constatamos o óbvio: tudo é estatal. Supermercados, postos de gasolina, banquinhas de artesanato, lojas de perfume, a maior parte dos hotéis. Há “servidores públicos” espalhados por todos os cantos.

Conversamos com um cubano que trabalhava como segurança de uma galeria estatal e foi possível vislumbrar nele um descontentamento com o regime, mas sem saber apontar uma solução. O rapaz ganhava 23 CUC’s por mês – algo em torno de R$ 57,00 –, além da “ração” mensalmente entregue a cada família, por meio de um rígido controle em cadernetas, a libreta – o documento fundamental da vida cubana.

Ele nos falou da imensa qualidade dos hospitais. Segundo nos retratou, nas escolas, os melhores alunos são incentivados a seguir a carreira médica.  Ao relatarmos a ele como a desigualdade social brasileira ajoelha nosso país, o rapaz não nos levou a sério e disse sobre Cuba: “Somos iguais em pobreza”!

Certa manhã, nos arredores do Capitólio, uma senhora com uma criança nos abordou e pediu que comprássemos leite em pó, pois sua família era numerosa e a “ração” dada pelo governo não bastava. Como dizer não diante de tal argumentação?

A vida cubana é dura! Os nativos fazem de tudo para conseguir algum dinheiro adicional. As senhoras ficam vestidas a caráter, com charutos e tudo mais, oferecendo-se para fotos, a troco de alguma moeda estrangeira.

Em outra noite, no Malecón, na orla de Havana, fomos abordados por Marina, uma coordenadora de um jardim de infância, estudante de Economia da Universidade de Havana e prostituta aos finais de semana. Nada que já não conhecêssemos no Brasil, mas uma situação sempre desconfortável.

Em geral, entretanto, não vimos mendigos, drogados ou pessoas em situação de extrema vulnerabilidade pelas ruas. Viajamos rumo às praias e não vimos favelas. Matanzas, inclusive, parece bastante com certas cidades do interior de Goiás.

Cada cubano conhece a história do seu país e sabe fazer críticas. A pouca variedade de canais televisivos, os quais transmitem algumas novelas brasileiras, talvez contribua para isso, pois a grade é ocupada com documentários sobre a ilha e mensagens enfatizando a riqueza do país: a força de trabalho do povo. Um motorista de táxi sabia das imensas manifestações que tinham ocorrido no Brasil e nos perguntou se havia dado em algo. Respondemos que os desdobramentos ainda estavam ocorrendo. Ele nos disse: "La lucha continua!"

As pessoas não aparentam sufoco, sofrimento, angústia, mas é claro que, sob o aspecto financeiro, não há dinheiro para extravagâncias. Sob outros aspectos, porém – cultura, musicalidade, criatividade, juventude – há orgulho na ilha socialista.

Foi incrível ver o Buena Vista Social Club e a velha guarda cubana bem à nossa frente. Tereza Garcia Caturla estava bem ali, bradando sua salsa para nós.

Os olhos cubanos não negam alegria e honra, mas também revelam uma vontade de experimentar a liberdade, de aventurar-se no novo. Ainda que soe etnocêntrico da nossa parte, vimos que há uma ponta de saudade de “tudo o que ainda nem se viu”.

Se conseguirmos mirar fora das paredes dos shoppings e das extravagâncias, será possível enxergar que, mesmo com o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos e em vigor há mais de 50 anos, com diferentes períodos de arrocho, a vida cubana ainda vai bem.

Não há necessidade de deixar o imperialismo tomar conta do país, mas de abrir as portas para o conhecimento, para o avanço tecnológico e de lançar o olhar cubano para o mundo.

Levamos mais de um milhão de pessoas às ruas, pleiteando serviços públicos de qualidade, coisa que os cubanos usufruem já há algum tempo e até exportam, basta ver as centenas de médicos cubanos que chegaram ao Brasil para interiorizar de uma vez a rede de assistência do SUS.

Desbravar a ilha com vestes etnocentristas – presumindo haver um modo de vida superior à de outros grupos – nos afasta da sinceridade e profundidade da situação. Há quem ache que todos são uns pobres coitados, explorados pelo regime, pássaros presos em gaiolas. Os cubanos não são indígenas à espera do homem branco!

Em sua maioria, são orgulhosos do seu país e acima de tudo são bravos. Qual outra nação se mantém ereta ante a uma política externa norte-americana expressamente destrutiva, a qual inclusive inclui Cuba na lista de países terroristas?

É preciso buscar a captação dos valores cubanos dentro do seu sistema ordenado de significados e símbolos, nos termos dos quais os próprios cubanos definem seu mundo, e aí sim buscar a compreensão adequada da organização social da ilha caribenha, para o bem ou para o mal.

Após o retorno, ainda nos perguntam o que fomos fazer lá, se não estávamos malucos. “Por que não foram para Vegas, fritar dólares nos cassinos”? Não mesmo. Em Cuba, siempre es 26. Todo dia há um reinício da caminhada contra o ditador Fulgêncio Batista e uma retomada de sua terra dos neocolonizadores americanos. Em Cuba, igualdade é uma palavra que se pronuncia coletivamente.

Há abusos, sim, principalmente de ordem intelectual. Controlar a movimentação da livre informação é algo deplorável. Voltamos imbuídos da necessidade de repensarmos nossas políticas públicas, nosso cuidado com o cidadão, com a saúde, com a educação e não empenhados em defender o castrismo. Até porque o pensamento binário socialismo x capitalismo já não serve tão bem ao debate.

Cristovam Buarque, em seu Reaja!, afirma que “no mundo de hoje o capitalismo é um carro de luxo em alta velocidade na direção de um abismo jogando poeira no povo da margem; e o socialismo é um ônibus com velocidade um pouco menor que recolhe todos os que estavam na margem, mas vai na mesma direção do precipício”.

Para os que consideram que certa “precariedade” é sintoma do mal, trazemos a lição de Zygmunt Bauman, no seu Vida em fragmentos, no sentido de que “não foi a ausência de progresso, mas, pelo contrário, o desenvolvimento – técnico-científico, artístico, econômico, político – que tornou possíveis as guerras totais, os totalitarismos, o crescente abismo entre a riqueza do Norte e a pobreza do Sul, o desemprego e os novos pobres”.

Conhecer a ilha é por si só conclusivo e bastante instrutivo. É como revisitar velhas possibilidades que esquecemos pelo caminho. Pobreza? Carência? Não, o que vimos tem outra conotação, outra sonoridade, outro swing.

* César Gandhi, Guilherme Brandão e Walternor Brandão são bacharéis em Direito, funcionários públicos e coordenam o projeto Erga Omnes, uma iniciativa de caráter apartidário e voluntário que promove a educação política nas escolas públicas de ensino médio do Distrito Federal.

Uma outra visão sobre Cuba, por Aline Machado

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