Bolsonaro: só quem não te conhece é que te compra

“Tá querendo enganar quem, meu bem?

Tá querendo enganar?

Sei que você sabe sambar também.

Sei que você sabe sambar”

(música de Zé Roraima e Daniel Pinheiro)

Quem estava lá, como eu, duas décadas atrás, não acreditava no que estava acontecendo. O ex-todo-poderoso senador Antonio Carlos Magalhães, senhor de baraço e cutelo na Bahia, que bumbava e retumbava onde batia os pés, reaparecia no Congresso bem mais magro, os olhos ensopados de lágrimas. Subiu à tribuna do Senado, de cuja presidência havia sido apeado dois anos antes atingido por denúncias de corrupção, para dizer que havia trocado o apelido de “Toninho Malvadeza”, de que se orgulhava até então, pelo de “Toninho Paz e Amor”.

>Fabrício Queiroz depõe pela primeira vez após ser preso

Bolsonaro esta semana tentou imitar ACM, mas é aquela história: cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça. (Como esses dias ando lendo a “Paremiologia Nordestina” de Fontes Ibiapina, uma obra-prima do folclore brasileiro que reuniu em mais de 400 páginas os melhores ditados, provérbios e adágios populares do Nordeste, vou me permitir ao desfrute de salpicar alguns deles ao longo deste texto).

Raposa nunca deixa de comer galinha

O capitão, que vinha piando fino depois da prisão do Queiroz, e mais esganiçado ainda depois da sequência de contradições do advogado Frederick Wassef, hospedeiro de Queiroz, agora se esforça para exibir um tom de conciliação. Mas o “Jairzinho Paz de Amor” é difícil de engolir. Porque raposa perde o cabelo, mas não deixa de comer galinha, né?

Bolsonaro começou afagando os outros poderes num evento na presença do presidente do STF, Dias Toffoli, no qual falou em entendimento com STF, Câmara e Senado. Falou de “dias melhores para o Brasil”. Depois, nomeou o novo ministro da educação, um conservador até bem avaliado pelos que o conhecem de perto. Independente das denúncias de adulterar o próprio currículo, o gesto de nomear um negro não olavista foi um sinal positivo para reduzir a tensão com as universidades. Além disso, o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, foi para a reserva, reduzindo uma zona de atrito com a área militar, porque bolsonaristas fomentavam a intriga de que o presidente pretendia nomeá-lo Comandante do Exército no lugar de Edson Pujol, de quem Ramos era subordinado.

Pau que nasce torto morre torto

Reparando assim à primeira mirada, dá até a impressão de que Bolsonaro hasteou com sinceridade a bandeira branca. O diabo é que o pau que nasce torno morre torto. Pelo conjunto da obra não se pode dar um vintém de crédito à tentativa de firmar o “Jarzinho Paz e Amor”. Pois, ao contrário do ditado popular, águas passadas movem moinhos, sim senhor. Até hoje o capitão não se retratou da afirmação de que “ordens absurdas não devem ser cumpridas”, em referência ao Ministro Alexandre de Moraes, que determinou busca e apreensão em residências de apoiadores empresários e difusores de fake news. Também não condenou os ataques de seus apoiadores com fogos de artifício ao Supremo, lançados por uma turma de fanáticos liderados pela extremista Sara Winter, que terminou   em cana e agora anda de tornozeleira. Igualmente, Bolsonaro nunca condenou, nem na intimidade nem publicamente, os ataques de seus apoiadores ao Congresso Nacional em manifestações que contaram com sua presença. Neste domingo os ataques se repetiram com pedidos de fechamento do Congresso e do Supremo. Mas Jairzinho Paz e Amor (de araque) nem tchuns.

Quem vendeu a alma ao diabo...

Ora, como dizem no interiorzão nordestino, cabaça que carregou leite nunca perde o azedume. E quem vendeu a alma ao diabo uma vez nunca mais consegue dinheiro suficiente pra comprar de volta.

É impossível acreditar na sinceridade de um presidente que virou motivo de chacota internacional quando pôs um sanfoneiro atrás de si e ordenou, como se quisesse se livrar de um fardo: “toca aí a Ave Maria”, enquanto arrumava uns papéis. Tentativa caricata e ridícula de homenagear “os que se foram”, as vítimas da covid-19, que nunca mereceram dele a menor consideração. E sempre que tentou fazê-lo foi só pra cumprir tabela, sem transparecer qualquer sombra de sinceridade e empatia. Na certa, alguém buzinou-lhe ao ouvido que pegava bem nestes tempos de festas juninas colocar um sanfoneiro pra tocar alguma coisa. Um comentarista de uma emissora portuguesa disse que nem parecia que se referia a seres humanos. “Aos que se foram podia ser que estivesse se referindo a um gato morto”.

Não dá pra confiar mas é nem de jeito nenhum!

Sem falar que até hoje Bolsonaro não se retratou pelos atos e declarações machistas, racistas, de apologia à tortura, de apoio a ditaduras e ditadores, de desacato à imprensa e de intolerância aos que pensam de forma diversa dele. Ora, quem sonega não renega. As ações falam mais alto que os gritos. Bom exemplo, meio sermão. Pela entrada da cidade se conhece o prefeito. Pelo afinar da viola se conhece o tocador.

Desculpa aí, capitão, mas pelo rastro se conhece a forma do pé. Não demora e o Jairzão Truculento estará de volta. É aguardar. Porque cada um é filho de suas obras. Só quem não te conhece é que te compra. Gato escaldado tem medo de água fria. E cachorro picado por cobra tem medo de linguiça. O diabo é quem confia. Aliás, nem ele.

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